Pular para o conteúdo principal

Conto da semana - Slawomir Mrozek e o boneco de neve

Ilustração de Daniel Mroz


Slawomir Mrozek nasceu na Cracóvia, em 1930, e é o autor do conto da semana. Conhecido como dramaturgo, lançou em 1957 uma coleção de contos – O Elefante. São histórias muito curtas e irônicas, lembrando em muito os contos absurdos de Jaroslav Hasek.

Desta coletânea, baixada via Kindle, consta Crianças. Uma situação absurda, mas cada vez mais plausível em nossos tempos politicamente corretos em que todos se ofendem por qualquer coisa.

Umas crianças fazem, numa praça, um inocente boneco de neve com tudo a que tem direito: nariz de cenoura, olhos, boca, chapéu. Diferente de qualquer outro boneco. O pai estava todo orgulhoso, além de satisfeito com a brincadeira ao ar livre.

No entanto, à noite o jornaleiro procura o pai: tinha o nariz vermelho como a cenoura usada pelas crianças, e não gostou nada desta “alusão” – que isso não mais se repita, avisou. O pai, obviamente, ficou preocupado: as crianças não poderiam ridicularizar ninguém. Logicamente, isso jamais passou pela cabeça delas.

Depois, o diretor da cooperativa viu na disposição das bolas de neve uma sugestão que, na cooperativa, “um ladrão se senta sobre outro”. As crianças caíram em prantos diante de tal acusação.

Finalmente, o presidente local do Conselho Nacional: o boneco foi feito em frente à sua janela, o que era, claramente, um ato subversivo. Os botões do boneco eram uma ofensa à autoridade; ridicularizavam o fato de andar com a braguilha aberta o que, claro, era um direito a ele reservado.

Chorando, disseram que apenas fizeram um boneco de neve, sem pensar em ninguém, sem qualquer outra motivação. Mas ficaram sem a ceia e tiveram que se ajoelhar no chão.

Um dia, com a praça interditada, as crianças são vistas num jardim, discutindo como fazer um novo boneco de neve; um que não fosse “comum”, mas que tivesse o nariz vermelho do jornaleiro pinguço, os botões do presidente...

Comentários

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

O conto da semana, de Italo Calvino

O conto da semana é novamente de Calvino – Quem se contenta – e integra Um General na Biblioteca : Havia um país em que tudo era proibido. Ora, como a única coisa não-proibida era o jogo de bilharda, os súditos se reuniam em certos campos que ficavam atrás da aldeia e ali, jogando bilharda, passavam os dias. E como as proibições tinham vindo paulatinamente, sempre por motivos justificados, não havia ninguém que pudesse reclamar ou que não soubesse se adaptar. Passaram-se os anos. Um dia, os condestáveis viram que não havia mais razão para que tudo fosse proibido e enviaram mensageiros para avisar os súditos que podiam fazer o que quisessem. Os mensageiros foram àqueles lugares onde os súditos costumavam se reunir. - Saibam – anunciaram – que nada mais é proibido. Eles continuaram a jogar bilharda. - Entenderam? – os mensageiros insistiram – Vocês estão livres para fazerem o que quiserem. - Muito bem – responderam os súditos – Nós jogamos bilharda. Os mensagei...

Conto da semana: Nikolai Karamzin

O conto da semana é de Nikolai Karamzin e inaugura a incrível Nova Antologia do Conto Russo organizada por Bruno Barretto Gomide. A tradução é de Natalia Marcelli de Carvalho e Fátima Bianchi. Karamzin é pouco conhecido, não apenas no Brasil, mas no Ocidente como um todo. Na Rússia, no entanto, é reverenciado como o autor de uma monumental História do Estado Russo .  Nobre de origens tártaras, teve grande reputação também como jogador de cartas; lia de filosofia alemã aos romances franceses da época. Em sua única viagem à Europa, consta que bateu um papo em Konigsberg com Kant e assistiu aos discursos de Robespierre e Mirabeau na Assembleia Nacional, em Paris. Essa viagem originou as Cartas de um Viajante Russo , e foi catapultado à condição de líder do sentimentalismo russo.  Seu conto mais conhecido é esse Pobre Liza, tido como uma obra fundamental da ficção russa, em que uma camponesa é seduzida e abandonada por Erast e que ao final se atira de uma ponte em...

A Montanha Mágica, de Thomas Mann

  Meu primeiro Thomas Mann foi Os Buddenbrooks , ainda durante a faculdade. Alguns anos depois, a trilogia José e seus Irmãos, As confissões do Impostor Felix Krull, A Morte em Veneza e, recentemente, Doutor Fausto. Mas faltava o que para muitos é o seu melhor trabalho.  A descoberta do Raio X, em 1895, permitiu o diagnóstico precoce da tuberculose, ainda que, em 1907, a única forma de tratá-la era a internação em sanatórios.  Thomas Mann acabara de publicar  A Morte em Veneza  quando, acompanhado de sua esposa, esteve em Davos. Lá surge a ideia para  A Montanha Mágica. O Sanatório Berghof hospeda uma amostra d a sociedade europeia do início do século XX. Lá está Joachim Ziemssen. E é para lá que o engenheiro Hans Castorp, exausto com seus estudos e prestes a iniciar sua vida profissional, se dirige. Saudável – ao menos é o que pensa - sua ideia é visitar o primo e passar cerca de três semanas. Ao longo das mais de 820 páginas da minha edição da Companhia d...