terça-feira, 10 de maio de 2016

Dom Quixote I



Comprei essa edição numa livraria de Brasília, no distante 2005, ano do 400º aniversário da publicação da Primeira Parte. Resolvi ler agora, no ano do 400º aniversário da morte física de Cervantes. Uma edição com direito a glossário, uma infinidade de notas explicativas e vários estudos - incluindo um artigo de Vargas Llosa. 

Agora saíram diversas edições brasileiras. A Companhias das Letras, a 34 e, agora, uma da Nova Fronteira (com direito às ilustrações de Gustave Doré).

Um livro sobre a própria literatura.

Já no prólogo, Cervantes se diz não o pai da história que conta, mas seu padrasto. 

Pero yo, que, aunque parezco padre, soy padrastro de don Quijote, no quiero irme con la corriente del uso, ni suplicarte casi con las lágrimas en los ojos, como otros hacen, lector carísimo, que perdones o disimules las faltas que en este mi hijo vieres.

E, no episódio do vizscaíno (basco), Cervantes interrompe a história para, no capítulo seguinte, admitir que encontrou um morisco que se rachava de rir com um livro, A história de Dom Quixote de la Mancha, escrito por um certo Cid Hamete Benengeli, historiador árabe - e acaba convidando o sujeito para sua casa.

Alberto Manguel, sobre o episódio:

O que aconteceu aqui? Contra a censura oficial, contra as pressões da Inquisição e as leis de pureza de sangue, a presença das culturas banidas é reconhecida como viva e frutífera no romance de Cervantes. Com um golpe de prestidigitação, Cervantes consegue apresentar seu livro como obra de um autor exótico, outrora espanhol, agora mouro exilado e rejeitado. Dúzias de traduções seguiram-se ao sucesso do romance na Espanha, e Dom Quixote logo se tornou um dos livros mais populares do mundo, de modo que o que viria a ser a obra-prima emblemática da Espanha foi lido mundo afora como uma criação supostamente árabe, "invenção" de um povo condenado a viver fora dos muros da Espanha.

Por outro lado, Cid Hamete, árabe, teria sido inimigo de um heroi cristão como Quixote, e devemos nos perguntar se não teria manipulado a história que estamos lendo. Tanto Cid Hamete como o tradutor comentam ou alteram a obra; os textos são manipuláveis. E sabemos que Cervantes não é um narrador tão confiável assim. 

Quem leu as Mil e uma noites já percebeu isso. São romances contidos em romances, que por sua vez são contados em outras histórias. Dom Quixote também é assim: histórias dentro de histórias.




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