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Postagens

Border: a journey to the edge of Europe, de Kapka Kassabova

Bálcãs, sempre eles. Nos últimos anos, pesquisando sobre os últimos dias do Império Otomano, sefaradis otomanos e Trácia, li muitos relatos de viagens pela região. Evlyia Çelebi, o grande contador de histórias do século XVII, escreveu em dez volumes "O Livro de Viagens" (Seyahatname). Viajou por todo o território do império, então em seu apogeu.  Mais tarde, já quando o país se encontrava em franca decadência, o reverendo Walsh escreveu "Narrativa de uma Viagem de Constantinopla à Inglaterra" . Recentemente, li "Border: a Journey to the Edge of Europe", de Kapka Kassabova. A autora nasceu na Bulgária em 1973. Filha de cientistas, mudou-se para a Nova Zelândia ainda adolescente e hoje vive na Escócia.  "Border: a journey..."    é um livro de não-ficção literária sobre a conturbada e esquecida (para os ocidentais) fronteira entre Turquia, Bulgária e Grécia. Uma fronteira extremamente perigosa do ponto de vista de um búlgaro no regime comuni...

Boccaccio em 2020

A ideia era retomar o blog em outro formato e com outros objetivos, a partir de eventos que, neste momento, em meio à crise mundial do Coronavírus, foram postergados, sem previsão de data. Vamos, então, para um modelo 2.0, esperando que, no futuro próximo, o projeto consiga seguir adiante. No dia 17 de março iniciei meu isolamento, na indecente esperança de conseguir colocar a leitura em dia. Idealizei, num primeiro momento, ler uma giornata por dia do Decameron . Mas, ao contrário dos dez jovens que passaram dez dias nos arredores de Florença, num palácio vazio, arrumado e com uma boa adega contando histórias uns para os outros durante a Peste Negra, acabei tragado pelo home office , descobrindo o quanto custa manter um apartamento minimamente habitável. Mas se não deu para traçar o livro em dez dias, deu para fazê-lo em pouco mais de quinze. Meu primeiro contato com Boccaccio foi aos quinze anos, através da antologia Mar de Histórias , organizada pelo Paulo Rónai...

Nobel 2018 e 2019

A Academia Sueca anunciou na semana passada o Nobel de Literatura de 2018 e de 2019. A polonesa Olga Tokarczuk e o austríaco Peter Handke foram os indicados. Os dois autores são bem conhecidos do público europeu. Olga Tokarczuk (1962) já recebeu o Man Booker Prize recentemente pelo romance fragmentado Flights, que comecei a ler justamente no dia em que o Nobel foi anunciado. Prometo escrever sobre ele. Mas o leitor brasileiro terá a oportunidade de lê-la. A editora Todavia publica em novembro o romance Sobre os ossos dos mortos .  A polêmica do ano foi a indicação de Handke, já publicado por aqui. Confesso que só o conhecia de roteiros - ele escreveu alguns para Wim Wenders, como Asas do Desejo . Mas seu nome despertou a ira de boa parte da Europa: ele apoiou os sérvios e Slobodan Milosevic, e relativizou o massacre de Srebrenica, quando milhares de muçulmanos bósnios foram exterminados por forças sérvias, durante a Guerra da Bósnia nos anos 90. A Academia tem uma ...

A Biblioteca à Noite em Copacabana

Imperdível. No SESC Copacabana, a exposição que já correu alguns países e já passou por São Paulo. Quem leu A biblioteca à noite vai reencontrar algumas das bibliotecas comentadas pelo autor - inclusive a dele. 

História da grandeza e decadência de Cesar Birotteau, de Balzac

Balzac é um dos autores mais estudados pelo chamado Direito e Literatura. É quase um curso de direito privado. Quem, no Brasil, viu uma letra de câmbio (não estou falando do pessoal do direito) fora de uma das histórias da Comédia Humana? Se, por exemplo, em Coronel Chabert temos um pequeno tratado sobre o direito das sucessões francês do início do século XIX, em César Birotteau temos uma visão bastante realista do que foi (e, em certa medida, ainda é) a falência para um comerciante honesto (Balzac dedica outro texto ao comerciante picareta, mas fica para a próxima leitura). Aqui temos quase tudo: um comerciante dedicado ao trabalho duro e metódico, que iniciou sua vida como aprendiz de um perfumista. Desenvolveu uma fórmula para a pele, acumulou uma pequena fortuna. Até que resolve investir na especulação imobiliária que se seguiu à queda de Napoleão e ao retorno do rei. Não percebeu que se tratava de um golpe de um antigo assistente - du Tillet, agora frequentador dos altos círc...

The red-haired woman, de Orhan Pamuk

Os livros de Pamuk costumam ser longos, coisa de mais de 500 ou 600 páginas. Este, cuja edição em inglês saiu em 2017, minutos e inédito no Brasil (li no Kindle), é bem mais curto, com 250 páginas, mas os principais temas do escritor estão presentes: o conflito entre tradição e modernidade, Ocidente e Oriente. Há também um tom de fábula, bem característico da prosa pamukiana.  O personagem principal - e narrador das duas primeiras partes - é Cem. A ausência de seu pai, militante comunista nos anos 80 na Turquia (em outras palavras, vivia preso ou fugindo do cárcere) o levou a uma quase obsessão com a história grega do Rei Édipo - e do épico persa Shahnameh de Ferdowsi. Duas visões (Ocidente e Oriente) para a mesma tragédia? Um filho que nunca conheceu seu pai o encontra já adulto; nenhum reconhece o outro; ambos lutam e um deles morre - Sófocles mata o pai, já na história de Ferdowsi,  Rostan acaba assassinando o filho Sohrab. Pamuk já havia recorrido a essas duas nar...

Machines like me, de Ian McEwan

Ian McEwan Machines Like Me Jonathan Cape 320 p. Orwell escreveu em 1984 o que se convencionou chamar de futuro distópico. O cinema, nos últimos anos, vem abusando, com mais ou menos qualidade, desse, digamos, gênero. Mas apesar de McEwan falar de inteligência artificial e robôs antropomórficos, este Máquinas como eu (li a edição inglesa no Kindle antes da chegada da edição brasileira e atrasei o post) trata, na verdade, de um "passado distópico". Em certa medida, estaria mais para um Complô contra a América, quando Roth imagina o que poderia ter acontecido num eventual governo americano fascista nos anos 30/40. Estamos em 1982 numa Londres diferente: os argentinos efetivamente deram uma surra humilhante ao tomarem as Malvinas, levando à queda de Thatcher. Alan Turing não morreu (bom, na verdade, nem John Lennon...), e por aí vai. Nesse estranho mundo, uma geração de robôs chega ao mercado - Adão, na versão masculina, e Eva. O narrador, Charlie Friend, que a...

Parque cultural, de Serguei Dovlátov

Parque cultural Serguei Dovlatov Tradução de Yulia Mikaelyan Kalinka, 166 p. Os últimos anos foram extraordinariamente bons para a literatura russa no Brasil, não só pelas novas traduções, diretas, dos clássicos que líamos a partir de versões francesas ou inglesas, como de autores do século XX que ignorávamos por completo. A Kalinka, por exemplo, vem lançando a obra de Serguei Dovlatov (1941-1990), de quem li este  Parque Cultural , na tradução de Yulia Mikaelyan, que ainda apresenta textos introdutórios da vida e da obra do autor. O narrador em crise encontra trabalho num estranho parque temático, uma Disney para o grande fundador da literatura russa Puchkin. As Colinas de Puchkin. O parque de fato existe. Acho que só os russos levam seus escritores tão a sério.  Na novela, os turistas procuram cada detalhe de sua vida - alguns estrangeiros, claro, mas muitos soviéticos. Ávidos por informações que provavelmente já terão esquecido no dia seguinte; da orige...

The Architect's Apprentice, de Elif Şafak

The Architect's Apprentice Elif   Şafak   Elif Şafak é uma conhecida escritora turca - na verdade, nascida em Strasburgo, em 1971 - eclipsada, ao menos aqui no Brasil, pelo seu conterrâneo mais famoso, Pamuk. Não sei de nenhuma edição brasileira de seus livros, dentre os quais se inclui este The Architect's Apprentice  que, evidentemente, consegui ler no Kindle. O arquiteto, no caso, é o grande Sinan, que no século XVI rivalizava - ainda que não largamente conhecido no Ocidente - com Michelangelo: mais de noventa mesquitas, dezenas de escolas, pelo menos seis aquedutos e dez pontes, diversos mausoléus, mais de trinta palácios e quase cinquenta hamans (os famosos banhos turcos). Sinan viveu até os 99; o romance se espalha entre 1546 e 1632. Mimar (arquiteto) Sinan é um personagem real, e  Şafak  lhe cria um aprendiz, um indiano Jahal, que chega à corte otomana para cuidar de Shota, o elefante do Sultão, no Palácio Topkapi. A partir desses tr...

Um bárbaro no jardim, de Zbigniew Herbert

Eu voltei de Lascaux pelo mesmo caminho que havia chegado. Apesar de ter encarado, como se diz, o abismo da história, não tinha a sensação de voltar do outro mundo. Nunca antes tive uma convicção tão forte e reconfortante de que sou cidadão da Terra, herdeiro não só dos gregos e dos romanos, mas quase do infinito. Esse é de fato o orgulho da condição humana e o desafio lançado à imensidão do céu, do espaço e do tempo. O poeta e ensaísta polonês Zbigniew Herbert (1924-1998) chega ao Brasil pela editora Ayiné, na tradução de  Henryk Siewierski . Nesse Um bárbaro no jardim, a diferença entre o viajante e o turista fica mais evidente. Como lembrou Paulo Nogueira no Estadão ( aqui ), não dá para não associar este livro ao Danúbio de Cláudio Magris, que nos apresenta a Mitteleuropa em um livro de difícil categorização: ensaio? Livro de história? Viagens? Memória? Na verdade, é a soma de tudo isso. Basicamente transitando entre França e Itália, Herbert é erudito sem ser ped...