quarta-feira, 14 de agosto de 2013

O vale do fim do mundo, de Sándor Lénárd

O Vale do Fim do Mundo
Sándor Lénárd
Tradução: Paulo Schiller
Cosac Naify, 2013
224p.


A despeito de onde nos encontremos - ainda que seja de cabeça para baixo no universo, ainda que no Natal arda sobre nós o sol de verão -, sempre estamos no meio do mundo, o fim do mundo fica sempre à mesma distância de todos os lugares. No máximo, não somos acompanhados por tudo em nosso caminho: as catedrais góticas não deixam a Europa. As igrejas barrocas vieram até a Bahia, e lá se detiveram sob o peso de tanto ouro. A última biblioteca em cujo catálogo encontramos o nome de Erasmo de Roterdã é a de São Paulo. Em Blumenau ainda se sabe o que é uma geladeira. O último banheiro e o último anão de jardim fica em Tenente Gregório. Um harmônio chegou à igreja de Donna Irma. E por conta própria, chegamos até onde apenas o sábio não sente falta de nada, porque os antigos romanos constataram que ele "leva consigo todas as suas posses".  página 14.

Jamais ouvira falar de Sándor Lénárd até o lançamento deste O vale do fim do mundo. O autor era húngaro, mudou-se para o Brasil e viveu na cidade de Dona Emma (SC), onde exerceu as atividades de médico e farmacêutico. Como todo bom europeu do Leste, falava um monte de línguas - traduziu para o latim o Winnie the Pooh. Lembro-me imediatamente de Paulo Rónai, também húngaro, poliglota, tradutor e latinista. Também símbolo de um mundo que já não existia...

No site da Cosac Naify, um artigo fala que Lénárd, por ser médico, falando alemão e vindo da Europa e morando num ponto remoto do sul do Brasil, foi confundido com... Mengele!

Dona Emma é, no romance, Donna Irma. A vida no interior - no Alto do Vale do Itajaí nos anos 50/60; as impressões de um estrangeiro, muitas vezes não muito simpática. Uma autoficção, talvez - ele fala, por exemplo, que sua biblioteca inglesa se resume ao Ursinho Pooh e a brasileira, à excelente tradução de Paulo Rónai d'os Meninos da Rua Paulo (um clássico dos meus doze anos).

Outro ponto curioso - lá pelas tantas, ele fala do Dr. Knock, de Jules Romain, um médico picareta - o homem saudável é o paciente que não sabe qual é o seu mal - que me lembrou meus anos de Aliança Francesa.









A casa de Lénárd, em Dona Emma (SC)

Confesso que senti uma certa dificuldade com a ideia de que se trata de um romance. Mais parece - e isso não é nenhuma crítica - um daqueles relatos de viajantes estrangeiros impressionados com a vastidão e o exotismo brasileiros, tão comuns nos séculos anteriores. Com muito bom humor, percebe-se.

Um comentário:

  1. Mais um livro que a Biblioteca tira "do fim do mundo" e aumenta nossa lista de espera provocando as angustias de não poder ler tudo que queremos. Já está na fila e , se não existirem pistolões ou pressões da Dilma, vamos ler este húngaro nos próximos dias (...ou séculos).E.

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