segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Ian Buruma e o Ano Zero


O que mais impressionava os visitantes alguns meses depois da guerra era o estranho silêncio.

Oficialmente, a Segunda Guerra acabou em maio de 1945. Mas para muitos, em muitos países, vencedores e vencidos, foi o começo de um novo inferno. Tropas russas massacraram alemães; em Berlim, estupraram as mulheres que viam pela frente; os judeus libertos eram extremamente indesejados e, muitas vezes, culpados pelas desgraças vividas e assassinados; acertos de contas entre ocupados e alemães, e uma infinidade de outros massacres. Como dizia o alto-falante em Berlim nesta época: "Soldado, você está na Alemanha. Vingue-se dos hitleristas!"

As mulheres, por sua vez,  saíam com os libertadores num, digamos, ritmo e intensidade que chocaram os demais conterrâneos. Os homens sentiam-se humilhados pelos soldados americanos e canadenses. Houve também fome - generalizada.

Milhões de alemães étnicos estavam espalhados pelo leste europeu há gerações, e agora viram-se obrigados a retornar ao seu destroçado país. Nem todos conseguiram - muitos foram massacrados nas primeiras horas do pós-guerra. Judeus que voltavam para suas cidades descobriam que suas residências estavam ocupadas por famílias que não estavam dispostas em abandonar as novas moradias. Mesmo na Holanda. Não podiam reclamar - deviam ser discretos e gratos.

Não que tais fatos sejam exatamente novidades. Tony Judt, por exemplo, em seu monumental Pós-Guerra, já tinha tratado destes acertos. Mas este 1945: Ano Zero é centrado neste pós-guerra imediato, e não se resume ao europeu - a Ásia, em torno do derrotado Japão, também tem destaque.


O livro ainda não foi publicado no Brasil. Foi lançado recentemente, e soube dele pelo Manhattan Connection de algumas semanas atrás. Facilidades do Kindle.  

Buruma nasceu bem depois do fim da guerra e viveu na Holanda e no Japão, onde estudou História, literatura chinesa e cinema japonês. Isso explica muito do livro, evidentemente. Seu pai voltou da Alemanha para casa, na Holanda, sem saber o que, quem e como encontraria sua vida passada, em Utrecht. Ele era estudante de direito em 1941, foi feito prisioneiro alemão e sobreviveu ao bombardeio de Berlim, aos confrontos rua-a-rua e conseguiu voltar para casa.

Um dos capítulos mais interessantes é o que trata da reeducação dos povos derrotados. A desnazificação na Alemanha - mas os professores eram todos crias do regime. Ainda havia uma sensação de que o regime fora positivo nos anos de paz. No Japão, tudo foi diferente; o japonês não viu nenhuma vantagem no militarismo recém-derrotado. Talvez por isso mesmo a influência cultura americana tenha sido tão intensa.

No final, o relato da construção da ideia europeia, desde as primeiras reuniões ainda em 1942, e também das Nações Unidas. Um relato, apesar de tudo, bem otimista: os grandes legados da reconstrução do mundo a partir de 1945 teriam sido os direitos humanos e a construção do Estado do bem-estar social. 

Mas, no fundo, parece que basta uma crise econômica mais grave para a ideia da União Europeia ser posta em xeque, os neonazistas ressurgirem em vários países (Hungria e Grécia em destaque óbvio), sem falar das guerras dos bálcãs. Parece, mesmo, que nunca se aprende nada... George Steiner diz que havia, em 1914, uma certa "nostalgia da catástrofe", já que havia se passado muitos anos desde a última grande conflagração continental - Napoleão. Talvez seja isso mesmo - de tempos em tempos, precisemos quebrar tudo.

Um comentário:

  1. Fassbinder tem vários filmes retratando a época. Vale a pena (re)vê-los. A proposito, Tony Judt escreveu obra esclarecedora e que já esta caminhando para o esquecimento...

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