segunda-feira, 30 de maio de 2011

o remorso de baltazar serapião, de valter hugo mãe



“o meu pai pagava ainda a ousadia de se chamar afonso. afonso segundo um rei, mas sobretudo em semelhança ao senhor da casa a que servíamos, uma ousadia disparatada, um sarga chamado afonso, um verdadeiro familiar da vaca como se viesse de rei. quem não tinha do que se honrar, que diabo honraria aludindo a tal nome, perguntavam as pessoas ocupadas com nossa  vida. dom afonso, o da casa, era-o por herança e vinha mesmo das famílias de sua majestade, com um sangue bom que alastrava por toda a sua linhagem. nobres senhores do país, terras a perder de vista, vassalos poderosos, gente esperta das coisas do nosso mundo e de todos os mundos vedados. por isso, esqueciam-se quase sempre de que ele, o meu pai, se chamava afonso, e só lhe chamavam sarga, o da sarga, como ele e ela, como um casal. à minha mãe chegavam a dizer que fora à vaca que ele fizera os filhos, e ela revoltava-se. era sempre ela quem barafustava furiosa até que o meu pai viesse e impusesse o juízo e a calma” (p. 13).

Este é o primeiro livro do autor português nascido em Angola publicado no Brasil. Desconfiei muito dele: pontuação, digamos, “própria”; abolição de maiúsculas (o próprio autor escreve seu nome desta forma), tudo com cara de um livro ininteligível, daqueles que a linguagem é mais interessante que o enredo.

Mas não é. Como o autor mesmo disse, esta técnica por ele usada tem como objetivo imprimir uma velocidade ao texto, aproximando-o da narrativa oral (a linguagem do livro é popular e antiga).

Neste ambiente miserável, a vida é dominada pelo senhor do castelo, dom afonso, que tem predileção pelas moças bonitas. A família serapião é conhecida como os sargas (uma vaca de estimação); é tamanho o carinho que tem pelo animal que não apenas são conhecidos como os sargas, como há entre as pessoas a convicção de que os filhos do Afonso o são com ela, e não com a esposa do aldeão. Afonso tem três filhos: baltazar, aldegundes e brunilde, que vivia prestando “favores” a dom afonso. seu amigo, Dagoberto, procura se satisfazer com Teresa diaba – como todo o povoado, aliás.

Baltazar casa-se com a mais bela que já existiu, ermesinda. No entanto, as constantes visitas que dom afonso exige que ela lhe faça acabam por enlouquecer o próprio marido, com seu ciúme absolutamente paranóico. Como em Dom Casmurro, não há em momento algum a revelação da traição.

O tema central, no entanto, não é o ciúme, mas a violência doméstica. O pai de baltazar matou sua mãe. O próprio baltazar irá destruir a beleza de ermesinda, movido pelo ciúme descontrolado – pus a mão na cara de ermesinda e prometi arrancar-lhe olho algum se me pesasse a cabeça dia inteiro passado. Dona Catarina, como Baltazar mergulhada em ciúmes, ainda se pode dar ao “luxo” de humilhar as mulheres que ficam com seu marido – expediente que não está disponível a Baltazar. Este, por sua vez, via-se na missão de educar ermesinda. Amar tanto a mulher que “lhe parte a pancadas” não é algo que tenha ficado para os livros de História medieval...

O livro rendeu ao autor o Prêmio Literário José Saramago de 2007. Na Flip de junho, em Paraty, será lançado a máquina de fazer espanhóis. Parece que, com a morte de Saramago (fã deste livro, por sinal) abriu-se espaço, nas editoras brasileiras, para a nova geração de autores portugueses, até então desconhecidos por estas bandas.

sábado, 28 de maio de 2011

Conto da Semana – Jaroslav Hasek (uma história para ler na fila da alfândega...)

Jaroslav Hasek é um daqueles escritores que acompanharam os últimos anos da Áustria-Hungria de Francisco José. Nascido em 1883, em Praga, lutou por pouco tempo na I Guerra, sendo capturado pelos russos em 1915. Tornou-se comunista, viveu na Rússia revolucionária e morreu em 1923.

Hasek é conhecido pelo romance O Bom Soldado Schweik, obra que não teve tempo de concluir. Até onde eu sei, não há edição de seus contos no Brasil. Gosto particularmente de um, A Alfândega Austríaca, publicado pela primeira vez em 1912.

O narrador, viajando por Dresden, é atropelado por um trem. Estamos todos nas mãos de Deus, claro, mas eu estive também nas mãos dos médicos. Mais exatamente 18 médicos e 52 assistentes: desde esse dia, eu não sei o que exatamente é realmente meu (...) Recebi um certificado detalhando as partes do meu corpo que foram reconstituídas, de 14 páginas.

Os únicos pedaços de mim foram uma parte do cérebro, uma parte do estomago, cerca de 15 quilos de minha carne e meio litro de meu próprio sangue (...) eu era um verdadeiro triunfo da ciência médica.

Todas as demais partes do seu corpo eram “de outras fontes”. Depois de visitar o cemitério, onde se despediu de seus antigos pedaços, tentou voltar para casa (Praga), não sem antes observar que “levava mais de sua visita a Dresden que qualquer outro turista”.

O problema inesperado foi passar pelos agentes da fronteira austríaca. O Inspetor-chefe da alfândega dos Habsburgos, realmente impressionado com o certificado médico, vê uma série de óbices no Código Aduaneiro para o seu ingresso no país: a placa de prata que substituiu a parte traseira do seu crânio, por exemplo – a prata estava sem a marca de autenticidade (12 coroas de multa); 120 gramas representavam, ainda, a aplicação do triplo da multa. O fêmur havia sido substituído pelo osso de cavalo (importação de osso não declarado, o que significou mais uma multa – o prejuízo para a indústria austríaca de ossos de animais era evidente. As costelas, substituídas por platina, geraram mais 1600 coroas de impostos.

Mas o problema definitivo foi a substituição dos rins pelos de porcos: Ora, meu caro senhor, a importação de porcos para a Áustria é proibida, o que se aplica também às partes do porco. Se você quer entrar na Boêmia, seu rim terá de permanecer na Alemanha.

E,  como não concordei com isso,  há dez anos estou, na Alemanha,  à espera da vitória do Partido Agrário (sou um agrarista) para permitir a importação de porcos pela Áustria. Então retornarei à minha terra natal.

Hasek tinha especial predileção por mostrar – e ironizar – a burocracia, em todos os seus setores (com especial “carinho” pela Justiça).  Serve como consolo quando estamos na interminável fila da alfândega e da imigração (aqui e em qualquer lugar).

terça-feira, 24 de maio de 2011

Caim, de José Saramago



“Quando o senhor, também conhecido como deus, se apercebeu de que a adão e eva, perfeitos em tudo o que apresentavam à vista, não lhes saía uma palavra da boca nem emitiam ao menos um simples som primário que fosse, teve de ficar irritado consigo mesmo, uma vez que não havia mais ninguém no jardim do éden a quem pudesse responsabilizar pela gravíssima falta, quando os outros animais, produtos, todos eles, tal como os dois humanos, do faça-se divino, uns por meio de mugidos e rugidos, outros por roncos, chilreios, assobios e cacarejos, desfrutavam já de voz própria”.

E assim começa o romance de Saramago, saído por aqui em 2009 mas que só agora li. Também não li O Evangelho Segundo Jesus Cristo, onde ele se encarrega de criticar a Igreja Católica e que foi muito lembrado e comparado a Caim. Recentemente, li A Viagem do Elefante.

Saramago era ateu e comunista, e nutria pouca simpatia pelo povo do Antigo Testamento (Como sempre tem sucedido, à mínima derrota os judeus perdem a vontade de lutar). Sobra para todos, desde Abraão (...fora isso não compreendo como irão ser abençoados todos os povos do mundo só porque Abraão obedeceu a uma ordem estúpida... p. 56) ao próprio Deus (“Antigamente o senhor aparecia à gente em pessoa, por assim dizer em carne e osso, via-se que sentia mesmo certa satisfação em exibir-se ao mundo, que o digam adão e eva ... Agora, o senhor esconde-se ... p. 76) ou então: Naquela época as maldições eram autênticas obras-primas literárias, tanto pela força da intenção como pela expressão formal em que se condensavam (p. 78).

Para Caim, a culpa de tudo é de Deus – afinal, ele poderia mas não impediu a morte de Abel. E, assim, Caim é poupado pelo Criador. A partir daí, inicia uma viagem pelo tempo, e Saramago revisa praticamente todo o Antigo Testamento: presencia a destruição da torre de Babel, Moisés, Sodoma, o Dilúvio... sempre deixando sua marca, interferindo nos acontecimentos e deixando descendentes. No final, um confronto entre Caim e o senhor:

Caim és, e malvado, infame matador do teu próprio irmão, Não tão malvado e infame como tu, lembra-te das crianças de Sodoma. Houve um grande silêncio. Depois caim disse, Agora já podes matar-me, Não posso, palavra de deus não volta atrás, morrerás da tua natural morte na terra abandonada e as aves de rapina virão devorar-te a carne, Sim, depois de tu primeiro me haveres devorado o espírito. A resposta de deus não chegou a ser ouvida, também a fala seguinte de caim se perdeu, o mais natural é que tenham argumentado um contra o outro uma vez e muitas, a única coisa que se sabe de ciência certa é que continuaram a discutir e que a discutir estão ainda. A história acabou, não haverá mais nada a contar.

sábado, 21 de maio de 2011

Conto da semana - Saki


O conto da semana é  A Porta Aberta, de Saki, ou melhor, Hector Hugh Munro (1870-1916). Saki nasceu na Índia; o pai era major britânico e inspetor da polícia de Burma. O autor morreu no front francês durante a I Guerra.

Já havia falado dele num post sobre a coleção Mar de Histórias, de Ronai e Aurélio, bem como um curta nacional. Ele está no volume 9. Mas apenas mencionei este conto, de cerca de cinco páginas.

O vídeo acima é uma produção britânica de 2004 com Michael Sheen (o Tony Blair do filme "A Rainha") como Framton Nuttel, e Charlotte Ritchie como Vera, a menina de cerca de quinze anos que "faz sala" enquanto sua tia não chega. E começa a contar ao visitante sobre a terrível "tragédia" que se abateu sobre a tia, a Sra. Sappleton.

O conto é um dos mais famosos de Saki, conhecido por tratar do lado cruel das crianças.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Trem da Vida, de Radu Mihaileanu

A Revista Bravo deste mês informa o lançamento, em DVD, de Trem da Vida, de Radu Mihaileanu (1998). Trata-se, na verdade, de seu relançamento. Peguei na locadora neste sábado e assisti ontem.

O filme foi muito elogiado não só pela crítica como também pelo público, e é fácil entender o porquê. 

Num shetl da Europa Oriental em 1941, o bobo da aldeia Schlomo chega com a notícia de que os nazistas iniciaram as prisões e deportações de judeus nos vilarejos vizinhos, e sugere uma ideia inusitada – a simulação da própria deportação, e fugir para a Palestina.


Assim, uma parte da aldeia faz o papel dos alemães – curioso: este papel era para os mais qualificados, aqueles que “mereciam” ser alemães. Outros, os deportados. E uns, ainda, viram comunistas (acabam realmente acreditando nisso...).

Para isso, precisam construir um trem, e todos doam seus bens para arrecadar fundos para a compra de uma locomotiva. E iniciam a jornada.

Há momentos hilários, como o “tenente coronel alemão” (Rufus) numa unidade nazista, dando uma bronca no Exército e pedindo animais vivos (segundo ele, não confia na competência do comandante da unidade em garantir alimentos decentes para o trem) – e, assim, consegue alimentar os fugitivos com comida kosher...

O final é surpreendente, e o filme, definitivamente, trata o espectador com inteligência. Mais do que isso estraga a história. Confiram!

Filmes Russos Clássicos

A dica está no blog ReadySteadyBook - aqui. O canal da Mosfilm no Youtube está lançando cerca de cinco filmes por semana (Andrei Rublev, Solaris de Tarkovsky, entre os títulos), em HD e com legendas em inglês. Vale dar uma conferida. Bom filme a todos.

sábado, 14 de maio de 2011

Romanov Riches


Romanov Riches: Russian Writers and Artists under the Tsars. Solomon Volkov.
Volkov tem um livro extraordinário publicado pela Record: São Petersburgo: uma história cultural (1997), onde trata dos escritores e músicos da antiga capital russa ao longo dos seus 300 anos de história, de Pedro à era pós-soviética.

Poderíamos cobrar a edição brasileira de suas outras obras, sempre tratando da história cultural do seu país. Neste último (by Kindle), o autor trata das intensas relações entre a dinastia Romanov e os artistas russos, de 1613, com Alexis, a 1917. Ano passado, li o livro que, na realidade, é a continuação deste que acabo de ler - The Magical Chorus - A History of Russian Culture from Tolstoy to Solzhenitsyn (2008).

Aqui, Volkov apresenta autores ignorados fora da Rússia, como Karamzin e sua História da Rússia, que celebra a monarquia dos Romanov. E, evidentemente, reforça o papel (já destacado em São Petersburgo) de Puschkin como o grande divisor de águas das artes russas.

 Sobre Puschkin, lembra que seu avô materno, Abram Gannibal, negro abissínio, era um dos favoritos de Pedro, o Grande – Puschkin era chamado de “negro branco”. Já a família do seu pai era aristocrata, e suas raízes chegavam ao século XIII, no tempo de Alexander Nevsky. A relação entre o escritor de Eugene Oneguin e o czar foi bastante conturbada: ele tinha a simpatia do soberano, que no entanto chegou a bani-lo de São Petersburgo: os opositores do regime também o tinham em alta consideração. Pressionado para puni-lo, Nicolau afirmou que iria utilizar o maior direito dos soberanos – o de perdoar. É certo que adorava a sua poesia – e sua esposa. E, como não poderia deixar de mencionar, considera a morte de Puschkin em duelo como parte da mitologia da cultura russa.

Algumas histórias são bastante curiosas: Glinka compôs uma ópera sobre o surgimento dos Romanov. Inicialmente, foi chamada Ivan Susanin (o camponês que teria dado sua vida aos poloneses para salvar o jovem Alexis e, assim, salvar o destino da Rússia). Posteriormente, Uma Morte para o Czar, mas Nicolau I achava que “quem dá a vida pelo seu soberano não morre”, e eis que a peça é conhecida como Uma Vida pelo Czar.

Tolstoi, por sua vez, impressionou de tal forma com sua série de histórias sobre a Guerra da Crimeia que o czar ordenou pessoalmente que o escritor fosse mantido à distância da linha de frente.

Como diz Volkov, para os Romanov a cultura era o instrumento político por excelência.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Flaubert sumiu

O Blogger esteve com problemas desde ontem, e o que foi postado desde o dia 11 foi temporariamente (espero) excluído. Vou tentar resgatar o texto.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Conto da semana - Flaubert

 
O conto da semana é de Flaubert: Passion et Vertu, escrito em 1837 (aos 16 anos) e pouco lembrado (somente foi publicado em 1910) é considerado por muitos um esboço do que viria a ser sua obra maior, Madame Bovary. Talvez este seja o maior interesse que o conto desperta, principalmente para a crítica. Para muitos, ainda, o enredo é baseado em um caso judicial da época. Flaubert estudou Direito, mas desistiu de tudo para se dedicar exclusivamente à literatura.

Mazza Willers é uma mulher casada e mãe de dois filhos mas, como diz o autor, la vertu s’evapore bien vite au sourire d’une bouche q’uon aime... E eis que é seduzida por Ernest Vaumont, um verdadeiro Don Juan, que irá abandoná-la, fugindo para a América (sempre ela... no caso, para o México...).

E não quer saber de suas cartas melosas (atrapalhando o seu trabalho), agora que vive numa bela casa, e a aconselha a esquecê-lo. Para falar a verdade, está mesmo é interessado na filha do diretor da empresa, uma charmante personne de 17 ans, son père a soixante mille livres de rentes, elle est fille unique, elle est douce et bonne..., com quem se casará em um mês.

O desfecho é previsível...

domingo, 8 de maio de 2011

O discurso do primeiro-ministro

No post anterior, ao invés do discurso, postei a festa em Londres. Aqui, Churchill anuncia o fim do Terceiro Reich.

V-Day


O anúncio de uma vitória, numa época em que os vencedores realmente venciam e os perdedores efetivamente eram derrotados... Não me parece que hoje seja possível anunciar categoricamente a vitória da civilização sobre seus inimigos, como em 1945.

Se hoje estamos por aqui, acredito que devemos o fato ao autor do discurso, mais do que a qualquer outro.

Há alguns anos, li Churchill , de Lord Roy Jenkins (Ed. Nova Fronteira, 2002, traduzido por Heitor Aquino Ferreira), o que para mim é um modelo de biografia. Em cerca de 900 páginas, o autor apresenta a vida de Churchill, desde sua juventude como oficial do Exército Britânico na Guerra dos Boers, no auge do Império Britânico, até o "anoitecer",  com sua morte em 1965, já com o país em posição definitivamente secundária no mundo.

Lord Jenkins iniciou sua carreira como deputado trabalhista. Foi ministro das Finanças e chegou a liderar o partido liberal-democrata. Isso não o impediu de, a despeito de apontar defeitos, erros de julgamento e mesquinharias do biografado, reconhecer seu valor. E, talvez por isso mesmo, suas palavras tenham um peso ainda maior:

"De mais importância que a comparação entre as diferentes exéquias é um julgamento entre Gladstone, indubitavelmente o maior primeiro-ministro do século dezenove, e Churchill, indubitavelmente o maior do século vinte. Quando comecei a escrever este livro, parecia-me ser Gladstone, por estreita margem, o mais eminente, com toda certeza o mais notável espécime de humanidade. Ao longo da obra, mudei de opinião. Hoje tenho Churchill, com todas as suas idiossincrasias, suas indulgências, suas ocasionais puerilidades, mas também sua centelha de gênio, sua tenacidade e sua permanente capacidade, certo ou errado, bem ou mal sucedido, de surgir sempre imenso, tenho Churchill como o mais grandioso ser humano que jamais ocupou o nº 10 de Downing Street" (p. 836).

quinta-feira, 5 de maio de 2011

La Belle et La Bête - Jean Cocteau




Desde fevereiro, quarta-feira é dia de estudar francês. Terminei o curso na Aliança Francesa do Rio em 1994. Só agora consegui retomar os estudos, com aulas particulares, aqui em Belo Horizonte, com o professor Jandir Correa, que possui uma coleção incrível de filmes franceses.

Dessa coleção, emprestou-me o DVD da adaptação, por Jean Cocteau (1946), do conto escrito por Mme. Leprince de Beaumont. Com Jean Marais e Josette Day.

Parece haver algo do teatro em diversos aspectos, como as estátuas e os candelabros humanos. O espelho é outro objeto marcante - uma janela entre o mundo do palácio e o "real". Esta janela é fisicamente atravessada com o uso da luva, pela Bela. Estas cenas, além daquelas que a mostram atravessando o corredor (atmosfera que só os filmes preto e branco conseguem produzir), são as que mais me chamaram a atenção.



Aqui os personagens adquirem um tom definitivamente mais "adulto", bem diferente da versão hoje por todos conhecida da Disney.

terça-feira, 3 de maio de 2011

O Dom do Crime (2)

Um texto anônimo é retirado das arcas do IHGB em 2010, com uma tese interessante que afirma que Machado de Assis se inspirou em um rumoroso caso judicial do Rio, em 1866, para a criação de seu Dom Casmurro.

Trata-se do assassinato de Helena Augusta pelo seu marido, o Dr. José Mariano. Como nos livros de Machado, temos ainda uma agregada (Leonor), um vizinho (Raimundo Martiniano) e uma escrava, que irá confirmar os encontros entre Helena (por sinal, o título de outro romance, publicado em 1876) e Raimundo. E, como em Dom Casmurro, uma traição nunca efetivamente demonstrada.

O solitário narrador, que vive com uma gata e sua biblioteca, faz inúmeros paralelos entre o crime e o romance, observando que diversos autores procuram suas fontes na realidade – como quando informa que Joaquim Manuel de Macedo já reclamava que muitas novelas partiam de casos criminais. “Obras anfíbias, portanto, entre a ficção e a realidade, boa parte das quais redigida a partir de processos clamorosos, como o do homicida Pontes Visgueiro, que não deixou de produzir variantes ficcionais”.  E mesmo Aluísio de Azevedo, que “tirou Casa de Pensão, romance bem documentado, a que acrescenta uma série de timbres ficcionais. Busch teve papel de relevo no caso que inspirou o jovem romancista. E Aluísio não se saiu mal”. E assim procura defender sua tese.

A defesa do Dr. José Mariano, desempenhada pelo famoso advogado da época, Busch Varella, trata, obviamente, de responsabilizar a vítima: “Mais que o silêncio da morte, assiste-se ao canto da difamação. Helena é morta. Difícil ouvir-lhe as palavras, lançadas num abismo que tem por finalidade atenuar o crime de Mariano”.  De fato, Mariano foi inocentado em dezembro de 1866, mostrando o sucesso da tática de defesa.

Lucchesi, assim, acaba por nos contar o caso real, aproveitando-o para imaginar uma possível influência em Machado, que em 1866 trabalhava para o Diário do Rio de Janeiro.  Fica um livro, digamos, bastante refinado, de leitura muito agradável e com várias boas passagens. Uma grande diversão para os leitores de Machado e, sem dúvida, uma boa introdução à sua obra para os mais jovens.

O Dom do Crime

 O Dom do Crime. Marco Lucchesi. Editora Record, 2010.

É sobre isso que pretendo escrever, caro doutor Schmidt: as memórias dos outros. Prometo frear o tom, mais comedido, talvez mais frio, como querem os positivistas. Um livro sem opiniões. Beirando o cinismo. Ou quase.

Machado e meus contemporâneos não terão acesso a estas páginas. Vou depositá-las na arca do sigilo do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e manifesto claramente o desejo de que esse rabiscos só poderão ser abertos depois do dia 6 de novembro de 2010, quando serei um espectro, assim como as personagens deste libelo. Se houver descendentes, não meus, que respondam. Os que vagamos nestas folhas estaremos desaparecidos. Apenas a memória dos nomes. Quem há de se ofender com minhas palavras, quem há de me convocar para um duelo, depois de sopesar uma verdade sobre a qual cabem muitas dúvidas?

Aos fatos, senhores. Aos fatos. (p. 20)

A Minha Versão do Amor

Dirigido por Richard Lewis, o título em português esconde o fato de se tratar da adaptação do romance Barney's Version, de Mordecai Richler (1931-2001), publicado no Brasil (e que não li). O ator Paul Giamatti (Barney) é o grande nome do filme, que retrata a vida e as besteiras feitas por Barney Panofsky, produtor de novelas baratas para a Totally Unnecessary Productions, e seus três casamentos.

A primeira mulher, Clara, é a maluquinha dos anos 60, que vive bêbada e alterada e que acaba se suicidando. A segunda sofre de uma terrível incontinência verbal e percebe que o marido não lhe dá a mínima. É filha de milionários judeus. Na festa deste casamento, Barney conhece (e se apaixona por) Miriam, que virá a ser sua terceira mulher - e a única que verdadeiramente ama.

Na segunda parte do filme, o humor judaico (para muitos, semelhante a Woody Allen, do que, particularmente, discordo) e recheado de ironias dá lugar à evidente decadência física e mental de Barney, que sofre de Alzheimer.

Além de Giamatti, destaque também para Dustin Hoffman, que faz o papel de seu pai, Izzy, policial aposentado, totalmente incoveniente.