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Conto da semana - Lucian Dan Teodorovici

O romeno Lucian Dan Teodorovici nos brinda com o conto da semana - Caça aos Gansos, em português. Foi o conto selecionado por Hemon para a edição de 2011 de sua antologia BEF . O narrador é uma criança que vive no interior da Romênia, onde romenos e ciganos vivem fisicamente próximos mas com temores mútuos. Um dos orgulhos do menino é o fato de o seu avô ser o único do vilarejo a não temer os ciganos - afinal, ele é o condutor de trem, próximo de sua aposentadoria, é verdade, mas a posição lhe confere um tremendo status diante de ambas as comunidades. Na história, sete gansos da família do garoto desaparecem, e há suspeitas de que o furto foi praticado pelos ciganos. O corajoso avô, então, vai até o acampamento - o menino, claro, vai junto, ainda que contra a vontade do avô. Lá, descobre que o avô tem vários amigos. Ele os deixava viajar de trem sem bilhete, por exemplo. Mas, apesar de tudo, fica evidente a tensão entre os dois grupos. O filho do "velho cigan...

A Ponte Invisível, de Julie Orringer

A Ponte Invisível Julie Orringer Tradução: Rubens Figueiredo Companhia das Letras, 728 p. Um grande romance de estreia da americana Julie Orringer (1973), cujo primeiro capítulo, disponibilizado pela editora, pode ser lido aqui.  A autora se baseou na história de seu avô que, como o personagem principal Andras Lévi, era um jovem húngaro impedido de estudar arquitetura em seu país em razão de uma lei de 1920 que restringia o acesso dos judeus húngaros à universidade. Era a chamada lei numerus clausus , que estabelecia um limite rígido de vagas para os judeus. Ao que consta, parece ter sido a primeira lei antissemita europeia desde o final da Primeira Guerra. Andras vai então a Paris estudar arquitetura. Lá conhece Klara Morgenstern, que guarda um segredo de sua juventude (bom, demos um desconto; em 1937, quando se inicia o romance, ela tem trinta e dois anos, mas o fato ocorreu quando ela tinha cerca de quinze...). O irmão de Andras, Tibor, ironicamente é obrigad...

A Casa de Canetti

No nº 12 de Ulica Slavianska, em Ruse, que dese em linha reta até o porto, há ainda junto à sacada de ferro batido um grande monograma de pedra com um C; a casa de três andares era a firma do avô de Canetti; agora é uma loja de móveis. Já o bairro dos spanioli - que outrora em Ruse eram numerosos empreendedores e um pouco exclusivistas - ainda mostra as cadas baixas no meio do verde, geralmente de um só andar. Os judeus viviam bem na Bulgária; em seu livro sobre Eichmann, Hannah Arendt relembra como a população búlgara, quando os aliados nazistas obrigaram o governo de Sofia a impor o distintivo aos judeus, manifestava sua simpatia por quem o levava e procurava geralmente dificultar ou atenuar as medidas anti-semitas. No bairro existe ainda a casa da infância de Canetti; é o diretor dos museus da cidade, Stojan Jordanov, homem culto, afável e inteligente, quem nos leva a essa casa, na rua Gurko 13, endereço que Canetti, na sua autobiografia, evita cuidadosamente precisar. ...

Enquanto isso...

A Hérnia não deixa Hamlet em paz...

Abdón Ubidia e o fabricante de verdades

O conto da semana vem do Equador: é R.M. Waagen, fabricante de verdades, de Abdón Ubidia (1944).   Integra a Antologia  Pan-Americana (organizada por Stéphane Chao). A Casa Waagen prestava relevantes serviços à sociedade. Quem não gostaria de recorrer aos seus préstimos? Por ajuda de um amigo, justo no momento em que mais desesperado estava, chegou aos ouvidos do senhor Kraus a notícia de certos serviços especiais que prestava a Casa Waagen, fabricante de verdades. A próspera e muito bem organizada empresa se ocupava de fornecer, à cada vez mais numerosa clientela, dados, provas, testemunhos, e quanto auxílio fosse necessário para estabelecer, ou melhor, restabelecer as verdades requeridas por ela. Um verdadeiro global player: atuou no escândalo Profumo, no caso JFK, Watergate, a morte de João Paulo I... até que resolveu, afinada com o espírito democrático de um banco, prestar serviços ao "varejo".  O senhor Kraus a procurou. Tinha matado o amante da...

HHhH, de Laurent Binet, pela Companhia das Letras

Cumprindo a promessa de sempre divulgar o lançamento das edições brasileiras dos livros que comentei por aqui: A Companhia das Letras publica HHhH, de Laurent Binet  (leia trecho disponibilizado pela editora) . Para o post sobre o livro,  aqui.

Três vezes Millôr

Quando um chato diz: "Eu vou embora", que presença de espírito. Quem mata o tempo não é um assassino, mas sim um suicida. Inúmeros artistas contemporâneos não são artistas e, olhando bem, nem são contemporâneos. 

Conto da semana, de Naja Marie Aidt

Uma descrição quase idílica de um casal e seu filho de seis anos em viagem pelas colinas ao norte da Dinamarca subitamente se revela uma história sombria. Em Bulbjerg (algo como colina), essa transformação é mostrada por Naja Marie Aidt (abaixo, a leitura que faz de trechos do conto, em inglês sem legendas). A autora, dinamarquesa, nasceu na Groenlândia e atualmente vive em Nova York. O narrador é o marido. Está com sua esposa, Anne, e seu filho adotivo Sebastian – Seba.  Mas o que parece um momento bastante ordinário na vida do casal vai sendo desfeito pelo marido – que começa, subitamente, a falar de Tine, irmã de Anne e amante do cunhado. O que parece uma descrição própria de comercial de margarina começa, então, a adotar outro estilo, agora com detalhes sexuais – ele prefere a performance da cunhada... E essa mudança, em termos formais, de como a história nos é contada, é o ponto central da narrativa. No entanto, não deixa de ser carinhoso com Anne, ainda que não ten...

Juan José Becerra e Toda a Verdade

Toda la Verdad Juan José Becerra Seix Barral 130 p. 2010 Há autores de países próximos que, por razões misteriosas, não são traduzidos e editados no Brasil. Cada um de nós tem uma lista deles; latinoamericanos, portugueses... Becerra (1965) já andou pelo blog com seu conto A Vida de uma Bala.  Neste romance, Antonio Miranda é um engenheiro de sucesso que, subitamente, sem uma razão bem definida, deixa tudo para trás - família, carreira, o apartamento na Avenida del Libertador, o escritório no Puerto Madero, relações sociais - e se dirige aos pampas. Para dizer a verdade é preciso vivê-las - é o seu mantra. Lá trava contato direto com a natureza, sem nenhum intermediário "civilizado".  Depois, de forma tão abrupta como foi ao pampa, volta a Buenos Aires; encontra Margarita Russo, sua antiga amante, agora casada. Em cinco minutos contou-lhe sua história de vida - "mais um tratado silvestre", que tanto a impressiona que ela acaba abandonando seu mari...

Buenos Aires - Os Escolhidos