sexta-feira, 31 de maio de 2013

Mendelssohn no telhado, de Jiri Weil

Até ler o romance HHhH, de Laurent Binet, o nome de Jiri Weil não me dizia nada. 

Jiri Weil (1900-1959)

Resolvi ler este Mendelssohn no telhado por me lembrar não apenas de Binet, que estará na FLIP, mas também pelo recente 200º aniversário de nascimento de Richard Wagner. E, também, pelo fato de o autor ter sido praticamente redescoberto por Philip Roth.

Wagner e Mendelssohn - ou melhor, suas estátuas - estão na gênese do enredo. O romance é ambientado na Praga ocupada - o Protetorado - comandada por Reinhard Heydrich, o HHhH de Binet. Para livrar a cidade - que, segundo os nazistas, sempre fora alemã, e que acidental e temporariamente havia sido ocupada pelos tchecos - dos símbolos judaicos, os invasores decidem arrancar a estátua do judeu Felix Mendelssohn, no telhado da Ópera de Praga. O membro da SS Julius Schlesinger é o encarregado para tanto mas, lá chegando, descobre que há uma infinidade de estátuas de outros compositores. Qual a de Mendelssohn? Qual é mais parecida com um judeu? Tenta se lembrar das aulas de ciência racial, e se lembra que o judeu só poderia ser a daquele narigudo, e tenta arrancar a estátua do querido Wagner... Isso irá gerar suspeitas e mesmo paranóia entre os próprios alemães - SS e Gestapo.



O início, portanto, é bastante irônico. Para ser franco, este incidente está entre os mais interessantes e bem-humorados que já li em ficção sobre a Segunda Guerra. Mas não se engane: rapidamente, o romance segue um caminho bastante diferente; o drama da ocupação é evidenciado; as vidas de judeus e/ou tchecos comuns durante a ocupação. A vida e a condição dos judeus encarregados pelos alemães de controlar o gueto - autoridades temidas e odiadas entre os judeus; passíveis de serem mortos pelo mais raso soldado alemão - também são presença constante.

A estrutura deste romance lembra a de um livro de contos. Um romance um tanto relutante, uma sucessão de episódios cuja conexão só fica evidente lá pelo terceiro capítulo. Numa dessas vinhetas, somos apresentados ao Dr. Rabinovich, uma liderança entre os judeus, não sabe identificar Felix (afinal, ele havia abandonado a religião, o que não fazia a menor diferença para os alemães). Mas percebe que está trabalhando em um museu sobre um povo (o seu) que em brave será extinto.

Ao contrário de autores como Primo Levi, Aharon Appelfeld e Elie Weisel, que também trataram do Holocausto, este escritor tcheco é praticamente desconhecido no Brasil. Uma pena.

Um comentário:

  1. Mais um desconhecido descoberto pela Biblioteca. Pena que os editores brasileiros ainda não façam descobertas...

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