sábado, 16 de junho de 2012

Mickey Mouse, de Karl Taro Greenfeld



Karl Taro Greenfeld apareceu na TV brasileira pela primeira vez com cerca de treze anos, numa reportagem do ainda apresentador Helio Costa. Ele lia um poema que escreveu para Noah, seu irmão autista.

Anos depois, e com uma carreira jornalística e literária bem consolidada, o americano nos oferece o conto Mickey Mouse. Está na edição de 2012 da antologia O. Henry Prize Stories.

Ohta é um professor universitário de pintura e desenho no Japão, durante a Segunda Guerra. Sua carreira anda de mal a pior, já que a revista que publicou a maior parte dos seus trabalhos foi fechada – o problema de ser muito liberal e especializada em arte em tempos de guerra total... Seu antigo colega, Kunugi, determinou o seu fechamento.

Devido ao seu talento, recebe, do próprio Kunugi, a missão de criar um personagem capaz de superar em popularidade ninguém menos que o Mickey. Um Mickey Mouse japonês, capaz de vencer o inimigo da nação, o camundongo americano. Mas Ohta nunca entendeu a razão de ter sido escolhido para isso.

Ohta passará a guerra esboçando o personagem, mas suas ideias serão sempre rechaçadas pelos superiores. Ele nunca consegue emplacar um personagem. Em troca, recebe vouchers que são trocados por rações no esforço de guerra. A maré muda; o Japão está para ser destruído pela guerra. Dias depois do bombardeio de Honshu - a primeira vez na história em que nossa terra foi atacada por estrangeiros - recebe a visita de Kunugi. Ohta mostra dúvidas e insegurança - seria ele mesmo capaz de fazer o personagem. Cumpra o seu dever, em nome do Imperador, dize lhe dá um tapa.


Kunugi morre nos bombardeios de Tóquio, na primavera de 1945; Ohta sobrevive e reassume seu cargo na universidade.

Até que, anos depois, numa exposição de seus trabalhos, Ohta recebe a visita da viúva de Kunugi: ele achava importante que um verdadeiro artista, como você, sobrevivesse à guerra.

Não conhecia nada do autor. O conto (via Kindle) é rico em detalhes e descrições; o ambiente da guerra no Japão é criado com minúcias e envolve o leitor; o personagem Kunugi é o grande centro da história - ele e a sua motivação.   A combinação do enredo com a forma gerou um conto notável, que merece ser urgentemente traduzido.

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