sábado, 31 de agosto de 2013

Conto da semana, de Ryunosuke Akutagawa


A Biblioteca vai ao Japão para trazer o conto da semana, que li pela primeira vez no Mar de Histórias.  Aqui, uma outra versão, em português.

Ryunosuke Akutagawa (1892-1927) é tido como o pai do conto japonês. Este Num Bosque é mais conhecido pelos cinéfilos através da obra-prima de Kurosawa - Rashomon. Um estupro e um homicídio ocorrem no tal bosque, e o comissário de polícia toma diversos depoimentos. Cada um com sua versão - cada um com um interesse que dirige sua versão. Tajomaro, o estuprador; Massago, a vítima de Tajomaro e que afirma que não consentiu com o crime, bem como teria matado Takehiro, o marido desonrado, a pedido do próprio. 


Cada depoimento é bastante convincente, e somos sempre levados a crer na veracidade dos relatos. Até que chegamos ao último - e definitivo? - depoimento... o de Takehiro.

sábado, 24 de agosto de 2013

Conto da semana, de Tomás Mac Siómóin


O conto da semana é do escritor irlandês Tomás Mac Siómóin (1938), Music in the Bone (Música nos ossos), que está na edição BEF 2013. Um dos momentos mais bem humorados na antologia. O narrador é um psiquiatra que, um belo dia, recebe a visita do casal X, o que irá transformar a sua vida para sempre.

Ela pede ajuda para o marido, que está tornando a vida cada vez mais insuportável. O sr. X tem uma paixão pela música que ultrapassa todos os limites. Na verdade, ele "ouve a música do próprio corpo". Ele está permanentemente regendo um concerto imaginário, pois está sempre ouvindo algo. Parte do problema está no fato de que mais ninguém ouve isso.

A sra. X está desesperada - Quando estes "concertos" começam a interferir nos... bem, nos aspectos mais íntimos de nossa vida a dois... Espero que o senhor não espere que eu forneça os detalhes! Mas, como um homem casado, o senhor saberá exatamente o que estou dizendo, ela diz, olhando para minha aliança de soslaio.

É evidente que se trata de um cliente em potencial. O narrador vê no sujeito uma grande oportunidade e, enquanto o ouve, anota em seus papeis:

esquizofrenia - caso interessante e raro
música ao invés de vozes em sua cabeça
grande artigo para a próxima convenção que irá me tornar famoso

Ao conversar com o sr. X, o médico vai percebendo a gravidade do caso. X explica que a música que ouve não se compara com nenhuma outra - Beethoven, Philip Glass, música caribenha, africana. Não há limites para as variações que posso criar apenas me concentrando nos movimentos dos meus braços.

X, afinal, passa pela terapia. Nada parece funcionar - remédios, terapia; nada consegue silenciar essa orquestra que X rege - a música que vem dos seus ossos e que mais ninguém pode ouvir. Uma Grande Sinfonia do Silêncio Total, no gramado atrás da clínica - todos chamavam X de Tchaikovsky.

E, de repente, às três horas da madrugada, o próprio médico passa a ouvir algo - a mais bela música que seus ouvidos jamais tiveram o prazer de captar. Pensa imediatamente em X - onde ele estará?

Uma curiosidade: o autor vive e trabalha na Catalunha, e escreve seus textos em gaélico. Este conto foi traduzido para o inglês pelo próprio.


quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Como aprendi o português e outras aventuras, de Paulo Rónai

Como aprendi o português e outras aventuras
Paulo Rónai
Casa da Palavra/Biblioteca Nacional

Já confessei certa vez o respeito que me incutem dicionários e dicionaristas. Um respeito que não está completamente isento de medo, desde que sei que Dom Casmurro, antes de ser escrito, já estava inteirinho num dicionário qualquer: bastava arrumar-lhe as palavras de determinado jeito para daí sair o grande livro de Machado de Assis. (em Utilidade das Ideias Afins, 1950).


Em tudo isso, porém, as gerações novas levam vantagem às antigas: enquanto estas desperdiçavam tempo em aprender as línguas alheias, aquelas descobriram a maneira de viver muito bem sem entender sequer a própria (em As cem maneiras de estudar idiomas, 1950).


Paulo Rónai (1907-1992) é um dos heróis da Biblioteca. Li muita coisa organizada e/ou traduzida por ele - Mar de Histórias, as traduções de Os meninos da rua Paulo e da Comédia Humana. Recentemente, seus textos vem sendo reeditados. Neste Como aprendi o português... Rónai apresenta uma verdadeira autobiografia, através de artigos publicados ao longo dos anos em diversos veículos. Os textos foram reunidos, pela primeira vez, em 1956.

Esta edição conta com o texto Paulo Rónai ou a costura do mundo, de Ana Cecília Impellizieri Martins. Entre outros aspectos, destaca a amizade com Aurélio e, claro, a grande antologia Mar de Histórias.

São infinitos os grandes momentos desta coletânea de textos.





Ele defende a continuidade do ensino de Latim nas escolas (luta inglória, ele que foi professor de Latim e Francês no Rio). Numa outra polêmica da época, entra na discussão sobre a conveniência ou não de se permitir que o aluno optasse entre o inglês e o francês. E lamenta que os alunos não consigam mais entender o que lêem (e, vejam, estamos nos anos 50!).

Como todo bom professor de Francês, dedica-se a analisar alguns clássicos - Victor Hugo, Villiers de L'Isle-Adam (devo a Rónai a descoberta desta figura, num conto já comentado aqui), Daudet, Loti (cuja existência me era desconhecida até este livro).

No texto que empresta o título ao livro, Rónai fala de seus amigos linguistas só interessados em idiomas exóticos e de suas primeiras descobertas nas livrarias de Budapeste. E que Kosztolányi, famoso escritor húngaro, achava o português alegre e doce como um idioma de passarinhos. Com a situação política se agravando, vai a Portugal:

Sofri, porém, decepção tremenda. Passei seis semanas em Lisboa sem que conseguisse entender patavina da língua falada. Pegava do jornal e compreendia-o perfeitamente; o porteiro do hotel ou o garçom do café diziam três palavras, e eu me via outra vez no mato sem cachorro. Humilhação ainda maior: os intelectuais portugueses, aos quais fui apresentado, depois de uma tentativa frustrada de falarem a sua língua comigo, recorreram ao francês. 

Uma excelente introdução, não só à obra de Rónai, seus gostos e métodos, como também ao Brasil dos anos 40/60.

domingo, 18 de agosto de 2013

Conto da semana, de Isaac Babel


Fui apresentado aos contos de Babel (1894-1940) por uma edição brasileira de 1989 d'A Cavalaria Vermelha, numa tradução a partir da edição soviética em espanhol, por Roniwalter Jatobá. Babel serviu no Exército Vermelho - foi comissário político no 1º Exército de Cavalaria - a Cavalaria Vermelha - durante a guerra de 1918-1922. Estava empolgado com a Revolução, que imaginava fosse enterrar os pogroms do regime czarista e seu antissemitismo. Como se sabe, errou feio.

Os contos dessa coletânea já haviam desagradado o regime stalinista (seus personagens admiravam Trotsky, e as narrativas, plenas de ironia e violência). Foi executado pelo regime e dele só se voltou a ouvir falar nos anos 1950. Seu destino, confirmado apenas após 1989.

Quando os arquivos da KGB foram abertos, resgatou-se o seguinte trecho do interrogatório de Babel. Kafka não teria escrito melhor:

- Você foi preso por atividades anti-soviéticas traiçoeiras. Você reconhece sua culpa?

- Não.

- Então como você explica sua inocência diante da sua prisão?

Sobre Babel, disse Carpeaux: é o olho míope do intelectual, discípulo consciente de Maupassant, examinando de perto as chagas sangrentas infligidas às criaturas humanas e aos bichos pela terrível brutalidade da guerra civil; é o olho aparentemente insensível do artista que contempla as ruínas de cidades e casas destruídas como se os destroços fossem elementos cúbicos de um quadro moderno. Babel aceita tudo isso friamente; e foi justamente por causa desse fatalismo que os stalinistas o perseguiram como oposicionista (...) É, a muitos respeitos, o maior contista que já surgiu no século XX.

Maupassant. 

A Nova Antologia do Conto Russo, da editora 34, traz o conto Guy de Maupassant, de Babel. A tradução agora é diretamente do original russo, de Nivaldo dos Santos. Bem diferente, seja em temática, seja em estilo, da Cavalaria.

O narrador (Babel?) se recusou a ser um medíocre funcionário de escritório - é melhor a fome, a cadeia e a vagabundagem do que ficar sentado à mesa de um escritório dez horas por dia.

Foi indicado para auxiliar Raíssa Mikhailovna Bendierski em sua empreitada de traduzir Maupassant, a única paixão da mulher. Em troca, ganha também um teto. Mas a tradução que ela faz, ou tenta fazer, de Miss Harriet, não lhe agrada - não respeitava nenhum vestígio do autor, dizia. E prossegue, num dos grandes momentos do conto:

Então comecei a falar sobre o estilo, sobre o exército de palavras, um exército no qual todo mundo. Nenhum ferro pode penetrar no coração humano de forma tão congelante do que um ponto colocado na hora certa.

Um tremendo elogio a Maupassant.

Nesta narrativa, Babel fala da arte, da literatura, ao mesmo tempo em que o narrador e Raíssa obviamente acabam se envolvendo.  Além de Miss Harriet, os personagens discutem também sobre L'Aveu (A Confissão) e Idílio. Há uma visão dos seus contos, sim, mas também uma outra - a do tradutor, que acaba por reler Maupassant a partir de suas próprias experiências e visões da arte. E o mundo do escritor francês também se reproduz aqui; afinal, Raíssa e o narrador estão sob efeito do vinho, e ela, com seus ombros à mostra...

O último parágrafo é dedicado ao próprio Maupassant, contando-nos sobre seus últimos momentos - louco em decorrência da sífilis e trancafiado num hospício.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Mais especulações para o Nobel

Definitivamente, foi dada a largada para as apostas a respeito do Nobel de Literatura. Neste texto, em inglês, um apanhado sobre os favoritos (?) de cada continente. Na América do Sul, Dalton Trevisan. Na África, Mia Couto.

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Kadare para o Nobel 2013?

Em inglês, um artigo que defende o nome de Ismail Kadaré para o Nobel de Literatura deste ano.  A autora faz um paralelo interessante entre Joseph Brodsky, para quem a única alternativa a um regime totalitário é o exílio, e Kadaré, que defendia a luta a partir do interior - tanto do regime quanto da alma.



O vale do fim do mundo, de Sándor Lénárd

O Vale do Fim do Mundo
Sándor Lénárd
Tradução: Paulo Schiller
Cosac Naify, 2013
224p.


A despeito de onde nos encontremos - ainda que seja de cabeça para baixo no universo, ainda que no Natal arda sobre nós o sol de verão -, sempre estamos no meio do mundo, o fim do mundo fica sempre à mesma distância de todos os lugares. No máximo, não somos acompanhados por tudo em nosso caminho: as catedrais góticas não deixam a Europa. As igrejas barrocas vieram até a Bahia, e lá se detiveram sob o peso de tanto ouro. A última biblioteca em cujo catálogo encontramos o nome de Erasmo de Roterdã é a de São Paulo. Em Blumenau ainda se sabe o que é uma geladeira. O último banheiro e o último anão de jardim fica em Tenente Gregório. Um harmônio chegou à igreja de Donna Irma. E por conta própria, chegamos até onde apenas o sábio não sente falta de nada, porque os antigos romanos constataram que ele "leva consigo todas as suas posses".  página 14.

Jamais ouvira falar de Sándor Lénárd até o lançamento deste O vale do fim do mundo. O autor era húngaro, mudou-se para o Brasil e viveu na cidade de Dona Emma (SC), onde exerceu as atividades de médico e farmacêutico. Como todo bom europeu do Leste, falava um monte de línguas - traduziu para o latim o Winnie the Pooh. Lembro-me imediatamente de Paulo Rónai, também húngaro, poliglota, tradutor e latinista. Também símbolo de um mundo que já não existia...

No site da Cosac Naify, um artigo fala que Lénárd, por ser médico, falando alemão e vindo da Europa e morando num ponto remoto do sul do Brasil, foi confundido com... Mengele!

Dona Emma é, no romance, Donna Irma. A vida no interior - no Alto do Vale do Itajaí nos anos 50/60; as impressões de um estrangeiro, muitas vezes não muito simpática. Uma autoficção, talvez - ele fala, por exemplo, que sua biblioteca inglesa se resume ao Ursinho Pooh e a brasileira, à excelente tradução de Paulo Rónai d'os Meninos da Rua Paulo (um clássico dos meus doze anos).

Outro ponto curioso - lá pelas tantas, ele fala do Dr. Knock, de Jules Romain, um médico picareta - o homem saudável é o paciente que não sabe qual é o seu mal - que me lembrou meus anos de Aliança Francesa.









A casa de Lénárd, em Dona Emma (SC)

Confesso que senti uma certa dificuldade com a ideia de que se trata de um romance. Mais parece - e isso não é nenhuma crítica - um daqueles relatos de viajantes estrangeiros impressionados com a vastidão e o exotismo brasileiros, tão comuns nos séculos anteriores. Com muito bom humor, percebe-se.