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Abdón Ubidia e o fabricante de verdades


O conto da semana vem do Equador: é R.M. Waagen, fabricante de verdades, de Abdón Ubidia (1944). Integra a Antologia  Pan-Americana (organizada por Stéphane Chao).

A Casa Waagen prestava relevantes serviços à sociedade. Quem não gostaria de recorrer aos seus préstimos?

Por ajuda de um amigo, justo no momento em que mais desesperado estava, chegou aos ouvidos do senhor Kraus a notícia de certos serviços especiais que prestava a Casa Waagen, fabricante de verdades. A próspera e muito bem organizada empresa se ocupava de fornecer, à cada vez mais numerosa clientela, dados, provas, testemunhos, e quanto auxílio fosse necessário para estabelecer, ou melhor, restabelecer as verdades requeridas por ela.

Um verdadeiro global player: atuou no escândalo Profumo, no caso JFK, Watergate, a morte de João Paulo I... até que resolveu, afinada com o espírito democrático de um banco, prestar serviços ao "varejo". 

O senhor Kraus a procurou. Tinha matado o amante da mulher de forma que esta fosse considerada a culpada mas, por um desses azares, tudo deu errado. 

Tudo seria resolvido da melhor forma possível. Várias fatalidades aconteceram nos dias seguintes; uma vizinha que tinha visto Kraus sair do apartamento da vitima foi atropelada; um estrangeiro que estava por lá no dia foi repatriado. E a mulher de Kraus foi presa. A vingança se concretizou.

Mas a senhora Kraus admitiu o crime, confessou-o de próprio punho, pedindo para si a aplicação da pena máxima. O senhor Kraus não entendeu nada; ficou totalmente transtornado. Talvez ela soubesse que era ele o verdadeiro culpado. A angústia o fez mudar de ideia - de um assassino frio, agora pretendia ser o salvador de sua esposa.

No dia seguinte, voltou à Casa. Logicamente, não encontrou ninguém; a Casa nunca se envolvia em assuntos que se afastassem da lei, foi-lhe dito. Recomendaram também que procurasse um psicólogo. E, por fim: A Casa Waagen nunca erra. E por isso não admite reclamações. Ninguém acredita no que ele sabe ser a verdade - ele não tinha sequer meios de prová-la.

Ubidia cria um ambiente de pesadelo; a ideia de uma organização "arranjando" mentiras e explicações para os acontecimentos da História é bem interessante mas o ponto parece ser as consequências da contratação dos serviços. Afinal, o senhor Kraus está impossibilitado para sempre de restabelecer para seus congêneres - viciados no uso e abuso das palavras e das leis - "a verdade do que na verdade foi a verdade", impossibilitado também de ressuscitá-la na mente confusa de sua mulher, não tem outro remédio a não ser proteger e conservar esta verdade no único lugar em que ainda pode estar, em sua memória, em seu cérebro ainda lúcido...


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