quinta-feira, 30 de maio de 2019

Parque cultural, de Serguei Dovlátov

Resultado de imagem para parque cultural dovlatov
Parque cultural
Serguei Dovlatov
Tradução de Yulia Mikaelyan
Kalinka, 166 p.

Os últimos anos foram extraordinariamente bons para a literatura russa no Brasil, não só pelas novas traduções, diretas, dos clássicos que líamos a partir de versões francesas ou inglesas, como de autores do século XX que ignorávamos por completo. A Kalinka, por exemplo, vem lançando a obra de Serguei Dovlatov (1941-1990), de quem li este Parque Cultural, na tradução de Yulia Mikaelyan, que ainda apresenta textos introdutórios da vida e da obra do autor.

O narrador em crise encontra trabalho num estranho parque temático, uma Disney para o grande fundador da literatura russa Puchkin. As Colinas de Puchkin. O parque de fato existe. Acho que só os russos levam seus escritores tão a sério. 

Na novela, os turistas procuram cada detalhe de sua vida - alguns estrangeiros, claro, mas muitos soviéticos. Ávidos por informações que provavelmente já terão esquecido no dia seguinte; da origem africana que é convenientemente trabalhada até a arma usada no duelo fatal - o turista faz questão de saber se era, de fato, a arma.

Censurado, publicado clandestinamente e somente levado a sério após a morte, Dovlatov impõe ao seu alter-ego o mesmo destino, por meio de ironias a respeito da escrita e da censura. Estamos nos anos cinzentos anos 70 da estagnação sob o governo Brejnev: antissemitismo, emigração... Boris Alikhanov, discutindo a possibilidade de sair da URSS com sua esposa e sua filha, pergunta:

- Mas meus leitores estão aqui. E lá... Quem vai querer ler meus contos em Chicago?

- E quem os quer aqui? A garçonete do Lukomorie, que nem o cardápio lê?

- Todos. É que ainda não se deram conta disso.

Um livro curto, baseado em diálogos - como Dovlatov se sai bem com eles! - e divertidíssimo.  

Nenhum comentário:

Postar um comentário