terça-feira, 31 de julho de 2012

Tomar



Entra em Tomar pelo lado oposto ao Castelo dos Templários, dá, por via do alojamento, as necessárias voltas, e, não havendo hoje tempo para mais, verá a Igreja de São João Baptista e a sinagoga. Saramago, Viagem a Portugal, p. 279.


A primeira sinagoga de Portugal foi construída no século XV e encerrada em 1496, por ordem de Dom Manuel I, que determinou a conversão obrigatória dos judeus. Boa parte partiu para o Mediterrâneo, chegando até a Turquia...



O Convento de Tomar é o pórtico, é o coro manuelino, é a charola, é a grande janela, é o claustro. E é o resto. De tudo, o que mais toca o viajante é a charola, pela antiguidade, decerto, pela exótica forma octogonal, sem dúvida, mas sobretudo porque vê nela uma expressão plástica perfeita do santuário, lugar secreto acessível mas não exposto, ponto central e foco à roda do qual gravitam os fiéis e se dispõem a figurações secundárias. A charola, assim concebida, é, simultaneamente, sol radiante e umbigo do mundo.

Mas é sina dos sóis apagarem-se, e dos umbigos murcharem. O tempo está roendo com os seus invisíveis e duríssimos dentes a charola. Há uma decrepitude geral que tanto exprime velhice como desleixo. Uma das mais preciosas joias artísticas portuguesas está murchando e apagando-se. Ou lhe acodem rapidamente, ou amanhã ouviremos o habitual coro das lamentações tardias. O guia, ouvido o reparo do viajante, sai da sua torre e diz que as feridas das regiões inferiores, esboroamento, tintas arrancadas, são principalmente consequência das muitas cerimônias de casamento que ali se realizam: "Toda a gente quer casar aqui, vêm os convidados, encostam-se às colunas, sobem para as bases delas para verem melhor, e depois divertem-se a arrancar pedacinhos da pintura, se calhar para recordação". O viajante espanta-se, mas tem a sugestão pronta: "É proibir os casamentos". Esta súbita descoberta já o guia a deve ter feito cem mil vezes. Encolhe os ombros e cala-se. Não é fastio que se lhe lê na cara, é desânimo. p. 282.




Na companhia de Paulo Alcobia Neves, exploramos o templo. Conhecedor de heráldica e da história de Portugal, sobretudo da região, Paulo nos conduz aos diversos ambientes, e é impossível deixar de destacar a charola. O Convento foi construído pelos cavaleiros templários, que depois da extinção da ordem passaram a se chamar de cavaleiros da Ordem de Cristo.


Paulo nos conta que Umberto Eco andou por lá, e desses passeios saiu o romance O Pêndulo de Foucault, que está na minha estante à espera de ânimo para ser lido. E conta também histórias do local que entretêm as crianças. Histórias como a do filho que, herdando a propriedade do pai, fez questão de esconder - felizmente sem sucesso - alguns detalhes da construção. 


A atmosfera do Convento é diferente da dos outros templos que visitamos, em relação aos quais quase se pode dizer não ser muito visitada. Encontramos poucos visitantes, à exceção de alguns frades franceses, o que contribuiu para aumentar a atmosfera de mistério do local.


E terminamos o dia conhecendo a esposa e a filha mais nova de Paulo, com a certeza de que voltaremos a visitá-los.

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