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O romance e a paternidade, segundo Kundera

Foi relendo Cem anos de solidão que me veio uma ideia estranha: os protagonistas dos grandes romances não têm filhos. Apenas 1% da população não tem filhos, mas pelo menos 50% dos grandes personagens romanescos deixam o romance sem procriar. Nem Pantagruel, nem Panurge, nem Dom Quixote têm descendência. Nem Valmont, nem a marquesa de Merteuil, nem a virtuosa presidente das Ligações perigosas. Nem Tom Jones, o mais célebre herói de Fielding. Nem Werther. Nenhum dos protagonistas de Stendhal tem filhos; o mesmo ocorre com os de Balzac; e de Dostoievski; e no século recentemente terminado, Marcel, o narrador de Em busca do tempo perdido, e, claro, todos os grandes personagens de Musil, Ulrich, sua irmã Ágata, Walter, sua mulher Clarisse e Diotime; e Chveik; e os protagonistas de Kafka, com exceção do jovem Karl Rossmann, que engravidou uma empregada, mas é precisamente por isso, para apagar a criança de sua vida, que ele foge para a América e que o romance pode nascer. Essa infertilidade não é devida a uma intenção consciente dos romancistas; é o espírito da arte do romance (ou o subconsciente dessa arte) que repudia a criação.

Milan Kundera, Um Encontro. ensaios. Tradução de Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca, Companhia das Letras.

Lembrei-me, claro, de Bras Cubas, que não transmitiu a nenhuma criatura o legado de sua miséria.

Comentários

  1. A citação de Bras Cubas está perfeita no contexto!

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    1. O céu é azul. A água é transparente. Cachorros latem. Etc.
      Um abraço pro Fábio.

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