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Série O Bairro, de Gonçalo Tavares



A série O Bairro já vem sendo publicada no Brasil, se não me engano, pela Casa da Palavra. Mas na feira do livro em Lisboa não resisti à caixa com cinco volumes da Editorial Caminho - e no retorno, me dediquei aos senhores Calvino, Brecht, Eliot, Swendenborg e Walser. A edição é ilustrada por Rachel Caiano.


O bairro criado por Gonçalo Tavares está em constante expansão; parece viver um boom imobiliário, tal a profusão de novos apartamentos e moradores que para lá se mudaram ou marcaram a mudança... 

Interessante que o mapa do bairro mostra uma casa isolada de tudo e de todos, justamente a do senhor Walser que, coitado, tinha grandes expectativas em sua nova morada, longe da aglomeração. Robert Walser procurou ocultar-se por toda a vida numa floresta - passou quase que seus últimos trinta anos num manicômio. Mas o senhor Walser não terá muito sucesso, já que a cada momento entra em sua casa, tão esmeradamente planejada, alguém para consertar algo.

Quando fechava a porta atrás de si, Walser sentia virar costas à inumana bestialidade (de que saíra, é certo, há bilhões de anos atrás, um ser dotado de uma inteligência invulgar - esse construtor solitário que era o Homem) e entrar em cheio nos efeitos que essa ruptura entre a humanidade e a restante natureza provocara; uma casa no meio da floresta, eis a conquista da racionalidade absoluta.

Como o próprio Gonçalo Tavares disse em uma entrevista, seria mais sensato que o senhor Walser não tivesse aberto a porta da primeira vez. O senhor Walser se mostra irritantemente otimista.

Já o senhor Calvino, por seu lado, passeia pelo bairro, pensando e sonhando:

Mas se devemos admirar a boa memória do pardal, que voa exatamente como o seu antepassado Archaeopteryx, por outro lado também podemos criticar a falta de evolução, efeito evidente da ausência de novas ideias. Chamar conservador a algo que voa da mesma forma que o Archaeopteryx não parece, pois, insulto excessivo. Pardal conservador!, exclamou, para si próprio, Calvino. Nenhum gesto novo, nenhum motor imprevisto surgido nos últimos milênios, nada: em termos de locomoção a coisa é de uma monotonia assustadora. Em milhões de anos o seu desprezo pela força da gravidade - que é de se elogiar - é expresso da mesma maneira - o que se critica.

Os cinco livros desta caixa são pequenos; os textos, curtos e extremamente ágeis, e as ilustrações de Rachel Caiano extremamente felizes - não dá para ler o senhor Swedenborg sem elas. Este estranho senhor é obcecado pela geometria, e acompanha as atividades de seus vizinhos:

O senhor Swedenborg acabara de sair da sala onde o senhor Brecht costumava contar as suas histórias (tempo que o senhor Swedenborg aproveitava para as suas investigações sobre astronomia), e dirigia-se agora, a passo rápido para não chegar atrasado, a mais uma conferência do senhor Eliot. Conferências essas que o senhor Swedenborg aproveitava para se concentrar mentalmente nas suas investigações geométricas. Hum... na verdade, ele dava muito pouca bola aos seus vizinhos. Aliás, é no volume do senhor Eliot que se lê essa pérola:

Numa das paredes exteriores do auditório a frase grafitada:

'O doutor Rojas (cuja história da literatura argentina é mais extensa do que a literatura argentina)'.

Todos olharam para o senhor Borges, o grafitador do bairro. O senhor Borges sorriu. Abanou a cabeça e murmurou um pouco convincente: não fui eu.


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