sexta-feira, 13 de abril de 2018

Navi in bottiglia, de Gabriele Romagnoli


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Navi in bottiglia
Gabriele Romagnoli


Esse livro reúne 101 pequenos contos (em geral, uma página cada - trinta linhas) de Gabriele Romagnoli (Bologna, 1960), em geral situações aparentemente comuns mas que são levadas a um final abrupto e mesmo estranho. O primeiro livro italiano que leio no original (daí para Dante vai demorar um pouco...). 
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Alguns contos são realmente muito interessantes: Pepe, stazione dopo stazione, em que o personagem, passageiro em um trem, vai se desfazendo em cada estação, até se tornar uma ideia (esqueça a besteira que ouviu de um político brasileiro na última semana); Il sogno del mare de Ian, onde somos apresentados a um sonho recorrente; ou  Stupro e vendetta.

Um dos melhores é Occhi di Paola (Olhos de Paola), que numa tradução apressada, por alguém que ainda está nos níveis intermediários da língua, seria mais ou menos assim:

Não consegue dormir. Algo o atormenta. Mas não consegue entender o quê. O fato é que há duas horas se revira na cama, ele que, como diz Paola, dorme quando quer. Olha para ela, dormindo de lado. Dos cabelos escuros, agora tingidos, emerge na penumbra emerge o perfil da bochecha, ainda cheia e macia. Seus grandes olhos estão escondidos sob as pálpebras, mas Duccio os imagina, azuis, levemente acinzentados pelos anos. E então compreende. É por causa daquela tarde. Exatamente há vinte anos. A tarde em que traiu Paola. Com a mulher de um amigo querido, ainda por cima. Depois voltou para casa, tomou uma ducha, comeu com ela, brincou e assistiram televisão. Quando foram para a cama, dormiu rapidamente. Então é assim que são as coisas, pensou, ao acordar: nenhum remorso, nada muda. Pode-se trair sem riscos, -. Pode-se conviver tranquilamente com seus próprios pecados.

Nunca mais fez isso novamente. Havia mesmo esquecido do que aconteceu. Agora se lembra. Olha Paola e gostaria de gritar. Ela desperta, o vê sentado na cama "O que aconteceu com você, por que está acordado?", pergunta. "Tive um pesadelo", responde. "Sonhei que te traía com Franca, a mulher de Giorgio". Ela vira para o seu lado. Acaricia sua mão. "Obrigado por chamar isso de pesadelo", diz. Ele sorri e se deita novamente. Ela continua a acariciar a mão e, de repente, ele adormece. Apagam-se os lampiões da praça. Agora o quarto está escuro. Na escuridão, os olhos de Paola estão abertos. Um pouco menos azuis, um pouco mais cinza.

Uma centena de narrativas curtas e estranhas, que bem que poderiam ser traduzidas e publicadas por aqui. Navi in bottiglia, aliás, se tornou uma coluna que o autor publicou por alguns anos no jornal La Repubblica, de Roma.

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