sábado, 28 de janeiro de 2012

Conto da semana: Nikolai Karamzin


O conto da semana é de Nikolai Karamzin e inaugura a incrível Nova Antologia do Conto Russo organizada por Bruno Barretto Gomide. A tradução é de Natalia Marcelli de Carvalho e Fátima Bianchi.


Karamzin é pouco conhecido, não apenas no Brasil, mas no Ocidente como um todo. Na Rússia, no entanto, é reverenciado como o autor de uma monumental História do Estado Russo.  Nobre de origens tártaras, teve grande reputação também como jogador de cartas; lia de filosofia alemã aos romances franceses da época. Em sua única viagem à Europa, consta que bateu um papo em Konigsberg com Kant e assistiu aos discursos de Robespierre e Mirabeau na Assembleia Nacional, em Paris. Essa viagem originou as Cartas de um Viajante Russo, e foi catapultado à condição de líder do sentimentalismo russo. 

Seu conto mais conhecido é esse Pobre Liza, tido como uma obra fundamental da ficção russa, em que uma camponesa é seduzida e abandonada por Erast e que ao final se atira de uma ponte em Moscou. Eis seu início:

É provável que nenhum habitante de Moscou conheça tão bem quanto eu os arredores desta cidade, porque ninguém costuma ir ao campo mais que eu, ninguém vagueia mais que eu, sem plano, sem rumo - aonde os olhos levam -, por seus prados e bosques, por suas colinas e planícies. Todo verão encontro lugares novos e agradáveis, ou novas belezas nos antigos. O narrador fala de seu conhecimento dos arredores rurais de Moscou tal como João do Rio fala do centro urbano de sua cidade.

Liza perderá toda sua inocência; na verdade, passará a pensar cada vez mais em Erast. O amor platônico havia cedido lugar a sentimentos dos quais ele não podia se orgulhar. No final, ela será "trocada"; Erast deve ir à guerra. Não quer ficar em Moscou - posso - respondeu ele -, só que a custo de uma grande desonra, de uma grande mancha em minha honra. Todo mundo haverá de me desprezar e desviar-se de mim, como de um covarde.

Ele vai - Liza o espera. A guerra acaba. Mas, certo dia em Moscou, encontra-o, mas: as circunstâncias são outras; agora estou casado. Deves deixar-me em paz e, para o teu próprio bem, esquecer-me.

Não se trata, evidentemente, de um heroi, mas tampouco de um vilão. Erast é apenas um fraco, o "homem supérfluo", como bem colocam as tradutoras. E esta falta de "veredito" pode ser considerado o diferencial deste texto em relação aos outros da época, com temática semelhante. Não é a riqueza que os afasta - ainda que Erast tenha se casado com uma viúva rica, depois de ter perdido toda a sua fortuna - mas sim as tais 

O conto fez imenso sucesso na Rússia. Pushkin se baseou neste conto para seu A Senhorita Camponesa, que integra os Contos de Belkin. Em certa medida, me parece que também se pode encontrar ecos de Liza em Anna Karenina.

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