sábado, 10 de novembro de 2012

Conto da semana, de Afonso Cruz



As grades parecem seguras, pintadas de azul, que vai bem com o céu. Mas tenho de reclamar. Onde é que está o meu marido? À minha frente surge um anjo, todo vestido de branco. Quase que ergo a mão para lhe tocar a face, tão jovem, tão bonita, tão cheia de luz. Em vez disso, sai-me uma pergunta seca: onde é que está o meu marido? O anjo fica sem saber o que dizer. Digo-lhe que não me interessa que possam ter achado que o meu marido não era uma boa pessoa, que ele não era pessoa de vir para o Céu. A verdade é que se eu vou para o Paraíso, se o mereço, tenho de ter o meu marido comigo. Que raio de coisa é esta em que passamos a eternidade separados das pessoas que amamos? O anjo diz para me acalmar, mas eu não posso aceitar uma coisa destas. Têm muita luz, mas esquecem-se de quem amamos! O meu marido podia ser mau, mas se amamos pessoas assim o que é que devemos fazer? Viver eternamente sem elas? Que porcaria de paraíso é este? O anjo encolhe os ombros. Nunca pensei que os anjos os encolhessem, aliás, nunca pensei que tivessem ombros.

O conto da semana - A Queda de um Anjo - é do português Afonso Cruz (1971) e está na Biblioteca Digital do Jornal Diário de Notícias (acessível gratuitamente mediante registro, aqui).

Uma mulher de 80 anos morre, vai para o Paraíso mas descobre que o marido pegou o elevador para baixo. E faz questão de encontrá-lo, mesmo que para isso, ela mesma tenha que abandonar o Paraíso... Através da narrativa, ela vai atravessando os círculos, sempre em direção ao Inferno.

É claro que no Paraíso tentarão dissuadi-la, mas ela é irredutível. Ela sente um comichão nas costas. Que o mundo fosse imperfeito, vá lá, mas um paraíso nestas condições era inaceitável. E faz algo pior que Orfeu: para os gregos, ele desceu ao Hades para buscar Eurídice (e com ela sair de lá); aqui, a destemida narradora simplesmente pede para entrar; é como se alguém pedisse para entrar na Coreia do Norte para por lá ficar.

E a viagem continua até o primeiro círculo, a chegada, quando algo lhe acontece - ela irá adorar. Ainda que, no Inferno, ficamos sabendo, há um intenso ruído de automóveis. O trânsito anda mesmo infernal.

Ao final do conto, um PS do autor - que nos apresenta exatamente a origem da ideia do conto e uma tragédia familiar. 



Um comentário:

  1. Além da "Divina Comédia", de Alighieri, esse conto me fez lembrar ainda de um poema de um outro Dante: "The Blessed Damozel", de Dante Gabriel Rossetti. O ponto de partida é o mesmo. Borges, em uma de suas aulas em um curso de literatura inglesa (publicado no Brasil, o título agora me escapa), faz uma bela análise desse poema.

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