segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

A sombra da rota da seda, de Colin Thubron

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A sombra da rota da seda
Colin Thubron
Tradução de Otávio Albuquerque
L&PM
408 páginas


Centenas de motivos incitam sua partida. Entrar em contato com novas identidades humanas, preencher um mapa em branco. A noção de que este é o coração do mundo. A busca pelas formas multifacetadas da fé. Você viaja porque ainda é jovem e quer viver aventuras e ouvir o som das suas botas pisando na terra. você viaja porque é velho e precisa entender alguma coisa antes que seja tarde demais. Você viaja para ver o que pode acontecer.

Ainda assim, seguir a Rota da Seda é como seguir um fantasma. Essa trilha se estende pelo coração da Ásia, mas oficialmente não existe mais, tendo deixado para trás apenas marcas de seu frenético ápice: fronteiras forjadas, povos não catalogados. As estradas se bifurcam e se perdem em desvios por toda parte. Não há um só caminho, mas inúmeros, formando uma teia de opções. A que escolhi se estende por mais de 11 mil quilômetros e tem alguns trechos perigosos.

Nada mais lugar-comum que o sujeito que, na infância, lia todas as versões disponíveis do Livro das Maravilhas do Marco Polo e sonhava em ser jornalista da National Geographic ou membro da equipe do Jacques Cousteau, terminar advogado. O que nos resta, portanto, é ler a literatura de viagens disponível.

Já falamos de Philippe Valéry e seu Par les sentiers de la soie: a pied jusqu'en Chine. Um livro muito bem editado na França e que, infelizmente, ainda não apareceu por aqui. Mas eis que descubro, como quem não quer nada, este livro do britânico Colin Thubron, escrito em 2006 e somente agora publicado no Brasil, pela L&PM.  O trajeto percorrido não é o mesmo de Valéry (que passou pela Bulgária, Turquia europeia, Geórgia e Armênia).

A Rota da Seda é, como diz Thubron, um emaranhado de rotas, que ligaram o Império do Meio ao Mediterrâneo. A seda foi uma das grandes moedas de troca de caravanas de árabes, persas, ugures, chineses, indianos e, séculos mais tarde, europeus.

Segundo a lenda, foi Lei-tzu quem descobriu a seda. Enquanto andava pelo seu jardim, ela teria reparado em uma estranha lagarta que devorava folhas de uma amoreira. Durante vários dias, ela ficou observando enquanto a criatura fiava uma linha dourada, e imaginou que aquela deveria ser a alma de algum ancestral. Em seguida, Lei-tzu viu a lagarta se fechar e pensou que ela tinha morrido - até uma mariposa emergir do casulo. Enquanto brincava intrigada com esse manto recém-descartado, a imperatriz o derrubou por acidente no chá. Em seguida, ela pegou o casulo amolecido e começou a desfiá-lo, ficando cada vez mais maravilhada, até chegar a um longo e reluzente fio de seda. Tempos depois, ela se tornou professora, ensinando a tecelagem e a criação da misteriosa lagarta.

Thubron tem extensa obra publicada, não só de suas viagens (Damasco, Sibéria, Ásia Central), como também na ficção (escreveu alguns romances). Percebemos essa desenvoltura num texto extremamente agradável e fluido, sem prescindir de informações exatas. Ele consegue falar com desenvoltura o mandarim e o russo, o que já o coloca como um observador privilegiado. 

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Partindo de Xian, ponto final (do ponto de vista ocidental) da rota, capital da China por séculos e berço da dinastia Chin (lá está o exército de terracota), Thubron mistura informação histórica precisa e um toque pessoal quando se depara com as questões, digamos, mais atuais. Passa por cidades que, hoje, são verdadeiros desastres ambientais ou estão em ruínas por guerras. E por situações de alta periculosidade, não apenas pelos conflitos bélicos, mas também por burocracias herdadas dos soviéticos e epidemias pós-soviéticas. Estava na China quando a SARS (síndrome respiratória aguda grave) se alastrava pelo norte do país. Como um viajante (e não um turista), passou por situações bastante delicadas, como uma quarentena num posto fronteiriço, de onde foi liberado, segundo suas próprias palavras, porque temiam que ele (afinal, um inglês conhecido no mundo todo) morresse por lá...


Passa por Zhangye, cidade natal de Kublai Khan, atravessa a Ásia Central (Quirquistão, Uzbequistão, Afeganistão, onde é obrigado a interromper a viagem, que somente seria completada no ano seguinte, na mesma estação). Passa por cidades como Bucara e Samarcanda, que uma rápida pesquisa no Google Maps nos acomete de uma  inveja quase incurável. Atravessa o Irã - onde a distância entre Oriente e Ocidente fica mais evidenciada, principalmente quando o autor conversa com jovens iranianas - uma mistura de ressentimento e desejo pelo Ocidente. Na Turquia, chega a Antioquia, já no Mediterrâneo, o ponto final do trajeto.

Uma leitura obrigatória para gosta de viagens.

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