quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Como aprendi o português e outras aventuras, de Paulo Rónai

Como aprendi o português e outras aventuras
Paulo Rónai
Casa da Palavra/Biblioteca Nacional

Já confessei certa vez o respeito que me incutem dicionários e dicionaristas. Um respeito que não está completamente isento de medo, desde que sei que Dom Casmurro, antes de ser escrito, já estava inteirinho num dicionário qualquer: bastava arrumar-lhe as palavras de determinado jeito para daí sair o grande livro de Machado de Assis. (em Utilidade das Ideias Afins, 1950).


Em tudo isso, porém, as gerações novas levam vantagem às antigas: enquanto estas desperdiçavam tempo em aprender as línguas alheias, aquelas descobriram a maneira de viver muito bem sem entender sequer a própria (em As cem maneiras de estudar idiomas, 1950).


Paulo Rónai (1907-1992) é um dos heróis da Biblioteca. Li muita coisa organizada e/ou traduzida por ele - Mar de Histórias, as traduções de Os meninos da rua Paulo e da Comédia Humana. Recentemente, seus textos vem sendo reeditados. Neste Como aprendi o português... Rónai apresenta uma verdadeira autobiografia, através de artigos publicados ao longo dos anos em diversos veículos. Os textos foram reunidos, pela primeira vez, em 1956.

Esta edição conta com o texto Paulo Rónai ou a costura do mundo, de Ana Cecília Impellizieri Martins. Entre outros aspectos, destaca a amizade com Aurélio e, claro, a grande antologia Mar de Histórias.

São infinitos os grandes momentos desta coletânea de textos.





Ele defende a continuidade do ensino de Latim nas escolas (luta inglória, ele que foi professor de Latim e Francês no Rio). Numa outra polêmica da época, entra na discussão sobre a conveniência ou não de se permitir que o aluno optasse entre o inglês e o francês. E lamenta que os alunos não consigam mais entender o que lêem (e, vejam, estamos nos anos 50!).

Como todo bom professor de Francês, dedica-se a analisar alguns clássicos - Victor Hugo, Villiers de L'Isle-Adam (devo a Rónai a descoberta desta figura, num conto já comentado aqui), Daudet, Loti (cuja existência me era desconhecida até este livro).

No texto que empresta o título ao livro, Rónai fala de seus amigos linguistas só interessados em idiomas exóticos e de suas primeiras descobertas nas livrarias de Budapeste. E que Kosztolányi, famoso escritor húngaro, achava o português alegre e doce como um idioma de passarinhos. Com a situação política se agravando, vai a Portugal:

Sofri, porém, decepção tremenda. Passei seis semanas em Lisboa sem que conseguisse entender patavina da língua falada. Pegava do jornal e compreendia-o perfeitamente; o porteiro do hotel ou o garçom do café diziam três palavras, e eu me via outra vez no mato sem cachorro. Humilhação ainda maior: os intelectuais portugueses, aos quais fui apresentado, depois de uma tentativa frustrada de falarem a sua língua comigo, recorreram ao francês. 

Uma excelente introdução, não só à obra de Rónai, seus gostos e métodos, como também ao Brasil dos anos 40/60.

Um comentário:

  1. Pierre Loti, um nome na minha memoria. Meu pai falava muito dele , de alguma forma relacionada com a Turquia. Teria viajado para la ou escrito algo a respeito? E.

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