sábado, 17 de novembro de 2012

Conto da semana, de Dragan Radulovic

O conto da semana comemora, ainda, o lançamento da edição de 2013 do Best European Fiction, organizada pelo Aleksandar Hemon. Mais de trinta países e autores, a maioria desconhecida por aqui e mesmo fora de seus países mas, de vez em quando, conseguimos alguma tradução para o Brasil...

O conto da semana - O Rosto - se passa na cidade de Budva, a "capital do turismo" de Montenegro, onde vive o autor, Dragan Radulovic (1969).



Uma história de horror. O narrador adora o inverno, quando os homens de Budva pescam, jogam cartas e trabalham em suas casas, discutem política, seduzem as esposas dos outros e se preocupam em também não ser traídos. A  capital do turismo só vive mesmo no inverno. No inverno todos tem uma voz e o direito de criar uma esfera de participação na vida pública.



Em dezembro o narrador se encontra no restaurante underground mais famoso da cidade, a Tulipa Melancólica. E é interessante como ele ridiculariza a high society -  o que se aplica tanto aqui quanto em Montenegro...

Como o Tulipa só preparava esse prato uma vez por ano, era uma questão de prestígio para o povo de Budva ser visto no restaurante nessa ocasião. Todas as mesas estavam ocupadas naquela noite. Vi inúmeros rostos familiares - o creme da classe política, empresarial e cultural; havia ainda outras pessoas que eu não conhecia (...) - como sempre, vou traduzindo livremente.

Lá ele se encontra com Gonzales. 

Gonzales estava em uma cadeira de rodas - segundo ele próprio, um centauro moderno. O narrador quer saber da morte de Geiger. Gonzales não é um sujeito fácil, pelo contrário, nota-se uma certa reserva e prevenção por parte do narrador. A morte de Geiger ocorreu em uma estranha noite.

O conto lembra histórias de horror das antigas - e boas. Lembra-me aquelas narrativas à moda do século XIX. Gonzales conta que naquela noite fatídica os amigos- ele, Geiger e Kefir -  discutiam sobre o mal. Geiger: o mal é fascinante e sedutor, divertido; é muito mais interessante que o bem, que pode ser banal a ponto de te deixar enjoado. Geiger estava escrevendo um livro. Kefir começou a discutir, de forma áspera, sobre o assunto. Gonzales assiste a tudo - como um espectador, o que talvez seja importante no final. 

A questão: estariam os três sozinhos naquele ambiente? Onde quer que haja pessoas, "eles" estão presentes. Kefir: isso significa que não estamos sozinhos aqui nesta noite?

Há um corte de luz; quando a luz começa a voltar do lado de fora, os três percebem uma presença, no meio do quarto - de fato, eu vi apenas seu rosto, olhos e mandíbulas, que exalavam um sorriso sem cor (...) um rosto que parecia feito de carne cozida; Kefir pega uma arma e dispara contra a coisa.

Cada um dos três amigos tem um destino trágico e misterioso; Gonzales, no entanto, é o único que sobreviveu. O que estaria por trás disso? - é o que pergunta o narrador. Não há nada por trás. Tudo está na superfície, apenas ocorre que alguns lugares são terrivelmente profundos, e se você olhar bem para eles, pensa que vê algo.

Há algo no conto que me lembra não apenas os clássicos do século XIX mas também alguma coisa de Jorge Luis Borges e seus contos fantásticos.

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