sexta-feira, 23 de março de 2012

A Bala de Juan Becerra e o Executado de David Dephy

São dois os contos da semana. Algo aproxima as histórias, uma dos confins de Europa, outra da vizinha Argentina.

Guerras já foram narradas à exaustão, de diferentes formas. Os contos selecionados o fazem sob óticas no mínimo curiosas: Before the End, de David Dephy (BEF 2012, organizado por Hemon) trata de uma execução pelo próprio executado.

O georgiano David Dephy inicia assim sua história (tradução minha): Os soldados formam em linha. Sou colocado na parede e eles me miram. A ordem do comandante é ouvida. "Fogo". Eles atiram. 

O suposto traidor de Dephy descreve seus últimos segundos em três páginas. Lembra-se da infância. E ainda tem tempo para conversar com alguém: a sua morte, que não é, afinal, A Morte. É tempo de esclarecer as coisas: reafirma não ser desertor ou traidor, que tudo não passa de um equívoco. A voz, por outro lado, também: se você quer amar, deve ser capaz de odiar à primeira vista e lutar por aquele a quem odeia. Mas ninguém segue esta regra - apenas eu. E é por isso que eu sou o fim de todos, porque tenho coragem de amá-los e continuar sendo seu inimigo, seu e de todos os outros (...) eu sou o último inimigo, e aguardo o dia em que minha eternidade acabará. Mas chega, seu tempo acabou, venha comigo. 

Na realidade, a execução em si tem menos importância que esses segundos finais do executado - de quem nada sabemos.

Já em Vida de uma Bala, o argentino Juan Becerra (Os Outros - narrativa argentina contemporânea, organizada por Luis Gusmán) relata a biografia de um personagem até então (que eu saiba) desprezado pela ficção, justamente aquele que vem desempenhando papel tão relevante nos últimos séculos: a bala. 


A bala de Becerra tem origens semelhantes às dos argentinos: nasce na Itália... No outono de 1836, o exército italiano encomendou a uma ferraria de Pavia uma remessa de dez mil balas para espingardas de fogo Tercerola. Foram empacotadas, sem contar, nove mil e seiscentas em dois caixotes reforçados com tiras de aço, e enviadas para um acampamento militar em Gênova. Foram recebidas, seu conteúdo averiguado, e anotado o peso e o número de carregamento em um registro oficial. Foram trasladadas para o porto e embarcadas em um navio de guerra rumo a Buenos Aires.

As quatro páginas de Becerra descrevem a trajetória da bala, da Itália até o campo de batalha e, por fim, sua glória: depois de cumprida sua missão, é retirada do corpo; é seca, guardada em um porta-joia de alpaca, junto a medalhas e uma cruz sem Cristo. Depois, chegou a Buenos Aires e ali foi inspecionada por especialistas, que a submeteram a reações químicas (...) Certa tarde, foi exibida em uma caixa de cristal, bem próxima do monumento ao homem que havia matado, e do portão de ipê que teve que atravessar para atingi-lo. Depois foi trasladada ao museu nacional.

A cada bala, rende-se a homenagem do respectivo morto.


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