segunda-feira, 18 de abril de 2016

O Messias de Estocolmo, de Cynthia Ozick

Se você é leitor de Schulz - e lê em inglês, francês ou italiano - não perca a oportunidade. E torça para que o livro seja publicado no Brasil - com sorte, Ozick, que está sempre nas listas para o Nobel, aparece por aqui.

Curiosamente, em 1987, um certo Alex Schulz se declarou primo de Bruno, e disse a Jerzy Ficowski (biógrafo do escritor) que um homem de Lwów, provavelmente um diplomata ou um agente da KGB, lhe teria oferecido um pacote de cerca de dois quilos, contendo manuscritos e desenhos do autor. Ficowski concordou em verificar a autenticidade do material; meses depois, Alex morreu e Fixowski perdeu a oportunidade de travar qualquer contato com o misterioso homem de Lwow. Anos depois, encontrou o embaixador sueco em Varsóvia, que disse um pacote contendo o romance O messias estaria escondido nos arquivos da KGB; o embaixador teria sabido disso por meio de um russo e pediu a Ficowski que o acompanhasse na Ucrânia para procurar pelo pacote, mas recebeu duas negativas das autoridades locais. O embaixador acabou morrendo também e a questão ficou esquecida. A história, com detalhes, pode ser lida na New Yorker. 

A história do Messias é fascinante, e serviu de inspiração para diversos escritores, como Cynthia Ozick e David Grossman.

Um livro de leitura difícil - ainda mais no original - mas que vale a pena. Cynthia Ozick tem poucas obras publicadas no Brasil, o que é uma verdadeira lástima. Neste O Messias de Estocolmo, uma homenagem a Bruno Schulz, foi publicado em 1987, o que deve ser levado em consideração pelo leitor: não havia Internet e, consequentemente, Google. Um livro pequeno e complexo, mas absolutamente fascinante.


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Lars Andemening é um editor do caderno de cultura de um jornal de Estocolmo. Escreve às segundas - suprema humilhação para um articulista de cultura, já que ninguém lê o caderno às segundas (isso é coisa para sexta, sábado ou domingo). Pior, o sujeito só fala de autores do leste europeu, como Danilo Kis, Kundera, Kafka, Gombrowicz, Schulz... Costuma visitar uma livraria estranha, comandada por Heidi Eklund e seu misterioso marido.

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E sobre Schulz, há algo especial. Lars se diz filho do estranho escritor judeu polonês assassinado por um oficial nazista na Polônia ocupada, em 1942. Ele teria escrito um livro desaparecido, O messias. O que o autoproclamado filho de Schulz não imaginava era encontrar Adela, uma mulher que se anuncia como... filha do polonês e, consequentemente, de alguma forma, sua irmã. Pior: essa irmã possui os originais d'O Messias.

Ozick transita entre o universo de Schulz e uma história de duplicidade - Lars é, de fato, filho do escritor polonês? Schulz teria, realmente, escrito o Messias? Os originais existem? Adela é o nome de personagens de outras histórias de Bruno. E Lars parece entrar em parafuso, ao deduzir que Adela é, na verdade, filha dos Eklund. Mas, e o original - é de Schulz ou não? Cabe ao leitor descobrir. Lars está em dúvida... 

Sem dúvida, um dos melhores livros que li nos últimos tempos.

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