terça-feira, 2 de outubro de 2012

Como Marco Polo

Philippe Valéry (1964) é um sujeito corajoso - e sortudo. Abandonou um emprego em uma multinacional americana, depois de ter passado pela embaixada francesa no Japão, para se dedicar a um sonho: refazer, mais de 700 anos depois, o percurso de Marco Polo pela rota da seda. O resultado está no livro Par les sentiers de la soie: a pied jusqu'en Chine, editado na França pela Transboreal (2003) e que aguarda tradução por aqui. Li como exercício de francês. 

<i>Valéry, Philippe</i><br>Par les sentiers de la soie. A pied jusqu'en Chine

O percurso levou dois anos e 10.000 km; de Marselha a Kashgar (China), passou por Veneza, Istambul, Geórgia, Uzbequistão... o mesmo percurso de Marco Polo e por onde passaram Alexandre o Grande e Gengis Khan. Uma condição: o percurso teria de ser feito à pé, tal como no "projeto inicial". O difícil foi explicar isso, de forma convincente, para os diversos guardas de fronteira. É bem verdade que ele iniciou a aventura em 1997, antes, portanto, do 11 de Setembro. Mas passou pelo Afeganistão já (ainda) em plena guerra entre a Aliança do Norte e os Talibãs.



Não dá para ter certeza de que sua viagem foi mais simples e segura que a de Polo. Ele atravessou os Bálcãs quando a guerra no Kosovo estava no auge e entrou nas antigas repúblicas soviéticas recém-libertas do comunismo - e não teve a sorte de receber do imperador uma autorização, como conseguiu Marco Polo:


Kublai Khan entregando uma placa de ouro a Marco Polo, autorizando sua viagem

Valery atravessa os países sem escapar de uma ou outra noite numa delegacia ou posto de fronteira. Por outro lado, sempre encontra cidadãos dispostos a ajudar e a oferecer um teto. Na década de 90, é curioso saber que, para muitos, o maior temor noturno é a presença de lobos. É também uma viagem no tempo. 


Os capítulos mais interessantes são os sobre o Afeganistão (ele esteve com Massoud, que foi assassinado meses antes do 11 de Setembro) e o Turcomenistão, onde um ditador, Niyaziv, que governou de 1990 a 2006 e que dão o seu nome para tudo, é presidente vitalício. Valéry é irônico em relação a algumas curiosidades - Niyazov é o Grande Pai dos Turcomenos e está em cédulas de dinheiro, garrafas de vodca, ruas e avenidas. Na Georgia, esteve em Tibilisi e viu de perto os conflitos com as minorias pró-Rússia ao norte. 

No Irã, sua condição de estrangeiro ocidental rendeu-lhe alguns pequenos problemas e constrangimentos - como no Afeganistão. A única, digamos, decepção, é em relação ao muito pouco que é dito justamente sobre a China, o destino final. Outro aspecto estranho foi o fato de que, a despeito dos dois anos de viagem, a narrativa ser um tanto impessoal demais. Isto faz com que o livro, que tinha tudo para ser extraordinário, seja "apenas" bom.

Na Ásia Central, encontra povos descendentes de Gengis Khan - motivo de profundo e incontido orgulho por parte destas populações - e um modo de vida que parece não ter mudado muito nestes últimos séculos, sobretudo quando parte para os vilarejos do interior. As paisagens naturais estão praticamente todas lá, intocadas, mas a ênfase está mesmo nas pessoas, que compartilham com um estrangeiro meio maluco - quem sairia de Marselha à China à pé? - segredos da vida nos países menos conhecidos dos ocidentais. Há, sim, uma conexão com o mundo moderno - o futebol (afinal, em 1998 a França ganhou a Copa, e os muçulmanos não se cansaram de dizer que foi graças a eles que o país conquistou seu primeiro grande título. A edição é ricamente ilustrada com fotos que o autor tirou ao longo dos dois anos.

Eu, que não sou tão corajoso assim, me lembro de uma empresa de viagens exóticas que oferecia um roteiro semelhante - partindo da Ásia Central. Depois de 2001, obviamente, este pacote saiu de circulação...

5 comentários:

  1. Sua crítica me deixou com muita vontade de ler, mas sou analfabeta em Francês, terei que esperar alguém traduzir. Que tal você fazer isso para nós?

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    1. Deise, eu tenho tentado encontrar editoras no Brasil dispostas a traduzir vários dos autores que comento por aqui. Às vezes, dá certo, como nos casos do Iulian Ciocan e do David Dephy... Meu professor de francês quer traduzir, mas achar uma editora é meio difícil.

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  2. Queria ver era o Valery ir do centro do Rio ao Complexo da Maré depois das 22h. E.

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