domingo, 18 de agosto de 2013

Conto da semana, de Isaac Babel


Fui apresentado aos contos de Babel (1894-1940) por uma edição brasileira de 1989 d'A Cavalaria Vermelha, numa tradução a partir da edição soviética em espanhol, por Roniwalter Jatobá. Babel serviu no Exército Vermelho - foi comissário político no 1º Exército de Cavalaria - a Cavalaria Vermelha - durante a guerra de 1918-1922. Estava empolgado com a Revolução, que imaginava fosse enterrar os pogroms do regime czarista e seu antissemitismo. Como se sabe, errou feio.

Os contos dessa coletânea já haviam desagradado o regime stalinista (seus personagens admiravam Trotsky, e as narrativas, plenas de ironia e violência). Foi executado pelo regime e dele só se voltou a ouvir falar nos anos 1950. Seu destino, confirmado apenas após 1989.

Quando os arquivos da KGB foram abertos, resgatou-se o seguinte trecho do interrogatório de Babel. Kafka não teria escrito melhor:

- Você foi preso por atividades anti-soviéticas traiçoeiras. Você reconhece sua culpa?

- Não.

- Então como você explica sua inocência diante da sua prisão?

Sobre Babel, disse Carpeaux: é o olho míope do intelectual, discípulo consciente de Maupassant, examinando de perto as chagas sangrentas infligidas às criaturas humanas e aos bichos pela terrível brutalidade da guerra civil; é o olho aparentemente insensível do artista que contempla as ruínas de cidades e casas destruídas como se os destroços fossem elementos cúbicos de um quadro moderno. Babel aceita tudo isso friamente; e foi justamente por causa desse fatalismo que os stalinistas o perseguiram como oposicionista (...) É, a muitos respeitos, o maior contista que já surgiu no século XX.

Maupassant. 

A Nova Antologia do Conto Russo, da editora 34, traz o conto Guy de Maupassant, de Babel. A tradução agora é diretamente do original russo, de Nivaldo dos Santos. Bem diferente, seja em temática, seja em estilo, da Cavalaria.

O narrador (Babel?) se recusou a ser um medíocre funcionário de escritório - é melhor a fome, a cadeia e a vagabundagem do que ficar sentado à mesa de um escritório dez horas por dia.

Foi indicado para auxiliar Raíssa Mikhailovna Bendierski em sua empreitada de traduzir Maupassant, a única paixão da mulher. Em troca, ganha também um teto. Mas a tradução que ela faz, ou tenta fazer, de Miss Harriet, não lhe agrada - não respeitava nenhum vestígio do autor, dizia. E prossegue, num dos grandes momentos do conto:

Então comecei a falar sobre o estilo, sobre o exército de palavras, um exército no qual todo mundo. Nenhum ferro pode penetrar no coração humano de forma tão congelante do que um ponto colocado na hora certa.

Um tremendo elogio a Maupassant.

Nesta narrativa, Babel fala da arte, da literatura, ao mesmo tempo em que o narrador e Raíssa obviamente acabam se envolvendo.  Além de Miss Harriet, os personagens discutem também sobre L'Aveu (A Confissão) e Idílio. Há uma visão dos seus contos, sim, mas também uma outra - a do tradutor, que acaba por reler Maupassant a partir de suas próprias experiências e visões da arte. E o mundo do escritor francês também se reproduz aqui; afinal, Raíssa e o narrador estão sob efeito do vinho, e ela, com seus ombros à mostra...

O último parágrafo é dedicado ao próprio Maupassant, contando-nos sobre seus últimos momentos - louco em decorrência da sífilis e trancafiado num hospício.

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