sexta-feira, 20 de maio de 2016

O negociante de inícios de romance, de Matéi Visniec


 


' Hoje, a mãe morreu'.

Você acha mesmo que uma asserção assim tão simples pode sair da mente de um escritor? Asseguro-lhe que não. Escritor é, por regra, pessoa complicada, dilacerada intimamente, contorcida, cheia de contradições, consumida por ambições, muito pouco generosa, se bem que se inflame com a ideia de humanidade.

Não, lhe asseguro que Albert Camus nunca teria começado o romance O Estrangeiro com essa frase se não a tivéssemos fornecido nós. Aliás, nem sequer teria escrito esse romance num estilo tão simples, tão linear, tão confessional, visando a maior credibilidade, se não lhe tivéssemos oferecido, nós, o ponto de partida, se não tivéssemos aberto, nós, esta miraculosa portinhola.

'Hoje, a mãe morreu'.

Vários foram os clientes dessa organização: Thomas Mann, Kafka, H.G. Wells, Melville... O misterioso negociante, Guy Courtois, membro de uma organização de mais de trezentos anos, está estudando um jovem aspirante a escritor romeno. Precisa saber como irá ajudá-lo. Por outro lado, sua missão não é fácil - afinal, a língua romena jamais fora contemplada com um Nobel de literatura... 

No entanto, essa mesma organização está ameaçada - hoje se escreve em excesso, surgiram máquinas que escrevem romances combinatórios - a era do romance industrial, diz Courtois.


Matéi Visniec (1956) é, antes de romancista, um dramaturgo recém-descoberto no Brasil. Entre a ficção científica - diga-se que a "ação" se passa em 2025 - e o absurdo,  não espere nada parecido com uma narrativa convencional, mas um texto fragmentado e inconcluso, tipicamente pós-moderno. Na tradição de Ionesco, com quem, aliás, costuma ser comparado.

Comecei a destacar no livro vários trechos e me dei conta que, por vezes, grifei páginas quase inteiras. 
 
Além do aspirante a escritor romeno M., temos Bernard, um sujeito que o observa, a serviço de Courtois; e temos ainda o Torturador - que nome apropriado para esse ser que nos assombra às noites e invade nossos sonhos - sim, quer meio melhor de conhecer alguém que através dos seus sonhos? - e uma greve de escritores romenos, revoltados pelo fato de a  Academia  não ter, jamais, escolhido um romeno que escrevesse na língua materna como o Nobel. 

Impossível não se lembrar da nossa eterna espera por um Nobel brasileiro - mas os "suicídios literários cometidos na Romênia no fim do segundo decênio do século XXI" e seus efeitos midiáticos me fazem pensar quais seriam nossos nomes a aderir a esse protesto tão intenso...

E a máquina-escritora, tremendamente sedutora. Como Courtois poderia sobreviver nesse novo mundo?


O papel do escritor é debatido, numa era de inícios, de pressa - em que sempre se inicia algo, mas raramente se conclui o que se iniciou. Uma era de inícios, mas sem fins.

Para nossa sorte, a É Realizações está editando toda a obra - em especial, a dramaturgia de Visniec: A história do comunismo contada aos doentes mentais, Máquina Tchekov, O último Godot - a lista é grande. E suas peças começam a ser encenadas por aqui - o que também não é um fato corriqueiro. 

 

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