segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Um conselho de Richard de Bury



O conhecimento das leis positivas, dada a dificuldade de sua compreensão, pode conduzir a um resultado contrário àquele que perseguiu e, amiúde, pode suceder que em vez de solucionar os pleitos, os prolonga indefinidamente, o que acaba acarretando uma ansiedade desenfreada nos homens. No entanto, reconhecemos que estas leis foram estabelecidas por príncipes e jurisconsultos piedosos. Mas como a ciência dos adversários é a mesma, como o poder de argumentação tem em ambas as partes o mesmo valor e o espírito humano se inclina para o mal, aqueles que exercem essa profissão acabam por se inclinar a enredar os pleitos em vez de liquidá-los, e para isso fazem interpretações distorcidas dos textos legais durante os julgamentos, lançando mão de detestáveis artifícios absolutamente discordantes do pensamento do legislador.

Por isso, e apesar do amor que professamos aos livros desde nossa infância – amor este que nos prendeu com tal paixão que todo nosso afã sempre se encaminhou para a aquisição de livros -, a posse de livros de direito jamais nos comoveu e não gastamos um tostão em sua compra pois, como disse Aristóteles, verdadeira luz da doutrina, quando nos fala da lógica em seu opúsculo De pomo et de morte, as leis são tão úteis como o escorpião e a lacraia.

Richard de Bury (1287-1345), Bispo de Durham e Chanceler do Rei Eduardo III. Philobiblon. Ateliê Editorial. Traduzido por Marcello Rollemberg, 2004

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