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A Noiva do Tigre, de Téa Obreht


A Noiva do Tigre
Tea Obreht
Tradução: Santiago Nazarian
São Paulo: Leya, 2011
280p.

Nas minhas lembranças mais antigas, meu avô é careca como uma pedra e me leva para ver os tigres. Ele veste o chapéu, sua grande capa de chuva de botões, e eu uso meus sapatos de verniz e meu vestidinho de veludo. É outono, e tenho quatro anos de idade. A certeza desse processo: a mão do meu avô, o sibilar alegre do carrinho de passear, a umidade da manhã, o passeio lotado morro acima para o parque do forte.

Sempre dentro do bolso do meu avô: O livro da selva, com sua capa dourada e páginas velhas amareladas. Não tenho permissão para segurá-lo, mas ficará aberto em seu colo a tarde toda enquanto ele recita as passagens para mim. Mesmo que meu avô não esteja usando seu estetoscópio ou avental branco, a senhora no guichê dos ingressos de entrada o chama de “doutor” (p. 9).

De uns tempos para cá comecei a me deparar com bons autores da minha idade ou mais novos do que eu... Tea Obreht, sérvia que hoje vive nos Estados Unidos, tem 25 anos e conquistou o Prêmio Orange de 2011, dado para a melhor ficção em língua inglesa escrita por mulheres, de qualquer parte do mundo, com este A Noiva do Tigre.

A autora nasceu em Belgrado; seu avô materno era um católico esloveno e sua avó, muçulmana bósnia. Não há notícia de seu pai. Com o início da guerra, a família partiu para o Chipre e depois para o Egito. Em 1997, com o fim do conflito, os avós retornaram a Belgrado, enquanto mãe e filha partiram para os EUA.

No romance, aclamado nos EUA (mas nem tanto na Inglaterra), Natália é uma médica, assim como seu avô que acaba de falecer em circunstâncias misteriosas. Na realidade, ele foi até uma aldeia justamente para isso: morrer, sozinho. Sempre acompanhado de um exemplar, em seu bolso, do Livro da Selva, de Kipling. Natália se lembra das histórias contadas pelo avô e tenta entender o que lhe teria acontecido. E, afinal, pensa ter compreendido o que se passou.

Ao longo das quase 300 páginas, a história será contada em dois tempos: o da médica em missão nos Bálcãs (num país indeterminado), nos anos 1990, e o do avô, mergulhado em um universo fantástico. Aqui, ela se utiliza com eficiência da tradição oral da região, com fábulas envolvendo animais, rituais de enterros e salvação das almas, e cria personagens curiosos, como o Homem Sem Morte, na verdade mais interessante que a Noiva que dá o nome ao romance. Este sujeito alega ser imortal, e encontra o avô por várias vezes ao longo da vida (deste).

Gavo responde: Não sei mesmo, levei o tiro pelas costas. Vê a forma como olho para ele e continua: Sinto que você e eu, doutor, não estamos nos entendendo como deveríamos. Veja, não é que não aceito a morte ou que finjo que ela não aconteceu, por isso fico vivo. Estou simplesmente dizendo que, tão certo quanto você está sentado aqui nesta igreja, na frente de Deus e de seu colega húngaro, que não solta esse pé de cabra porque ainda pensa que sou um vampiro, eu não posso morrer. p. 61.

Tea cria contradições interessantes: neta e avô são médicos – portanto, ao menos presumivelmente, mais “racionais” – mas mesmo Natália se vê perplexa com o encontro do tal Homem Sem Morte. Definitivamente, não parece ter sido escrito por alguém tão jovem, e menos ainda seu romance de estreia.

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