domingo, 26 de junho de 2016

The noise of time, de Julian Barnes







Ser um heroi é muito mais fácil que ser um covarde. Para ser um heroi, basta um momento de bravura... Mas ser um covarde exige uma carreira que dura uma vida antecipando a próxima ocasião de desculpas, de adulação servil, de tremor ...
A "carreira" da covardia de Shostakovich começa em 1936, quando seu Lady Macbeth do distrito de Mtsensk, a partir do conto de Leskov. O Pravda fez severas críticas, o que significa dizer, claro, que Stalin detestou a composição. Além disso, disse que a música não era soviética, mas voltada para "atender aos gostos depravados dos ouvidos burgueses" - aquela mania de tentar recriar o mundo, tão cara aos comunistas. Isso era o suficiente para acabar com a carreira de um artista, metafórica e literalmente.

Era o auge do Grande Terror, e Dmitri estava pronto a receber em sua casa a temida visita dos agentes da NKVD (que depois se tornaria a KGB), que o levariam, de pijama,  para um lugar de onde provavelmente jamais sairia; seus filhos seriam destinados a orfanatos para "órfãos dos inimigos do Estado". De fato, Shostakovich dormiu por anos próximo à porta de seu apartamento, com uma pequena mala já feita, antecipando-se a essa noite que, sabemos, jamais chegou. Vários amigos músicos já haviam desaparecido nas dependências da temida Lubyanka, quartel-general da polícia política. O gulag seria o melhor dos destinos.

Com pequenos capítulos, Barnes mostra o resultado de sua extensa pesquisa, abrangendo toda a complexa vida do compositor. Antes de iniciar a leitura, lembrei-me de Solomon Volkov. Seu único livro que ainda não li é justamente o mais polêmico, sobre Shostakovich. Barnes faz referência expressa à obra: Testimony (Testemunho).

O que o salvou do desastre de  Lady Macbeth do distrito de Mtsensk? Algo profundamente irônico - seu acusador cai em desgraça no regime. Isso deu a Dmitri a oportunidade de retomar a carreira.

Anos mais tarde, numa ligação telefônica, Stalin, pessoalmente, o convoca para ser enviado de paz a Nova York. A relutância do compositor em aceitar a missão irrita Stalin. Shostakovich alega que a rejeição a Lady Macbeth lhe era constrangedora. Stalin se mostra surpreso e eis que, a partir de então, a composição passa a ser elogiada pelo regime.

Acaba sucumbindo e, nos EUA, ataca publicamente Stravinsky, a quem tanto admirava, a mando do regime, para reiterar sua crença no slogan de Lenin -  a arte pertence ao povo. Sua passagem pela América é polêmica, e não poucos o criticam sua postura diante do regime. Afinal, músicos como Stravinsky e Rachmaninoff estão na América há anos, denunciando o totalitarismo bolchevique.

E, num terceiro momento, é persuadido a ingressar no Partido Comunista, já no regime Kruschev.

À medida em que acompanhamos essa relação entre compositor e ditador, há algo curioso de se perceber: a integridade física fica cada vez mais assegurada, em relação inversa com a integridade moral, a alma de Dmitri.  Assinou, por exemplo, um manifesto contra Soljeniztin (Um dia na vida de Ivan Denisovich) e sua denúncia dos gulags. Shostakovich realmente admirava o autor.

Barnes refere-se a Stalin como the Power - o Poder. E a relação entre Poder e músico é o objeto de intensas discussões até hoje. 

O autor não condena seu personagem, mas deixa claro discordar da ideia de arte como algo do povo: ela pertenceria a todas as épocas, e a época alguma - pertence sim àqueles que a criam e também aos que dela desfrutam. A arte é o sussurro da história que se ouve por cima do tempo, diz.

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