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O livro negro, de Orhan Pamuk

  O livro negro Ohran Pamuk Companhia das Letras Trad. Sergio Flaksman 2008, 515 p. Não sei se meus leitores perceberam que as águas do Bósforo estão secando. Acho que não. Enquanto nos entretemos todos com a matança desenfreada que vem tomando conta das nossas ruas, febris e entusiasmados como crianças que assistem a uma queima de fogos, quem teria tempo para ler ou descobrir o que acontece pelo mundo? Já é difícil acompanhar nossos cronistas - lemos  seus textos enquanto nos acotovelamos em nossas estações das barcas, enquanto nos aglomeramos nos pontos de ônibus repletos, enquanto bocejamos sentados nos bancos dos táxis coletivos com as letras trêmulas diante dos nossos olhos. Encontrei a notícia de que lhes falo numa revista francesa de geologia. Lançado em 1990 e publicado no Brasil em 2008, só agora cheguei a esse O livro negro, do Pamuk.  O que aconteceu com Rüya (Sonho), esposa de Galip? O jovem advogado volta para casa em Istanbul e não enco...

A castle in Romagna, de Igor Stiks

  Li um conto de Igor Stiks (Sarajevo, 1977) na antologia Best European Fiction 2010, da Dalkey Archive Press, editada pelo Aleksandar Hemon. No conto No mercado de Sarajevo, a história de pessoas, em meio à guerra de 1995, vendendo suas bibliotecas pessoais a preço de banana no mercado da cidade - o que aconteceu com aquele seu livro tão especial?  Um belo conto, que me levou a este A castle in Romagna, achado em inglês na Amazon(Kindle). Duas narrativas são apresentadas. Em 1995, um turista bósnio, em companhia de mais duas mulheres, visita o Castello Mardi, em Rimini. Está interessado na história de Enzo Strecci, "um gigante da literatura renascentista", que lá passou seus últimos momentos esperando por sua morte.  Os três estão entrando nas ruínas. Lá, um frei, especialista na história do Castello e de Strecci, identifica o idioma e, fascinado por encontrar um bósnio, procura detê-lo. Suas companheiras acabam por entrar nas ruínas, e o frei, apó...

Pantaleão e as visitadoras, de Mario Vargas Llosa

  Pantaleão e as visitadoras Mario Vargas Llosa Alfaguara Tradução de Paulina Wacht e Ari Roitman 246 p.  Publicado em 1973, é um dos mais conhecidos e elogiados romances de Mario Vargas Llosa. Pantaleão Pantoja é um oficial com um futuro brilhante pela frente no Exército, e recebe a missão (secreta) de organizar o Serviço de Visitadoras para Guarnições, Postos de Fronteiras e Afins, sob a burocrática sigla SVGPFA. Uma operação para baixar a temperatura da tropa: um serviço de prostitutas que devem saciar os soldados solitários e perdidos em serviço no interior da selva amazônica, e que se tornaram uma ameaça para as mulheres e animais da região. Diligentemente, Pantaleão, que não fuma, não bebe, jamais traiu sua mulher - um sujeito que não cede a vícios e tentações - faz um estudo de mercado completo. Sua planilha merecia ser estudada nos MBA: quantifica o público alvo, estabelece o número de visitadoras a contratar, o tempo de cada "visita"....

A história dos judeus, de Simon Schama

Passei a acompanhar Simon Schama assistindo aos seus documentários sobre arte, que começaram a ser transmitidos no incrível canal da TV a cabo Arte1. E, conhecendo o autor, fui direto ao primeiro volume da sua História dos Judeus , que saiu por aqui pela Companhia das Letras. O título original é Story, e não History of the Jews. A ideia é mesmo a de um contador de histórias, muito mais que o trabalho de um historiador.  Assim, o livro começa com uma carta escrita por um pai aflito ao seu filho, um mercenário por volta de 475 a.C. – você está sendo pago? Está comendo direito? – que integrava a tropa judaica, nas ilhas Elefantinas, último posto da civilização à beira do deserto da Núbia. Schama mostra que era possível ser judeu e egípcio. Como, depois, por séculos, seria perfeitamente natural ser judeu e árabe. Até que Maomé aparece e mais uma religião monoteísta aparece. Das ilhas Elefantinas até a expulsão dos judeus da Espanha dos Reis Católicos, Schama mostra a v...

Aharon Appelfeld (1932-2018)

Ontem, dia 4, morreu o escritor israelense Aharon Appelfeld, aos 85 anos. Dele, li Badenheim 1939, um dos melhores livros sobre o Holocausto.     Appelfeld nasceu em Czernowitz, então parte da Romênia e hoje território ucraniano. Sobreviveu ao Holocausto escondendo-se nas florestas da Romênia, trabalhou por alguns meses para o Exército Vermelho, que deixou em 1945 e, no ano seguinte, aos 14 anos, emigrou para a Palestina - segundo ele, não havia lugar para órfãos na Europa. Recusava a classificação de "escritor do Holocausto", por entender que não se pode ser um "escritor da morte". Foi professor de letras na Universidade Ben Gurion.  Era grande amigo de Philip Roth (há uma conversa entre ambos no livro Entre nós , do escritor americano), que nele se inspirou para escrever seu melhor romance, Operação Shylock .

Lincoln in the Bardo, de George Saunders

O último livro que li em 2017 foi o vencedor do Man Booker Prize do ano. Lincoln in the Bardo , de George Saunders, será lançado no início de 2018 pela Companhia das Letras, e recebeu críticas entusiasmadas na imprensa americana. Talvez por ter lido no Kindle, demorei algumas páginas para entrar no espírito da obra, estranhando um pouco a formatação. Mas valeu a pena. Uma obra estranha, sem dúvida, de um experimentalismo pouco usual. Em determinados momentos, uma colagem (que faz sentido) com notas de diários, livros e periódicos do período; em outros, monólogos e diálogos entre fantasmas. Logo na abertura, um monólogo de um certo Hans Vollman, que conta que tinha 46 anos no dia de seu casamento com uma jovem de 18 e que, ciente de todas as circunstâncias, não forçou sua noiva a nada, apenas propondo-lhe sua amizade. Com o passar do tempo, essa amizade se tornou em verdadeiro amor e, quando Hans e a esposa finalmente iriam "expandir as fronteiras de sua feli...

A sombra da rota da seda, de Colin Thubron

A sombra da rota da seda Colin Thubron Tradução de Otávio Albuquerque L&PM 408 páginas Centenas de motivos incitam sua partida. Entrar em contato com novas identidades humanas, preencher um mapa em branco. A noção de que este é o coração do mundo. A busca pelas formas multifacetadas da fé. Você viaja porque ainda é jovem e quer viver aventuras e ouvir o som das suas botas pisando na terra. você viaja porque é velho e precisa entender alguma coisa antes que seja tarde demais. Você viaja para ver o que pode acontecer. Ainda assim, seguir a Rota da Seda é como seguir um fantasma. Essa trilha se estende pelo coração da Ásia, mas oficialmente não existe mais, tendo deixado para trás apenas marcas de seu frenético ápice: fronteiras forjadas, povos não catalogados. As estradas se bifurcam e se perdem em desvios por toda parte. Não há um só caminho, mas inúmeros, formando uma teia de opções. A que escolhi se estende por mais de 11 mil quilômetros e tem alguns trechos...

A resistência, de Julian Fuks

A resistência Julián Fuks Editora Companhia das Letras, 2016 144 páginas Meu irmão é adotado, mas não posso e não quero dizer que meu irmão é adotado. Se digo assim, se pronuncio essa frase que por muito tempo cuidei de silenciar, reduzo meu irmão a uma condição categórica, a uma atribuição essencial: meu irmão é algo, e esse algo é o que tantos tentam enxergar nele, esse algo são as marcas que insistimos em procurar, contra a vontade, em seus traços, em seus gestos, em seus atos. Meu irmão é adotado, mas não quero reforçar o estigma que a palavra evoca, o estigma que é a própria palavra convertida em caráter. Não quero aprofundar sua cicatriz e, se não quero, não posso dizer cicatriz. O romance rendeu ao autor o Prêmio Saramago de 2017. Durante a leitura, lembro do que Tolstoi escreveu sobre as famílias, na primeira frase de sua Anna Karenina.  Os pais do narrador (Sebastián) são psicanalistas argentinos que, diante da ferocidade da ditadura argentina de 1976,...

A noite da espera, de Milton Hatoum

O Lugar mais sombrio: A noite da espera Milton Hatoum Companhia das Letras 216 páginas Grande surpresa ao receber A noite da espera, o primeiro dos três volumes de O lugar mais sombrio, que marca o retorno de Milton Hatoum ao romance, após um intervalo de nove anos. Já havia lido Dois Irmãos logo após o seu lançamento, em 2000 ou 2001. Apesar de a história se passar também em Paris e em São Paulo, o cenário, ao menos neste primeiro volume, é a Brasília do início dos anos 70, uma cidade com pouco mais de dez anos de fundação e ainda um imenso deserto. Martim muda-se com o pai (Rodolfo)  para a capital, após a separação traumática e, até o momento, não explicada, deste com a mãe, Lina. Pai e filho mal se falam. Martim está relembrando esses tempos, agora já vivendo em Paris. Como Martim, o autor morou na capital por alguns anos para estudar arquitetura, curso inexistente na sua Manaus. Acabou estudando na USP. Como Martim, foi detido pela polícia e passou...