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As bibliotecas de Goulemot


Editora: Unesp
Ano: 2011
Tradução: Maria Leonor Loureiro
236 páginas


Para mim, uma biblioteca pública é essencialmente um lugar consagrado à leitura. Tomei nitidamente partido entre a comunicação e a conservação nesse debate que ainda divide, ao que parece, os curadores e a administração das bibliotecas. Sou partidário da comunicação, apesar de meus gostos de colecionar inveterado e de entesourador de impressos e apesar da consciência de ter a biblioteca outras necessidades que as do leitor em geral. Desde a adolescência, frequento muito as bibliotecas, e fico geralmente feliz e satisfeito. Li aí mais livros do que no meu escritório ou no trem, e um destino de professor universitário de província fez de mim um usuário cativo desse último (p. 7).

Nos últimos anos, passei a me interessar pelos “livros sobre livros”, é bem verdade desde que me tornei leitor assíduo de Alberto Manguel. Sua visão da leitura e seus livros sobre a sua própria biblioteca, como um refúgio privado, agora no interior da França conquistaram diversos leitores.
A Biblioteca, para Jean Marie Goulemot, é em certo sentido radicalmente oposta à visão de Manguel. Se para este a biblioteca é um lugar de leitura solitária e intimista, numa atividade essencialmente individualista, Goulemot se dedica à leitura em ambiente público, uma leitura gregária, livremente imposta e vigiada.
Por outro lado, ambos – e, a rigor, todos os bibliômanos – têm uma característica em comum: são colecionadores. Mas ainda assim, é possível ver diferenças – Goulemot admite, por exemplo, que por diversas vezes vendeu um livro raro que possuía e lucrou bem como isso.
Neste ensaio lançado pela editora Unesp - e que achei por acaso na Livraria da Travessa no Rio -, que tem como tema central a biblioteca pública, Goulemot não escreve sobre a (ou uma) história destes templos. Mas passa pelos pontos que todos esperamos em uma obra desta natureza – como, por exemplo, a Biblioteca de Alexandria e suas destruições – sou obrigado a admitir que não tinha ideia de que a destruição, a rigor, foram três: um incêndio, as lutas entre cristãos e pagãos em 390 e o aniquilamento definitivo em 641. O autor faz questão de esclarecer que a ênfase que temos, no ocidente, desta última data, do saque promovido por Omar, é uma forma de esquecermos que o fogo não é exclusividade oriental.
Bibliotecas destruídas na Alemanha, no fim da Segunda Guerra; a Biblioteca Nacional de Varsóvia incendiada quando da sublevação da cidade; a Biblioteca de Sarajevo, reconstruída a partir da solidariedade internacional.  Mas é à Biblioteca Nacional que Goulemot dedica dois capítulos, e reconta os papeis que desempenharam seus administradores Julien Cain (1930-1940) e Bernard Faÿ (1940-1944) e a Ocupação. E, apesar de papeis e posturas tão diferentes, o autor conclui, desolado, que o tempo não escolhe entre os bons e os outros, entre os carrascos e as vítimas. Espalha a areia uniformemente.
Goulemot, por outro lado, não cai na ideia fácil da divisão do mundo em bons e maus: como alguém que nasceu em 1937 e viveu na Espanha de Franco nos anos 60/70, tem absoluta noção da colaboração que muitos mantiveram até os últimos momentos da Ocupação alemã, quando então passaram à Resistência “desde sempre”; que Franco concedeu a nacionalidade espanhola a milhares de judeus sefaraditas que, assim, escaparam do gás alemão.
Uma última consideração: tal como Manguel, há aqui um temor em relação à apregoada era do livro digital – a despersonalização e a assepsia que são impostas e a transformação do objeto em conteúdo. A biblioteca como lugar do passeio sem destino. Mas defende a digitalização dos livros fragilizados pelo tempo, ou extremamente raros e insubstituíveis, à imprensa cujo papel envelhece mal. Esta é uma necessidade à qual é preciso se submeter.
Ao final, fica uma certa inveja – nossas universidades não tem as bibliotecas que têm suas equivalentes europeias e principalmente americanas; nossas bibliotecas públicas, com raríssimas (e honradíssimas) exceções – a Biblioteca Nacional e o Real Gabinete de Leitura, no Rio, são as que me vêm à cabeça – mal podem ser chamadas realmente de bibliotecas.

Comentários

  1. Comentario oportuno. As bibliotecas cada vez mais tem multiplas funcoes. A sala de leitura e o emprestimo de livros sao patinhos feios e nao dao visibilidade. A formacao intelectual nao prescinde da leitura silenciosa emamviente especifico. O futuro entretanto conspira contra.

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