sábado, 29 de dezembro de 2012

2012

Listas para quem lê listas.


Grandes descobertas - entre os contos, destaques para os brasileiros Fred di Giacomo e Vera Helena Rossi; entre os estrangeiros, David Dephy, Maritta Lintunen, David Rose, Pierre Mejlak, Miroslav Penkov, Kirill Kobrin e Dragan Radulovic.

Romances: o melhor na verdade não conta: Guerra e Paz, lido ao longo de três meses e uma hérnia. Entre os brasileiros, Ricardo Lísias - O Céu dos Suicidas, Tatiana Levy - A Chave da Casa e Michel Laub - Diário da queda (os dois últimos são anteriores a 2012). Entre os estrangeiros, destaques para Ramona Ausubel - No One is Here Except All of Us (este merce tradução) - Goce Smilevski - A Irmã de Freud (deve sair por aqui em 2013) - João Ricardo Pedro - O Teu Rosto será o Último - Julie Orringer - A Ponte Invisível e Ian McEwan - Serena.

Não-ficção: dois livros - A Virada, de Stephen Greenblatt, e O Chapéu de Vermeer, de Thimoty Brooks. E Viagem a Portugal, de Saramago, já bem antigo mas que li em julho.


sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Rubem Fonseca - Belinha

O último conto da semana de 2012 é brasileiro - Belinha, de Rubens Fonseca, parte do número de dezembro da Words Without Borders, e que pode ser lido, obviamente em português, aqui.

Pode deixar, eu disse, e o Despachante continuou, lembra da Glock e da merda que deu?, como se eu fosse esquecer o crioulo que fingia que morava nas pedras com as baratas mas não era do ramo e cheirava a sabonete perfumado e tinha um relógio granfa no pulso e quando meteu a mão na cintura para tirar a ferramenta dei-lhe um tiro na cabeça e fiquei com a arma dele, uma Glock 18, automática, uma beleza, a melhor coisa que a Áustria deu ao mundo. Mas era quente e quando me pegaram com ela me encheram de porrada, quebraram dois dentes aqui da frente e um dedo da mão, pois queriam que eu confessasse que tinha matado o crioulo e que se eu dissesse quem tinha me contratado eles aliviavam a minha barra, mas não abri o bico  não confessei porra nenhuma.

Um final que me lembra Nelson Rodrigues...

Uma semana sem o conto da semana, que volta no dia 9 de janeiro.


Vsévolod Bagnó

Na Revista Kalinka deste mês, alguns aforismas de Vsévolod Bagnó, diretor da Casa de Puschkin:

Homem de verdade é aquele que finge que aguenta o tranco. Mulher de verdade é aquela que finge que não (essa é digna de Millôr).

**

A alma ao diabo venderás, a voz, a mão e o coração, com esse trocado comprarás um par de pernas para dar no pé.




sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Conto da semana, de Kirill Kobrin

O conto da semana é do russo Kirill Kobrin (1964), atualmente vivendo em Praga. O Último Verão em Marienbad é parte do volume do Best European Fiction 2013 - o segundo de que falamos aqui.


Kafka e Felice estiveram juntos por dez dias em julho de 1916, num hotel em Marienbad. Este período é a inspiração do conto do escritor russo, que se passa, a rigor, dois anos antes. 


Neste verão, Marienbad não está tão cheia de gente como no ano passado: há menos alemães, menos russos, os ricos comerciantes de Istambul com seus fezzes vermelhos quase já se foram. 

O personagem está esperando pela esposa, na fonte de água mineral; ela está atrasada, mas ele não está muito preocupado, já que há alguns anos ele parou de se preocupar com os seus atrasos. E ele passa a divagar, relembrando sonhos, desejos, a situação da Europa e seus Impérios já em desmoronamento.

Mas só descobrimos - ou começamos a suspeitar - de que estamos falando de Kafka (apesar de que quem conhece a vida do escritor já desconfiar) quando surge Max. E mais à frente, a confirmação:

(...) começou a escrever um romance mas nunca passou da primeira frase. 'Alguém deve ter caluniado Josef K., pois sem que tivesse feito nada de errado, numa certa manhã, ele foi detido'.  Ele memorizou essa frase, a única de que conseguia se lembrar agora entre os seus escritos, já que entregou todos os seus papéis, notas e diários a Max depois do seu casamento, ordenando-lhe que queimasse tudo. O traiçoeiro Max perguntou, agindo inocentemente, por que ele mesmo não destruiu tudo.

O que interessa no conto não é sua ação - que, a rigor, não existe - mas a recriação do ambiente, tanto geográfico quanto psicológico, que envolveu o autor d'O Processo. Max telefona alguns dias depois, dizendo que tudo terminou numa fogueira. Kafka jamais veria o amigo novamente. Acompanhamos os pensamentos envolvendo os judeus e o rabino de Beltsov (que muito o entusiasmou), já se fala da Palestina, dos turcos, russos e austríacos.

No final, com o calor do verão europeu, Franz se refugia em uma sombra, quando sua esposa finalmente aparece, esbaforida e com cara de desespero, contando-lhe a notícia de agosto de 1914. Logo agora, quando ele já estava acostumado com seus atrasos.

sábado, 15 de dezembro de 2012

A Cadeira, de David Dephy

Hoje, quando ainda estou neste quarto, olhando para o seu interior familiar, um estranho sentimento me aflige - o sentimento de uma profunda e lenta dor, uma imensa tristeza, pois a história da qual participei permanecerá em minha memória para sempre, e sou absolutamente incapaz de esquecê-la por um minuto que seja, o que me deixará sem descanso pelo resto da minha vida.

É claro que o conto da semana é A Cadeira, de David Dephy, com tradução do inglês lançada pela Editora Lumme nesta quarta-feira. A editora lançará, a partir do próximo ano, romances e contos do autor.

Photo: Nosso orgulho!!

A leitura ocorreu no Centro Cultural São Paulo. 

Neste conto, bastante curto - página e meia - conhecemos a história de Sandro, um escritor obstinado, que dedica todas as suas forças, até a exaustão, à conclusão de sua obra. Sozinho, isolado de todos, destruindo-se nas poucas horas em que não está escrevendo. 

Mas o narrador o acompanha todo o tempo, assiste a tudo; as crises e as euforias do artista. E é justamente o ponto de vista deste insólito narrador que prevalece - e descobrimos ao final deste brevíssimo conto - cerca de página e meia. 

Tal como em outros contos, Dephy mostra sua capacidade de criar e adotar outras vozes, sem jamais perder o controle de sua narrativa.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Serena, de Ian McEwan


Serena
Ian McEwan
Companhia das Letras
Tradução de Caetano W. Galindo
384 p. 


Meu nome é Serena Frome (a pronúncia é Frum) e há quase quarenta anos fui enviada numa missão secreta do Serviço de Segurança britânico. Eu não voltei em segurança. Um ano e meio depois de entrar fui despedida, depois de ter caído em desgraça e acabado com a vida do meu namorado, embora ele certamente tenha tido um pouco a ver com a sua própria queda.

Não vou perder muito tempo com a minha infância e a minha adolescência. Sou filha de um bispo anglicano e cresci com uma irmã numa catedral de uma cidadezinha linda no leste da Inglaterra. A minha casa era simpática, lustrosa, organizada, cheia de livros. Os meus pais gostavam bastantinho um do outro e me adoravam, e eu a eles. A minha irmã Lucy e eu tínhamos um ano e meio de diferença e, apesar de nós termos passado a adolescência brigando uma com a outra, isso não deixou grandes cicatrizes e nós ficamos mais próximas na vida adulta. A fé do nosso pai em Deus era uma coisa  acomodada e razoável, não se metia muito na nossa vida e foi apenas o suficiente para ele conseguir subir tranquilamente na hierarquia da Igreja e nos instalar numa confortável casa do período da rainha Anne. A casa dava para um jardim cercado por muralhas de plantas que eram, e ainda são, muito bem conhecidas por quem entende de jardinagem. Então, tudo muito estável, invejável e até idílico. Nós crescemos dentro de um jardim murado, com todos os prazeres e limitações que isso implica. Você pode ler o primeiro capítulo aqui.

Os livros do Ian McEwan são sempre muito aguardados. Ele já havia recebido o Man Booker Prize de 1998 com Amsterdam, mas ficou mundialmente conhecido com a transposição para as telas do extraordinário Reparação. 



Neste novo romance, aparentemente sobre espionagem, o enfoque é muito diferente de um outro McEwan, O Inocente (que também virou filme), onde ele criou toda uma atmosfera de suspense no pós-guerra - e início da Guerra Fria, em Berlim.

Serena Frome é uma filha de um pastor e leitora compulsiva (que lê tanto Ian Fleming quanto Aleksander Soljenitzin), que acaba contratada pelo MI5 e se envolvendo no campo de batalha cultural da Guerra Fria em Londres,1972. 

Ainda são raras as mulheres no serviço secreto, e ela termina como uma secretária de luxo. Mas, como voraz leitora de ficção, além de muito bonita e atraente, termina como uma opção para um tal Projeto Tentação, que financiava escritores afinados com o lado ocidental do conflito.

E sua primeira missão é contatar um certo Tom Haley, candidato a um doutorado na Universidade de Sussex - e que está precisando de dinheiro. Serena fica fascinada pelos seus contos - conto não vende, ela nos avisa -  e depois por ele próprio, o que é bastante previsível. Tom para de exercer outras funções e empregos para se concentrar exclusivamente ao ofício de escritor. Como ele mesmo diz - de repente, uma linda mulher lhe oferece uma bolsa para que se dedique exclusivamente à criação... tinha que ter alguma coisa de errado... Ele não sabe que está sendo remunerado pelo MI5. E é isso que se quer - o financiado jamais pode saber que está sendo pago para isso.

Como em Reparação, o romance é narrado em primeira pessoa por uma mulher, e também pode ser considerado um romance sobre a literatura - e mais ainda, sobre o ato de escrever, o que fica claro no desfecho desta história. Muito mais que um romance sobre espionagem, ou sobre o MI5 ou ainda a Guerra Fria. O grande tema é a literatura; sobre escritores e leitores.

Quando já estamos preparados para um determinado final; quando tudo parece ter sido desmontado - o primeiro parágrafo do romance já mostra que ela foi demitida, caindo em desgraça com seu namorado -  descobrimos uma carta escrita por Tom - e as mudanças são dramáticas. Como em Reparação, ficamos com a confusão entre o que é real e o que é ficção.

domingo, 9 de dezembro de 2012

Antologia do 31º Concurso Literário da Uniso

Saiu - em ebook - a Antologia do 31º Concurso Literário da Uniso. O microconto abaixo recebeu Menção Honrosa e teve a honra de participar da antologia.


4 de junho de 1989

Cansou-se do ocidente. O chinês é espiritualizado, com imensa paz anterior. Foi à Praça da Paz Celestial meditar. Nunca mais foi vista.

sábado, 8 de dezembro de 2012

Conto da semana, de Alberto Mussa

Salvo uma ou outra exceção, nossos ficcionistas não dão bola para nossa história colonial. É bem verdade que nas escolas a literatura começa em 1922, com exceção de Machado de Assis...


Na Antologia Pan-americana organizada por Stéphane Chao, o Brasil está representado por vários autores. Alberto Mussa e seu O rapto do fogo retornam a 1602 e à capitania de Porto Seguro. Conhecemos a história do fazendeiro Neco Dias, que perde tudo o que tem. Casou-se com dona Maria Eugênia no Mosteiro de São Bento... Depois de fracassar com o gado, resolveu montar um engenho de açúcar. Foi quando conheceu o paulista.

Era um homem alto, barbudo e sujo, nascido pelas bandas de Piratininga, que vivia metido no sertão apresando os negros da terra. Foi desse homem que recebeu os escravos, para pagar depois, com o lucro do açúcar. Mas o Neco Dias de então desconhecia aquela gente. O engenho foi praticamente destruído por uma horda de índios bravos. A família dos senhores escapou de uma chacina cruel, mas os selvagens fugiram das senzalas.

O paulista condescendeu, na ocasião, dando prazo além do contratado. Mas fez o inadimplente assinar uma cláusula em que se comprometia a entregar tudo que de seu houvesse, caso não honrasse a dívida.

Bom, é lógico que se deu mal. No conto, de pouco mais de sete páginas, o autor vai e volta - "antes" e "depois", e aos poucos temos toda a história do pobre do Neco Dias, que tragicamente fica sabendo o que o tal paulista considera "tudo que de seu houvesse": casa, roupas, e mesmo a família e o próprio nome.

Vinte anos depois, o ex-fazendeiro volta para tentar recuperar seu "tudo". Segundo o narrador, a história de Neco Dias se confunde com a lenda - a história do homem que voltara para ser Neco Dias. O final do conto dá uma ideia do ambiente em que se vivia na época. O surpreendente é o destino não de Neco, mas da família: na precária civilização que se formava, era fácil tornar-se um selvagem.

Como agredissem os colonos, roubando armas e mantimentos, foram duramente combatidos. Todavia, dizem que o paulista só morreu de velho. E não deixou descendentes.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Os Antiquários, de Pablo de Santis

Os Antiquários
Pablo de Santis
Tradução: Ivone C. Benedetti
Objetiva/Alfaguara
198 p.


Há muitos anos sou dono de um sebo. Fica na travessa La Piedad; a rua é estreita, o que evita o excesso de sol. Sinto-me protegido pelos livros, que formam paredes irregulares, muralhas de meu castelo. Já nos tempos de seu antigo dono (Carlos Calisser, vulgo Francês) a livraria se chamava La Fortaleza. No fundo fica meu escritório e uma escada pela qual subo até meu dormitório. Tenho uma otomana, um criado-mudo de madeira lustrada, um abajur de bronze. Não preciso de mais. O quarto não tem janela. Apesar da idade, não me fazem falta nem óculos nem a luz do dia para ler. (p. 12).

O dono do sebo é Santiago Lebrón. A história por ele narrada aconteceu na década de 1950, em Buenos Aires. Pablo de Santis (1963) escreve um breve romance sobre... vampiros.

 

Com relação a vampiros, sempre fui fiel ao original - de Bram Stoker - com imensa dificuldade de aceitá-los em romances (nada contra vê-los no cinema). Mas os vampiros portenhos de De Santis nada têm a ver como os que vem invadindo as livrarias e os cinemas nos últimos anos. 

Estes vampiros são os tais antiquários, colecionadores, que vivem em velhas livrarias - e não há cidade melhor que Buenos Aires para cenário (nesse ponto, ganha fácil da Transilvânia). Bibliófilos que zanzam pelas ruas da cidade. Certamente, se o autor fosse americano, já haveria um "roteiro" pelas ruas da cidade para acompanhar a trama.  

Os vampiros antiquários são inteligentes e, claro, sedentos por sangue - a sede primordial de que falam. 

Lebrón trabalha em um jornal e é convocado por um certo Ministério do Oculto e passa a acompanhar as atividades dos antiquários. Um incidente acaba por contaminá-lo, tornando-o um dos seus próprios investigados. E é claro que irá montar sua biblioteca. Lebrón tem interesses curiosos: procura, por exemplo, objetos deixados pelos leitores dentro dos volumes: fotos, mapas, cartas. 

Um trecho do livro é um alento (ou não) para um tradutor amador:

- É uma tradução ruim. Mas as traduções ruins são fundamentais na história da literatura: são a prova de que os bons livros resistem a qualquer coisa. Sem as más traduções, que mérito teria nossa fé?

Imagine Lebrón hoje, mais de 50 anos depois, contando-nos sua história. Os vampiros do Crepúsculo não parecem muito interessados em livros, sebos e antiquários. Por mais que eu goste do gadget, o que será dos antiquários com os Ipad e Kindle da vida? 

No fim das contas, não se trata de um livro sobre vampiros. Trata-se de um exemplo de literatura fantástica, tão explorada pelos autores argentinos (Borges e Bioy Casares, por exemplo), mas que trata de um universo paralelo - o dos sebos, antiquários, colecionadores - e, por que não, das sociedades secretas. 

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Recital Caixa Preta - Editora Lumme


Dia 12/12/2012... lançamentos da Editora Lumme, no CCSP - entre eles o plaquete com o conto A Cadeira, de David Dephy. 




Programação:

Cartas a Vadim Kozovoi seguido de A palavra ascendente e Depois do Golpe, ensaio, precedido por O ir-e-vir eterno, de Maurice Blanchot, traduzidos por Amanda Mendes Casal e Eclair Antonio Almeida Filho;

Eu índice n, conto, único até agora na produção do poeta E.M. de Melo e Castro (com infodesenhos de Eugénia Melo e Castro);

Al otro lado del acaso, de José Cardona-Lopez (edição especial em espanhol);

Cautos Causos e Outros cautos causos, de Glauco Mattoso;

O sonho da insularidade, de Delfin Prats, traduzido por Fábio Aristimunho Vargas;

Estética como acontecimento, de Daniel Lins;

Nioque antes da primavera, de Francis Ponge, e Livro das areias, de Solange Rebuzzi;

Da soberba da poesia, de Marcos Siscar, e A estranheza-em-comum, de Silvina Rodrigues Lopes;

Cores para cegos, de Claudio Daniel;

Poemas míticos, plaquete de Contador Borges;

Camafeu escarlate, de Andreia Carvalho;

The Chair/A Cadeira, de David Dephy (Georgia), traduzido por Fabio G. Bensoussan;

Destino: Rua Aurora e El Futuro, livro e plaquete de Alfredo Fressia;

Gritos, rasgos e rapinas - 23 poemas de Joyce Mansour, traduzido por Eclair Antonio Alameida Filho e prefácio de Cláudio Willer;

Circular, do poeta argentino Mario Arteca, traduzido por Ronald Polito;

Vinil. de Mario Arteca, traduzido por Dirlen Loyola e Fabrício Gabriel de Souza;

Flor de Lírio, de Adriana Zapparoli;

El simultaneismo, antologia do Grupo Simultanista de Valéncia- Espanha (edição especial em espanhol).

domingo, 2 de dezembro de 2012

Joseph Roth e Stefan Zweig

Um lançamento que, espero, chegue logo por aqui: Joseph Roth: A Life in Letters, organizada e traduzida por Michael Hofmann. A versão Kindle está a cerca de 18 dólares, mas é o tipo do livro que espero comprar na versão "analógica"...

No artigo de Mark Falcoff (em inglês, aqui), Roth (1894-1939) é tido como um dos últimos europeus cosmopolitas, uma espécie curiosa que circulava em torno dos cafés. Ambos sucumbiram à Segunda Guerra. Roth, que se dizia um judeu na Áustria, um austríaco na Alemanha, um alemão na França. As cartas revelam um homem confuso e infeliz, bastante cético em relação ao comunismo; não acreditava na perfeição da democracia burguesa e chamava os socialdemocratas de dragões desdentados.

Stefan Zweig, Joseph Roth, 1936
Zweig e Roth, 1936

Por volta de 1928 entrou em contato com Stefan Zweig (1881-1942), iniciando uma correspondência que domina boa parte do livro. Dois europeus de um mundo que desapareceu como os dinossauros: o europeu cosmopolita, sentindo-se em casa em vários países e, até 1919, acima das fronteiras nacionais. Não se pode esquecer que Viena era a capital de um império que reunia 17 idiomas diferentes. A correspondência termina em janeiro de 1939, poucos meses antes da trágica morte, quando Roth já estava perdido para o alcoolismo.

O grande romance de Roth é A Marcha Radetzky - a música aparece no final do filme Coronel Redl (1985), de Isztvan Szábo com Klaus Maria Brandauer. Não sei se é encontrável por aqui; outro que li foi Jó, que conta a história de Mendel Singer, foi publicada por aqui pela Companhia das Letras. 

sábado, 1 de dezembro de 2012

Amazon no Brasil

Acaba de sair a notícia: a Amazon fecha acordo com a Companhia das Letras, Intrínseca e Globo Livros, às vésperas do lançamento do Kindle. Mais informações, aqui,

Conto da semana, de Ambrose Bierce

No blog do escritor argentino Eduardo Berti descobri um livro chamado El libro de la Imaginación, de Edmundo Valadés. Trata-se de um pequeno volume onde o autor reúne uma série de pequenos (pequeníssimos) contos e relatos ou mesmo citações. Uma verdadeira joia.

O conto da semana está aí, e é do americano Ambrose Bierce (1842-1913?). O autor foi tenente da União durante a Guerra Civil. Desapareceu em 26 de dezembro de 1913 e nunca mais foi visto. Na época, viajava com as tropas rebeldes mexicanas, tendo se unido ao exército de Pancho Villa em Ciudad Juarez.


Talvez não tenha seguido a estratégia do conto Estratégia:

- Por que se deteve? - gritou durante a batalha o comandante de uma divisão, que havia ordenado o ataque. Avance, senhor.

- Meu general - respondeu o comandante surpreendido no ato - Tenho certeza que qualquer  nova demonstração de bravura pelas minhas tropas as colocará em contato com o inimigo. 

E outro - A Viúva Inconsolável:

Uma mulher enlutada chorava sobre um túmulo.

- Console-se, senhora - disse-lhe um simpático forasteiro - A misericórdia do céu é infinita. Haverá outro homem, em algum lugar, além de seu marido, que possa fazê-la feliz.

- Havia - soluçou a mulher - mas este é o seu túmulo