sábado, 12 de outubro de 2013

Conto da semana, de Alice Munro


Sim, claro. Numa semana em que a Academia sueca homenageia, pela primeira vez, o gênero, o conto da semana só poderia ser da nobelizada canadense Alice Munro - de quem já se disse se tratar do Chekov canadense.

Não havia lido nada dela até agora. Mas em todas as minhas antologias de contos americanos ela está lá. E a primeira curiosidade: os americanos, que adoram falar mal do Canadá, costumam se apropriar de alguns canadenses - Saul Bellow, também Nobel, terminou se naturalizando norte-americano. Provavelmente pelo fato de ela ter publicado seus contos, ao longo de décadas, em revistas como a New YorkerAqui, o acesso a cerca de uma dúzia de contos, todos em inglês.

Há alguns anos o presidente da Academia criticou a literatura americana como insular. Os americanos resolveram de alguma forma - americanizaram, há muitos anos, Munro.

Munro nasceu no Canadá e viveu por muitos anos no seu interior.  Hoje vive em Clinton, Ontario. Isso está presente nos seus textos. Como em Axis (Eixo) que saiu na antologia Best American Short Stories 2012. Publicado originalmente na New Yorker, este conto trata de duas amigas de faculdade, voltando para sua cidade natal no interior do Canadá. Trazem nas bolsas livros "sérios" como O mundo medieval, As relações dos jesuítas, mas para as suas famílias, Gracie e Avie não passam de meninas da fazenda. Gracie está apaixonada. Avie não; quer fazer sexo com o namorado Hugo mas está interessada mesmo em Royce, namorado de Gracie. 

A família de Gracie não vai com a cara de Royce, e o final de semana que passam é dedicado às tentativas do casal em fazer sexo. O plano não dá certo, e são pegos em flagrante pela mãe da menina. Royce se manda, claro, e nunca mais vê Gracie. 

Lendo mais alguns de seus contos, percebi alguns elementos recorrentes: o interior branco e gelado do Canadá e os saltos temporais. Em Axis, cinquenta anos. Royce é um geólogo e reencontra a sessentona Avie, casada e com filhos. O eixo do título é uma formação geológica canadense (o "eixo de Frontenac). Mas os títulos de Munro não são gratuitos; talvez Gracie seja o eixo entre Royce e Avie; talvez seja Roney o eixo - ele era um sujeito meio perdido e depois se torna um geólogo, afinal. 

Uma outra curiosidade: no começo do ano Munro anunciou que estava pendurando a caneta. Segundo ela, atingirá uma idade em que não pode mais ficar tanto tempo isolada dos outros como precisaria para continuar a escrever. A Academia correu para homenageá-la. Philip Roth também anunciou sua despedida há cerca de um ano, mas não comoveu os suecos. 


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