Pular para o conteúdo principal

Conto da semana - Lucian Dan Teodorovici


O romeno Lucian Dan Teodorovici nos brinda com o conto da semana - Caça aos Gansos, em português. Foi o conto selecionado por Hemon para a edição de 2011 de sua antologia BEF.


O narrador é uma criança que vive no interior da Romênia, onde romenos e ciganos vivem fisicamente próximos mas com temores mútuos. Um dos orgulhos do menino é o fato de o seu avô ser o único do vilarejo a não temer os ciganos - afinal, ele é o condutor de trem, próximo de sua aposentadoria, é verdade, mas a posição lhe confere um tremendo status diante de ambas as comunidades.

Na história, sete gansos da família do garoto desaparecem, e há suspeitas de que o furto foi praticado pelos ciganos. O corajoso avô, então, vai até o acampamento - o menino, claro, vai junto, ainda que contra a vontade do avô.

Lá, descobre que o avô tem vários amigos. Ele os deixava viajar de trem sem bilhete, por exemplo. Mas, apesar de tudo, fica evidente a tensão entre os dois grupos. O filho do "velho cigano", uma autoridade local, furtou os animais. Será castigado com rigor. É a justiça cigana, bem diferente daquela exercida pela milícia dos romenos - o ladrão, por exemplo, terá que trabalhar por quatro dias para o condutor. Há ainda um homem espancado pela acusação de adultério - a mulher será enforcada pelo próprio marido...

No final, o avô leva de volta cinco dos sete gansos - os outros foram comidos (afinal, ninguém sabia que os animais eram justamente do avô condutor...). O conto realça justamente a diferença entre os dois mundos sob a ótica do menino e o estranhamento que toda a situação lhe causou. 




Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O conto da semana, de Italo Calvino

O conto da semana é novamente de Calvino – Quem se contenta – e integra Um General na Biblioteca : Havia um país em que tudo era proibido. Ora, como a única coisa não-proibida era o jogo de bilharda, os súditos se reuniam em certos campos que ficavam atrás da aldeia e ali, jogando bilharda, passavam os dias. E como as proibições tinham vindo paulatinamente, sempre por motivos justificados, não havia ninguém que pudesse reclamar ou que não soubesse se adaptar. Passaram-se os anos. Um dia, os condestáveis viram que não havia mais razão para que tudo fosse proibido e enviaram mensageiros para avisar os súditos que podiam fazer o que quisessem. Os mensageiros foram àqueles lugares onde os súditos costumavam se reunir. - Saibam – anunciaram – que nada mais é proibido. Eles continuaram a jogar bilharda. - Entenderam? – os mensageiros insistiram – Vocês estão livres para fazerem o que quiserem. - Muito bem – responderam os súditos – Nós jogamos bilharda. Os mensagei...

A Montanha Mágica, de Thomas Mann

  Meu primeiro Thomas Mann foi Os Buddenbrooks , ainda durante a faculdade. Alguns anos depois, a trilogia José e seus Irmãos, As confissões do Impostor Felix Krull, A Morte em Veneza e, recentemente, Doutor Fausto. Mas faltava o que para muitos é o seu melhor trabalho.  A descoberta do Raio X, em 1895, permitiu o diagnóstico precoce da tuberculose, ainda que, em 1907, a única forma de tratá-la era a internação em sanatórios.  Thomas Mann acabara de publicar  A Morte em Veneza  quando, acompanhado de sua esposa, esteve em Davos. Lá surge a ideia para  A Montanha Mágica. O Sanatório Berghof hospeda uma amostra d a sociedade europeia do início do século XX. Lá está Joachim Ziemssen. E é para lá que o engenheiro Hans Castorp, exausto com seus estudos e prestes a iniciar sua vida profissional, se dirige. Saudável – ao menos é o que pensa - sua ideia é visitar o primo e passar cerca de três semanas. Ao longo das mais de 820 páginas da minha edição da Companhia d...

Conto da semana, de Jorge Luis Borges - Episódio do Inimigo

Voltamos a Borges. Este curto Episódio do Inimigo está no 2º volume das Obras Completas editadas pela Globo. É um bom método para se livrar de inimigos: Tantos anos fugindo e esperando e agora o inimigo estava na minha casa. Da janela o vi subir penosamente pelo áspero caminho do cerro. Ajudava-se com um bastão, com o torpe bastão em suas velhas mãos não podia ser uma arma, e sim um báculo. Custou-me perceber o que esperava: a batida fraca na porta. Fitei-o, não sem nostalgia, meus manuscritos, o rascunho interrompido e o tratado de Artemidoro sobre os gregos. Outro dia perdido, pensei. Tive de forcejar com a chave. Temi que o homem desmoronasse, mas deu alguns passos incertos, soltou o bastão, que não voltei a ver, e caiu em minha cama, rendido. Minha ansiedade o imaginara muitas vezes, mas só então notei que se parecia de modo quase fraternal, com o último retrato de Lincoln. Deviam ser quatro da tarde. Inclinei-me sobre ele para que me ouvisse. - Pensamos que os anos pa...