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O Diabo Mesquinho




O Diabo Mesquinho
Fiodor Sologub
Editora Kalinka, 2008
384 páginas


Depois da missa de domingo os paroquianos dispersaram-se para voltar às suas casas. Alguns pararam diante do muro da igreja, atrás das paredes brancas de pedra, sob as velhas tílias e os bordos, e ficaram conversando. Todos estavam arrumados para o domingo e se entreolhavam afavelmente, e parecia que nesta cidade se vivia em paz e amizade. E até com alegria. Mas isso apenas parecia.


Peredónov, professor do ginásio, conversava numa roda de amigos - com os olhinhos inchados por atrás dos óculos de armação dourada, ele olhava sombriamente para os seus interlocutores e dizia:


- A própria princesa Voltchanskaia prometeu à Vária, isso já é certo. "Assim que se casarem", disse ela, "consigo de imediato um cargo de inspetor para ele".


Voltando aos russos, depois de Guerra e Paz...


Fiodor Sologub (1863-1927) foi apresentado ao leitor brasileiro em 2008, na estreia da editora Kalinka, parceira da Biblioteca. Se serve de consolo, ele não é praticamente desconhecido apenas no Brasil, mas também em países como a França.


Numa edição caprichada, traduzida por Moissei Mountian, e com ilustrações de Fabio Flaks, somos apresentados à vida miserável de um funcionário público, professor do ginásio de uma pequena cidade do interior russo.  

Ardalión Borissytch Peredonov procura, à todo custo, casar-se, como o caminho mais fácil para alcançar aquilo que tanto deseja: "uma posição" - no caso, o posto de inspetor. Ele é até bastante disputado pelas mulheres e procura descobrir qual delas será a mais eficiente para alcançar seu objetivo. Varvara, por exemplo: ao que parece, a princesa Voltchanskaia prometeu-lhe imediatamente um cargo de inspetor.

Como em Tchekov, a vida do interior é vista sem qualquer futuro ou perspectiva. Tio Vania sempre se lamentaria de ter se enterrado naquele lugarejo, abrindo mão de todos os sonhos e ambições. 

Como em Dostoievski, a sanidade mental de Peredonov é frágil. É ele quem enxerga inimigos imaginários - até um gato que teima em passar por ele ao longo do livro é visto como um provável espião. E ele se humilha de uma forma impressionante, como quando pergunta ao guarda se é poderia fumar um cigarro:

- A respeito disso não recebi ordem nenhuma - respondeu o guarda de modo evasivo.

- Não recebeu? - perguntou mais uma vez Peredónov com voz triste.

- De jeito nenhum, não recebi. Não nos foi ordenado que parássemos os senhores que fumam e, se saiu alguma autorização sobre isso que saber.

- Se não recebeu, então eu não vou fumar - disse Peredonov. - Eu sou uma pessoa bem-intencionada. Vou até jogar o cigarro fora. Pois eu sou um Conselheiro de Estado.

A peregrinação que faz à casa do procurador, Avinovitsk, ao líder da nobreza, ao comissário de policia, entre outras "autoridades locais" não lhe rende muita coisa. O procurador, por exemplo, tece vastas considerações sobre a hereditariedade, a nobreza e a ralé... é evidente que Peredonov concordará com tudo, sempre em busca de uma aprovação.


Enfim, um tipo bastante comum, como disse o próprio autor: os peredonovs, cujo retrato está no romance, constituem fato bastante corriqueiro.


Outro personagem que merece atenção é o ginasiano Sacha: 110 anos depois, diríamos que sofreu bullying por parte de Peredonov. O episódio em que se veste de gueixa já mostra um sujeito com, digamos, bastante malícia...

Afinal, casa-se, não sem antes "se marcar": teme ser traído e substituído por Volódin. O desfecho do romance, aliás, é trágico; descobertas as traições - Qualquer um pode escrever uma carta. O senhor deveria saber com quem está lidando. Sua esposa é uma pessoa que não tem lá muitos escrúpulos - o que se sucede parece inevitável.


Uma grande descoberta. Moissei e Daniela Mountian são responsáveis, também, pela tradução do conto de Sologub da Nova Antologia do Conto Russo, da Editora 34 - Luz e Sombras (1896)

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