domingo, 25 de novembro de 2012

Diário da Queda, de Michel Laub






É o quinto romance de Michel Laub (1973) - o primeiro que leio. Parece que aos poucos a temática vem chegando à literatura brasileira contemporânea, como fez Tatiana Salem Levy. O primeiro capítulo pode ser lido aqui.

As cerca de 150 páginas do romance, lançado no ano passado, são divididas em capítulos bem curtos, narrados em primeira pessoa, com pontos obviamente autobiográficos - ainda que se trate obviamente de uma obra de ficção. O inominado narrador estudava numa escola judaica nos anos 80 em Porto Alegre; havia um aluno não judeu que procurava se inserir na turma. Seu pai, pobre, organizou sua festa de 13 anos - todos os colegas fizeram ou fariam o Bar-Mitzvá. 

O pai de João resolveu comemorar os treze anos do filho porque a família nunca tinha dado uma festa (...) mas porque João estava numa escola judaica, e na escola judaica todos faziam Bar Mitzvah aos treze, e em todas as festas o aniversariante era jogado treze vezes para cima, uma espécie de rito de iniciação do aniversariante ao mundo adulto, quando ele se tornava o que a expressão que dá nome à cerimônia define como filho do dever, por tudo isso o pai convenceu o filho a receber a classe inteira no salão do edifício onde morava um cunhado.

Os colegas jogaram João treze vezes para o alto, como no Bar-Mitzvá; mas no 13º lance, deixaram que ele se espatifasse  no chão. O narrador se arrepende e se sente culpado. Essa é a queda - ou uma das quedas - do título. A culpa o leva a tornar insuportável sua permanência no colégio judaico, algo que o pai custa a aceitar.

O avô, sobrevivente de Auschwitz, tem um diário. Não o mostrou para ninguém, e quando morreu (suicidou-se) o pai o recuperou. Não há menções específicas ao período no campo de extermínio. E o avô perdeu toda a família lá. O silêncio intriga o narrador, que não consegue se esquecer do livro de Primo Levi (que também se suicidou) - outro sobrevivente - É Isto um homem? Avô e escritor jamais superaram a experiência e tiveram o mesmo fim. Não deixa de ser uma outra queda. Para o neto, é algo óbvio imaginar que meu avô fez o que fez não só por causa de Primo Levi e desses senhores, por ser como Primo Levi e esses senhores, por não ter como escapar de um fim como o deles, mas por um motivo que tinha estreita ligação com o meu pai.

O avô casou-se com uma filha de alemães. Bom, não acho isso tão inverossímel como pareceu para alguns críticos. O pai, com a descoberta do diário do avô, começa a se interessar mais pela religião. Algo que não chegou ao narrador, nem mesmo quando descobre a doença do pai - Alzheimer (sempre um alemão...). E a sua própria vida - casado pela terceira vez, prestes a enfrentar uma terceira separação. 

Tal como o livro de Tatiana, não se trata de um romance sobre o Holocausto ou sobre a Segunda Guerra ou mesmo sobre o nazismo. Trata-se verdadeiramente das reminiscências do narrador, a terceira geração - o narrador fala, em determinado momento, que em poucos anos a palavra Auschwitz não representará nada muito diferente que palavras como Majdanek ou Sobibor. Mas sem qualquer reverência, como habitualmente lemos. E dirigindo-se, ao final, ao que será a quarta geração.

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