sábado, 30 de novembro de 2013

Tão longo amor tão curta a vida, de Helder Macedo




Tão longo amor tão curta a vida. O título do mais recente romance do português Helder Macedo (1935) e lançado agora pela Rocco é também a última estrofe do soneto Sete anos de pastor Jacob servia, de Camões. Jacob, sabe-se, ficou com as duas irmãs, Raquel e Lea.

Victor Marques da Costa é um diplomata português que está em Londres para uma conferência sobre o Oriente Médio. Sobre uma Líbia sem Kadafi, sobre uma Síria com Bashar, sobre o Irã. Ele aparece, repentinamente, na casa de seu amigo, um conterrâneo, escritor (Macedo?). Aflito, dizendo-se vítima de um sequestro, começa a contar-lhe uma história, tão interessante quanto improvável. O diplomata admira o amigo escritor, que no entanto não tem tanta certeza assim deste apreço.

O escritor então começa a ouvir a história do atormentado amigo, que um dia conheceu uma certa Lenia Nachtigal, quando servia em Berlim Oriental em seus últimos dias. A história que conta é confusa - a jovem, filha de agentes da Stasi, é cantora lírica. Resolve atravessar o Muro e, ao que parece, nunca mais é vista. A partir daí, Victor Marques da Costa está à sua procura; a cada ópera que assiste pensa tê-la finalmente encontrado.

Mas Macedo começa a duvidar desta história. Num momento que lembra Machado de Assis (de quem é admirador confesso), desabafa: "convenhamos que até agora tenho sido um autor disciplinado e comedido, reduzindo ao mínimo minhas intervenções pessoais" - e completa: "Longe de mim ser um daqueles oportunistas pós-modernos que aproveitam os leitores estarem distraídos com a vida dos outros para se meterem logo à frente da narrativa".

O fato de o amigo diplomata estar com a camisa ensanguentada o leva a pensar se não seria ele o autor de algum crime. Um assassino, talvez. Desiste de escrever o romance ao qual vinha se dedicando. Lenia conhece uma outra Lenia, uma brasileira, filha de empresário, uma Lenia Bonamor - "É, no Brasil as vogais se abriram com o calor". Esta, por sua vez, quer encontrar o antigo amante da recém-conhecida.

Macedo então resolve contar a sua versão da história que acaba de ouvir. Torna-se tão personagem quanto o próprio Victor Marques da Costa. A trama vai se enrolando cada vez mais - e os limites entre a realidade e ficção perdem-se por completo.

Victor Marques da Costa busca incessantemente um autor - que finalmente encontra, como também encontram as duas Lenias e Otto, o funcionário da embaixada portuguesa na Alemanha Oriental. Como em Pirandello, quatro personagens em busca de um autor.

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