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Mostrando postagens com o rótulo A Comédia Humana

História da grandeza e decadência de Cesar Birotteau, de Balzac

Balzac é um dos autores mais estudados pelo chamado Direito e Literatura. É quase um curso de direito privado. Quem, no Brasil, viu uma letra de câmbio (não estou falando do pessoal do direito) fora de uma das histórias da Comédia Humana? Se, por exemplo, em Coronel Chabert temos um pequeno tratado sobre o direito das sucessões francês do início do século XIX, em César Birotteau temos uma visão bastante realista do que foi (e, em certa medida, ainda é) a falência para um comerciante honesto (Balzac dedica outro texto ao comerciante picareta, mas fica para a próxima leitura). Aqui temos quase tudo: um comerciante dedicado ao trabalho duro e metódico, que iniciou sua vida como aprendiz de um perfumista. Desenvolveu uma fórmula para a pele, acumulou uma pequena fortuna. Até que resolve investir na especulação imobiliária que se seguiu à queda de Napoleão e ao retorno do rei. Não percebeu que se tratava de um golpe de um antigo assistente - du Tillet, agora frequentador dos altos círc...

Uma filha de Eva, de Balzac

É o último texto de Balzac do segundo volume da edição organizada por Paulo Rónai, para quem "o principal interesse do romance talvez seja devido à habilidade com que Balzac conduz a sua heroína ao longo do precipício, mantendo até o fim a atmosfera do perigo". Chama atenção, também, para o reaparecimento de diversos personagens que já andaram por aqui - o conde de Granville ( Uma dupla família ), por exemplo.  A alta sociedade de Paris é o meio onde se passa a narrativa. O conde de Granville e sua esposa deram origem a duas filhas que mal conseguiam sobreviver em seu meio.  A mãe lhes conferiu educação excessivamente rigorosa a tal ponto de Maria Angélica e Maria Eugênia não estarem aptas à vida adulta - só foram a bailes com a idade de dezesseis anos, e isso mesmo só quatro vezes por ano, em casas bem selecionadas. E conhecemos Nathan, famoso escritor, um tremendo mau-caráter, amante por anos de Florine, que tenta conquistar Maria Angélica, agora a condessa de Vand...

A falsa amante, de Balzac

As famílias ricas vivem atualmente entre o perigo de arruinar os filhos se os têm em grande número, e o de se extinguirem se se limitarem a um ou dois - singular resultado do Código Civil, que Napoleão não previu. Balzac era conservador; hoje seria chamado de reacionário. No caso - o Código Napoleão acabou com os privilégios da primogenitura, resquício medieval capaz de preservar o poder e a riqueza da aristocracia. Não é a primeira vez que vemos sua repulsa ao novo regime de forma tão clara. Clementina du Rouvre é casada com o rico imigrante polonês Adam Mitgislas Laginski, que além de rico é incrivelmente feio - há duas espécies de poloneses, como há duas espécies de ingleses. Quando uma inglesa não é muito bela, é horrivelmente feia, e o conde Adão pertence à segunda categoria.  Tadeu Paz é o amigo também polonês de Adam, a quem deve favores e evita qualquer envolvimento com a assanhada Clementina. A ponto de inventar uma "amante", uma atriz de circo, Má...

Estudo de mulher, de Balzac

Os principais personagens de toda Comédia estão neste curtíssimo texto: Eugène de Rastignac, que será de fundamental importância em O pai Goriot e o famoso médico, o doutor Horace Bianchon, seu narrador. Até aqui, o primeiro narrador personagem de Balzac. A "ideia" (mais que propriamente um enredo) central - um jovem comete uma grosseria, e tenta se desculpar do ato. Rastignac escreve uma carta à sua amante, a Sra. de Nucingen (filha de Goriot). Todos sabem dessa ligação - no Baile de Sceaux , já se comentava com bastante ironia... Mas a carta acaba nas mãos da sra. de Listomère, que se faz de surpresa - mas está achando tudo muito bom. Mas leva um balde de água fria: - Senhor, o silêncio será de sua parte a melhor das escusas. Quanto a mim, prometo-lhe o mais absoluto esquecimento, perdão de que é pouco merecedor. - Minha senhora - disse Eugênio com vivacidade -, o perdão é inútil quando não há ofensa. A carta - acrescentou em voz baixa - que a senhora receb...

A sra. Firmiani, de Balzac

Não se sabe exatamente o que Balzac queria com esse A sra. Firmiani . Para Rónai, "um romance não acabado, talvez nem começado". A ação de Otávio de Camps, influenciado pela sra. Firmiani nos é relatada; ficamos sabendo do desfecho, mas isso é o que menos importa. Balzac descreve uns tipos por aí que, descobrimos, estão entre nós até hoje: O Observador - fala como um profeta. Temos de aceitar suas palavras, suas anedotas, suas citações como verdade, sob pena de passarmos por um homem sem instrução e sem meios.  O Contraditor - essa espécie de gente faz a errata de todas as memórias, retifica todos os fatos, aposta sempre cem contra um, tem certeza de tudo. Os Plantadores - gente habituada a se dar conta de tudo e a fazer negócios como os camponeses. Tudo isso na rue du Bac, onde a sra. Firmiani tinha seu palacete. Hoje: Rue du Bac, Paris

A paz conjugal, de Balzac

A aventura narrada nesta cena passou-se em fins de novembro de 1809, momento em que o fugaz império de Napoleão atingia o apogeu de seu esplendor. As fanfarras da vitória de Wagram ecoavam ainda no coração da monarquia austríaca. Não se engane. Balzac não deixa isso passar em vão: Naquele tempo os corações eram nômades como os regimentos. De um primeiro a um quinto boletim do Grande Exército, uma mulher podia ser sucessivamente amante, esposa, mãe e viúva. Seria a perspectiva de uma viuvez próxima, de uma dotação ou a esperança de usar um nome destinado à história que tornaram os militares tão sedutores para as mulheres? Neste pequeno texto, Balzac nos coloca dentro de um dos grandes bailes do Império e nos apresenta ao conde de Soulanges, cortejando (oh, adorável século XIX) a Mme. Vaudremont que, por sua vez, parece mais afeiçoada a Marcial. Este, por sua vez, não tira os olhos de uma desconhecida mulher de azul. Aposta com o coronel Montcornet que conseguiria tira...

Uma dupla família, de Balzac

Neste Uma dupla família Balzac usa o que hoje chamamos de flashbacks : a narrativa se inicia com o rico Roger e a jovem operária Carolina Crochard. Terão dois filhos. Na segunda parte, M. de Ganville, advogado promissor, convidado para o tribunal (desde o século 19 parece melhor ser um "magistrado do ministério público" do que um simples advogado), casa-se, por interesse, com a jovem e bela Angélica Bontemps.  E logo percebemos que estamos o tempo todo a falar de Roger Granville - a tal dupla família do título.  Angélica mostra-se fria, austera, uma verdadeira beata, o que torna a vida de Roger insuportável: Uma manhã, o pobre Granville notou, com tristeza e dor, todos os sintomas da carolice em sua casa. Encontram-se pelo mundo certas sociedades nas quais existem os mesmos efeitos  sem que sejam produzidos pelas mesmas causas. O tédio traça em torno dessas casas infelizes um círculo de ferro que encerra o horror do deserto e o infinito do vácuo. Um lar não é então...

A Vendetta, de Balzac

— Ah! Vocês não são mais corsos — exclamou Bartolomeu, numa manifestação de desespero. — Adeus. Em outros tempos eu os protegi — acrescentou em tom de censura. — Sem mim tua mãe não teria chegado a Marselha — disse ainda, dirigindo-se a Napoleão, que permanecia pensativo, o cotovelo apoiado sobre o pano da chaminé.  — Em consciência, Bartolomeu — respondeu Bonaparte —, não te posso acobertar com minha proteção. Tornei-me o chefe de uma grande nação, sou o chefe da República e devo fazer cumprir as leis.  — Ah!, ah! — fez Bartolomeu.  — Mas posso fechar os olhos — continuou Bonaparte. — O preconceito da vendeta impedirá por muito tempo o reinado da lei na Córsega — acrescentou, falando consigo mesmo. — É preciso contudo destruí-lo a qualquer preço .  A Comédia prossegue.   Em  1800, uma família de refugiados abandona a Córsega e chega a Paris. Bartolomeo di Piombo, sua esposa e sua filha deixam para trás a violenta ilha -  as fam...

Alberto Savarus, de Balzac

Albert Savarus é um advogado parisiense que acaba parando em Besançon. Balzac explica que "nenhuma cidade oferece resistência mais surda e muda ao progresso". E, pior:  De Victor Hugo, de Nodier, de Fourier, as glórias da cidade, não se fala, ninguém lhes dá atenção. Paulo Rónai avisa - Savarus é o próprio Balzac, "basta ler o retrato físico de Alberto, que, no decorrer da novela, aparece com todos os traços, idealizados, do romancista, vestindo-lhe até o famoso robe de chambre"; na novela de Savarus aparecem alguns personagens da  Comédia .  Uma das grandes famílias de Besançon é a dos Watteville. A mulher do barão é uma jararaca controladora; a filha é Rosália, que logo se apaixona pelo advogado. Aproveita-se do namoro entre os respectivos criados e passa a ler as cartas de Alberto para a Duquesa Argaiolo. Os dois têm um caso.  Alberto escreve um conto - que nos é "recontado" por Balzac, O ambicioso por amor.  Rosália escreve uma c...

Uma estreia na vida, de Balzac

Pouquíssimo lembrado, o curto romance Uma estreia na vida merece uma leitura mais cuidadosa. Oscar Husson é um homem comum, manso, sem pretensões, modesto e sempre se mantendo, como o seu governo, num justo meio. Não causa nem inveja nem desdém. É, enfim, o burguês moderno. Oscar é detestável: pobre com vergonha da mãe, procura fazer carreira, mas tem uma inacreditável habilidade de falar e fazer besteira, que sempre coloca tudo a perder.  Boa parte da narrativa se passa nos coucous, modalidade de transporte ainda explorada por particulares na França. Balzac, aliás, inicia seu romance falando que isso logo fará parte dos "velhos tempos": As estradas de ferro, num futuro já agora não muito distante, deverão fazer desaparecer certas indústrias, modificar algumas outras, principalmente as que concernem aos vários modos do transporte em uso nos arredores de Paris. Também, breve, as pessoas e as coisas que forma os elementos desta cena lhe darão o mérito de um trabalho ar...

Modeste Mignon, de Balzac

O último texto do 1º volume da Comédia Humana  organizada por Paulo Ronai e reeditada pela Globo. Como dizia Carpeaux, os romances de Balzac estão povoados por advogados, proprietários, industriais, comerciantes e aristocratas decadentes. O dinheiro é o grande mestre. O pessoal do direito tinha que ler Balzac e Dickens. Os dois são os melhores professores possíveis de direito civil e comercial da história da literatura. Se em O baile de Sceaux a personagem, depois de passar a vida escolhendo o par acaba tendo que se casar com o primeiro que lhe aparece, aqui é o contrário: Modeste é de uma família burguesa que (como todos elas) quer chegar à aristocracia. Seu pai, Charles Mignon de la Bastie, no entanto, está falido.  O sr, Carlos Mignon partiu esta manhã no navio Modesta para a Ásia Menor, tendo deixado plenos poderes para o fim de realizar todos os valores, mesmo os imobiliários. Deixa as duas filhas e a esposa. A irmã de Modeste, Betina, morre depois de ser enga...

A Bolsa, de Balzac

O pintor Schinner (Georges Cain) Este A Bolsa não é das mais interessantes d' A Comédia Humana. Hipólito Schinner é um famoso pintor que sofre um acidente em seu ateliê. Ao recobrar os sentidos, descobre que foi socorrido por Adelaide de Leseigneur e sua mãe, a baronesa de Rouville. Em retribuição, faz-lhes uma visita - a longa descrição do apartamento das duas é típica de Balzac: Aquela peça servia de museu para certas coisas que não se encontram senão nessas espécies de lares anfíbios, objetos sem nome, que participam ao mesmo tempo do luxo e da miséria. Hipólito descobre que as duas sofrem com a morte do pai/marido, o sr. de Rouville, comandante de um navio que morreu em combate com os ingleses. O crescente interesse do pintor por Adelaide sofre alguns contratempos; o principal deles é a grande desconfiança que todos têm em relação ao que fazem para se sustentar as duas mulheres: - Alto lá! É uma rapariguinha que vou ver todos os dias na igreja de l'Asso...

Memórias de duas jovens esposas, de Balzac

A ideia de ler toda a Comédia leva invariavelmente a descobrir romances, contos e novelas que costumam ser esquecidos do público - ao menos, o brasileiro - e é justamente o caso destas Memórias de duas jovens esposas. Romance epistolar, acompanha duas amigas dos 17 aos 30 anos, que saem do convento e tomam destinos bem diferentes -  Luísa de Chaulieu passará sua vida à procura de amor; a outra, Renata de Maucombe, procura um marido. Como consta de uma das cartas, uma terá as flores sem os frutos, a outra, os frutos sem ter tido as flores . Luísa vem de uma das grandes famílias da França, e vai encontrar o que quer duas vezes - dando-se mal em ambas; um professor de espanhol, o duque de Soria, e Maria-Gastão, um artista duro (eles estão sempre por aqui na obra de Balzac... no Chat-qui-pelote, temos Augustine e Theodore de Sommervieux). Tirana, arrasta os dois infelizes. Renata é mais conformada; dedica-se à família e abandona Paris para a província. São os frutos em flor. ...

O baile de Sceaux, Balzac

Seguindo a Comédia Humana de Balzac, na edição organizada pelo Paulo Rónai (mas não por ele traduzida; no caso desta novela, por Vidal de Oliveira) e publicada pela Globo, vamos ao Baile de Sceaux. A novela, passada entre 1815 e 1825, não é daquelas mais lembradas quando se fala em Balzac. Como o próprio Rónai disse, comentando outro texto da Comédia, não se poderia esperar algo diferente de um sujeito que se deu ao despeito de escrever obras-primas como Ilusões Perdidas, Eugène Grandet entre outros. Pode ser lida de várias formas; como já se disse em diversos lugares, é uma história "edificante", que mostra a punição dada pela vida a Emília que, depois de passar anos rejeitando caprichosamente seus pretendentes, acaba tendo de se casar com o primeiro que lhe aparece. Ela queria a todo custo se casar com um "par" do reino. Estamos num período de restauração da ordem monárquica, e seu pai, o conde de Fontaine, é um fiel servidor da casa dos Bourbons. ...

La Maison du Chat-qui-pelote, Balzac

A reedição da obra de Balzac, naquela que é considerada a melhor tradução do mundo da Comédia Humana, por Paulo Rónai, é um acontecimento a ser celebrado. Já foram editados os quatro primeiros volumes. Um bom projeto: ler todos os romances e contos... Na última semana, li o primeiro de todos - La maison du chat-qui-pelote, Ao   Chat-qui-pelote, na versão de Rónai. Aqui, uma versão para a televisão francesa. Disse Balzac: A ideia primeira de A Comédia Humana foi para mim, a princípio, como que um sonho, como um desses projetos impossíveis que se acariciam e se deixam voar; uma quimera que sorri, que exibe seu semblante feminino e logo em seguida distende as asas, subindo para um céu fantástico. Mas a quimera, como tantas quimeras, transforma-se em realidade; tem suas imposições e suas tiranias, às quais se é forçado a ceder. Essa ideia nasceu de uma comparação entre a humanidade e a animalidade. Como bem apresenta Rónai, este primeiro romance já contém muito ...