sexta-feira, 26 de abril de 2013

Conto da semana, de Hervé le Tellier (ou Jaime Montestrela)

Do blog do escritor Eduardo Berti, dois microcontos do "escritor português" Jaime Montestrela, a partir da tradução feita pelo francês Hervé le Tellier (que, na verdade, não sabe uma palavra de português: Jaime é uma de suas criações).

Em 13 de janeiro de 1923, ao amanhecer, perguntaram a Jack Bluther, condenado à forca pela morte de treze pessoas (incluindo sua senhoria), qual era seu último pedido. Bluther pediu aprender mandarim. Enforcaram-no vinte anos mais tarde, quando já falava fluentemente o idioma, ainda que pudesse ter melhorado a pronúncia.

Na ilha de Sanapagrata (Indonésia) os habitantes sempre dizem a verdade. Na ilha vizinha de Pagranaasta, todos mentem o tempo todo. E a de Natagrapasa era habitada por pessoas que às vezes mentiam, às vezes diziam a verdade. Os missionários portugueses logo se encheram de seus enigmas e mataram todos no fio de suas espadas.

Hervé le Tellier, para quem nunca ouviu falar (como eu) é membro do OuLiPo - que mais parece sigla de movimento guerrilheiro, mas significa Ouvroir de Littérature Potentiel. Está na turma de Perec e Calvino.



O Estudante de Coimbra, de Guilherme Centazzi

O Estudante de Coimbra de Guilherme Centazzi, O primeiro romance moderno português
O Estudante de Coimbra 
Guilherme Centazzi
Editorial Planeta
318 p.


Nasci no Algarve, donde se vê que devo ser grulha, e falador: isto ponho eu já aqui para que os leitores saibam com quem se metem, e depois se não queixem das digressões e moralidades a que sou sujeito, e de que por mais que faça nunca posso mondar de todo o que escrevo: sou pois algarvio, isto é, filho lá das terras que estão mais ao sul de Portugal, formando certa província com a alcunha de reino, que pela natureza do seu clima poderia produzir muitos gêneros de ambas as Índias, se bem governados tivéssemos tido a ventura de ver prosperar a nossa indústria, e se do ouro do Brasil nos não tivesse metido nos ossos a mania de ser ricos sem trabalhar, assemelhando-nos aos campos sem cultura aonde só medram plantas estéreis. (p. 27)

Um prazer para poucos. É (deve ser) descobrir uma obra há muito esquecida. Foi o que Pedro Almeida Vieira fez com este romance de 1840, de Guilherme Centazzi (1808-1875). Ele, na verdade, não aceita muito o termo "descoberta"; prefere "resgate". O título já estava catalogado no Dicionário Bibliográfico Português, de Inocêncio Francisco da Silva, mas sem maiores informações. Mas ninguém falava dele. Na Biblioteca Nacional, descobriu tratar-se verdadeiramente de um romance - anterior a Alexandre Herculano, até então considerado o pai do romance moderno português, e Garrett. O primeiro capítulo pode ser lido aqui.

O romance se passa no período das guerras liberais - as brigas entre D. Miguel absolutista e D. Pedro (I nosso, IV deles). A posição de Centazzi é clara, e por vezes exagerada e mesmo caricata. Certamente, quem conhece Machado de Assis irá identificar um tratamento direto do autor com o leitor, como se pode ver não apenas no trecho acima, mas em vários momentos. Outro elemento constante é o humor - como ele retrata não apenas os portugueses, mas também espanhois, ingleses (bisteks) e franceses.

Miguel tinha apoio dos nobre e da Igreja - e não por acaso, o grande vilão do romance é Frei Barnabé - que irá inclusive levar sua Maria.

Assim terminaram seus dias meus perseguidores: o crime subiu ao cadafalso, Maria estava em meus braço recebendo o prêmio de sua inocência... O que restava a mim?... Tu o saberás, leitor...

E a admiração por D. Pedro, que entre nós é, há muito, colocado de forma bastante ironizada.   O Estudante de Coimbra lamenta sua morte em prantos. É interessante ler o romance - que para o brasileiro com pouco conhecimento da história portuguesa pode se tornar um pouco cansativo - junto com, por exemplo, o 1822 de Laurentino Gomes - lá pelo final ele explica bem a transformação de Pedro I em IV: A guerra contra D. Miguel seria o seu último ato como homem de duas pátrias, na definição de Octávio Tarquínio de Sousa: 'a de adoção (o Brasil) desamparava-o, enquanto a de nascimento (Portugal) o atraía'.


sábado, 20 de abril de 2013

Conto da semana, de Muhsin Al-Ramli


O conto da semana está publicado, em inglês, no site da words without borders. Muhsin Al-Ramli (1967) nasceu no Iraque e vive em Madri, desde 1993. Sua tese de doutorado foi sobre a influência da cultura islâmica em Don Quixote. Seu irmão, o poeta Hassan Mutlak, foi condenado à morte pelo regime de Saddam em 1990. O conto, "A TV de um olho", foi publicado na edição de abril, que se dedica aos 10 anos da guerra e da invasão americana.

A narrativa me fez lembrar alguns filmes do leste europeu...

Aqui, o relato da chegada da televisão numa aldeia do interior do país. O pai do narrador odeia o Sr. Presidente (lógico, Saddam); o regime faz de tudo para que o líder máximo seja conhecido pela população: quando em visita a uma vila curda, as pessoas saíram correndo, sem identificá-lo. Eu sou o Presidente, você não me reconhece? Para cada família, uma TV; para isso, decretou que a eletricidade deveria chegar a toda e qualquer vila ou povoado. Os aparelhos chegavam com uma placa com o nome do presidente, sua foto, a bandeira do país e um apanhado de seus discursos. O pai do narrador, que passa a assistir o odiado presidente todos os dias, acaba morrendo de desgosto.

Mas Al-Ramli se dedica às mudanças decorrentes desta novidade: os velhos, cujas histórias passaram a não mais interessar ninguém; uma mulher que vivia no exterior e que deixou de ser considerada uma celebridade ou mesmo uma referência no povoado (descobriram que tudo o que falava vinha da TV...). O aparelho era coisa do demônio - ou seria aprovado por Deus que, afinal, queria provar seus fiéis? As mulheres cobriam o rosto por estarem diante de homens estranhos - na tela.

O imã da mesquita era o grande opositor - como as pessoas de dois olhos se deixavam guiar pela TV, de apenas um? E, como num lugar que conheço, as pessoas começavam a dar os nomes dos filhos de acordo com o que assistiam - Tarzan, Rambo. A fatwa estava para ser decretada, mas eis que ele muda de ideia - segredo que sua primeira esposa irá revelar ao final, de forma surpreendente.


quarta-feira, 17 de abril de 2013

To be or not to be

A Revista Cult publica este mês entrevista com Alberto Manguel, que pode ser lida aqui

Nossa identidade tem origem na própria língua. No meu caso, o inglês e o alemão foram as primeiras línguas até os 8 anos. As ideias se formam para mim primeiro em inglês, hoje mais que o alemão, pois deixei de usá-lo há tempo, embora seja ainda fluente. Quando falo e, sobretudo, quando escrevo em espanhol há como um pequeno esforço de tradução.  É curioso até que ponto a língua nos define, define nossa vida intelectual e forma de pensar, inclusive as ideias que temos. Certas ideias que um escritor de língua portuguesa formula, o faz por estar pensando em português. Essa mesma ideia não seria formulada por um escritor de língua inglesa ou chinesa. Há um poema de um argentino pouco conhecido, o José Pedroni: ele escreveu que o momento em que se dá conta de que está enamorado é "quando o você passa para tu". Um lusófono não poderia ter essa ideia - e esse é um exemplo banal. Uma amostra mais forte é o célebre "to be or not to be". Isso não ocorreria a um poeta de língua castelhana, pois teria de tomar uma decisão. O "to be" de Shakespeare é ser e estar ao mesmo tempo (risos). Em espanhol ou português, teremos de escolher, ser ou não ser, estar ou não estar. 

O livro mais caro do mundo


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De acordo com a ABC NEWS, a previsão é que o livro, de 1640, seja arrematado por até 30 milhões de dólares, em novembro. A Sotheby's fará o leilão do primeiro livro impresso no que hoje são os Estados Unidos. 

sábado, 13 de abril de 2013

Conto da semana, de Jorge Luis Borges


Há muito tempo não falamos dele. Neste "A Casa de Astérion", Borges traz a história do minotauro, na versão desconhecida do próprio. Do primeiro volume das Obras Completas, da Editora Globo.




*


Sei que me acusam de soberba, e talvez de misantropia, e talvez de loucura. Tais acusações (que castigarei no devido tempo) são irrisórias. É verdade que não saio de casa, mas também é verdade que as suas portas (cujo número é infinito) estão abertas dia e noite aos homens e também aos animais. Que entre quem quiser. Não encontrará aqui pompas femininas nem o bizarro aparato dos palácios, mas sim a quietude e a solidão. Por isso mesmo, encontrará uma casa como não há outra na face da terra. (Mentem os que declaram existir uma parecida no Egito.) Até meus detratores admitem que não há um só móvel na casa. Outra afirmação ridícula é que eu, Astérion, seja um prisioneiro. Repetirei que não há uma porta fechada, acrescentarei que não existe uma fechadura? Mesmo porque, num entardecer, pisei a rua; se voltei antes da noite, foi pelo temor que me infundiram os rostos da plebe, rostos descoloridos e iguais, como a mão aberta. O sol já se tinha posto mas o desvalido pranto de um menino e as preces rudes do povo disseram que me haviam reconhecido. O povo orava, fugia, se prosternava; alguns se encarapitavam no estilóbato do templo das Tochas, outros juntavam pedras. Algum deles, creio, ocultou-se no mar. Não em vão foi uma rainha minha mãe; não posso confundir-me com o vulgo, ainda que minha modéstia o queira.

O fato é que sou único. Não me interessa o que um homem possa transmitir a outros homens; como o filósofo, penso que nada é comunicável pela arte da escrita. As enfadonhas e triviais minúcias não encontram espaço em meu espírito, que está capacitado para o grande; jamais guardei a diferença entre uma letra e outra. Certa impaciência generosa não consentiu que eu aprendesse a ler. Às vezes o deploro, porque as noites e os dias são longos.

Claro que não me faltam distrações. Como o carneiro que vai investir, corro pelas galerias de pedra até cair no chão, atordoado. Oculto-me à sombra de uma cisterna ou à volta de um corredor e divirto-me com que me procurem. Há terraços de onde me deixo cair, até me ensanguentar. A qualquer hora posso brincar que estou dormindo, com os olhos fechados e a respiração forte. (Às vezes durmo realmente, às vezes já é outra a cor do dia quando abro os olhos.) Mas, de todas as brincadeiras, a que prefiro é a de outro Astérion. Finjo que ele vem visitar-me e que eu lhe mostro a casa. Com grandes reverências, digo-lhe: “Agora voltamos à encruzilhada anterior” ou “Agora desembocamos em outro pátio” ou “Bem dizia eu que te agradaria o pequeno canal” ou “Agora verás uma cisterna que se encheu de areia” ou “Já verás como o porão se bifurca”. Às vezes me engano e os dois nos rimo, amavelmente.

Não só criei esses jogos; também meditei sobre a casa. Todas as partes da casa existem muitas vezes, qualquer lugar é outro lugar. Não há uma cisterna, um pátio, um bebedouro, um pesebre; são catorze (são infinitos) os pesebres, bebedouros, pátios, cisternas. A casa é do tamanho do mundo; ou melhor, é o mundo. Todavia, à força de andar por pátios com uma cisterna e com poeirentas galerias de pedra cinzenta, alcancei a rua e vi o templo das Tochas e o mar. Não entendi isso até uma visão noturna me revelar que também são catorze (infinitos) os mares e os templos. Tudo existe muitas vezes, catorze vezes, mas duas coisas há no mundo que parecem existir uma só vez: em cima, o intrincado sol; embaixo, Astérion. Talvez eu tenha criado as estrelas e o sol e a enorme casa, mas já não me lembro.

A cada nove anos, entram na casa nove homens para que eu os liberte de todo o mal. Ouço seus passos ou sua voz no fundo das galerias de pedra e corro alegremente para procurá-los. A cerimônia dura poucos minutos. Um após outro, caem, sem que eu ensanguente as mãos. Onde caíram, ficam, e os cadáveres ajudam a distinguir uma galeria das outras. Ignoro quem sejam, mas sei que um deles profetizou, na hora da morte, que um dia chegaria meu redentor. Desde esse momento a solidão não me magoa, porque sei que vive meu redentor e que por fim me levantará do pó. Se meu ouvido alcançasse todos os rumores do mundo, eu perceberia seus passos. Oxalá me leve para um lugar com menos galerias e menos portas. Como será meu redentor? — me pergunto. Será um touro, ou um homem? Será talvez um touro com cara de homem? Ou será como eu?

O sol da manhã reverberou na espada de bronze. Já não restava qualquer vestígio de sangue.

— Acreditarás, Ariadne? — disse Teseu. — O minotauro apenas se defendeu.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Iceberg, de Paul Kavanagh


Este romance curto, de cento e poucas páginas, do inglês Paul Kavanagh (1971) é definitivamente estranho. Cheguei a ele por indicação de David Rose, e li na versão Kindle. Não foi uma leitura fácil; várias palavras que até para um leitor nativo chamam a atenção. Um desafio para quem eventualmente for traduzi-lo (aliás, Kavanagh é considerado complicado até mesmo para os native speakers...

Este Iceberg remete a Hemingway - uma das referências de Kavanagh - e sua teoria do iceberg, ou da omissão. Use apenas 10% do que você sabe do seu personagem na história. Os outros 90%, reserve para você mesmo. Há, aqui, muito desta sutileza. 

Don (um artista, pintor, nada bem sucedido ou talentoso) e Phoebe - professora de inglês na biblioteca da cidade e autora de um romance sobre caleidoscópio, igualmente sem sucesso - formam um casal duro numa cidade do norte da Inglaterra, num cenário de completa falência não apenas do país como da sociedade. Em meio à violência, ela recebe a informação de que acabara de ganhar o prêmio da loteria. A notícia chega pelo email.

É claro que é um golpe. Um sujeito que mora no Lagos, Nigéria, é o autor de tudo e sempre se surpreende com a quantidade de pessoas que respondem à mensagem... É claro também que a ingênua Phoebe jamais conta a Don ter enviado dinheiro para um outro senhor, para receber o prêmio. Lembro-me dos emails que recebo dizendo que um sujeito de Gana morreu e que se eu ajudar um herdeiro (lógico, se eu informar minha conta bancária) receberei também alguns milhões.

De qualquer forma, é para Phoebe uma chance de se livrar do locador insuportável e fronteiriço. Don ainda tem de apoiar seu pai idoso e já demente.

Eles partem numa viagem até a Antártida, para receber o tal prêmio; passam pela Holanda, Espanha, África - é interessante ver que a África parece um local mais vibrante e interessante que a Europa, algo que eles percebem muito claramente. Durante essa viagem, depressão e esperança parecem acompanhar o casal permanentemente. 

Até que chegam à Antártida e descobrem que o prêmio é um... iceberg. O que não deixa de ser uma boa; afinal, o mundo acaba de acabar. Aqui, novamente, o iceberg lembra o iceberg da teoria: não há praticamente nenhuma menção expressa ao apocalipse. 

Passam a viver neste bloco, à deriva - literal e metaforicamente -; passam pelas Malvinas (na verdade, o que sobrou delas, já que o arquipélago, bem como o planeta, encontra-se agora submerso), vão terminar em NY. A última parte - justamente a do iceberg - é escrita à moda de Saramago; parágrafos e frases imensas; quase um outro livro.

Este é nosso Castelo, e nós somos os reis, diz Phoebe. Eles se abraçam. Phoebe sussurra seu amor no ouvido de Don. Eles voltam para a barraca. Era uma lembrança triste, mas com a ajuda de Phoebe Don podia ver o absurdo de seus atos.

Quem conta a eles que o mundo acabou? Um pescador brasileiro! Um pescador brasileiro que diz chamar-se Noé e que conversa com Deus... E, falando em Brasil, aparece um Jagunço, que oferece a eles três cavalos para caminhar pelo Sertão. Kavanagh é admirador de Machado de Assis e Guimarães Rosa.

Um romance, repito, difícil. Há um evidente humor sarcástico e, por outro lado, uma intensa melancolia, e isso tudo ao mesmo tempo. Um livro para ser relido.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Fatos, Ficção e História

Este foi o título do seminário e o que discutiram, num encontro, Orhan Pamuk e Umberto Eco. Eles falaram sobre como se tornaram escritores e ainda ficaram gozando as manias do outro. 

Students queu tried to enter the saloon to attend the meeting. However, many had to stay outside and watched the panel from the screen. AA photo

Pamuk, como se sabe, queria ser um pintor quando criança. "No entanto, mais tarde, resolvi que eu queria viver uma vida solitária. Nunca quis uma vida na qual eu recebesse ou desse ordens. Queria viver a vida solitária de alguém que tivesse uma grande imaginação". E foi assim que Pamuk percebeu que não poderia ser um pintor. "Então eu me perguntei: por que não um romancista?"

E Eco: "Algumas pessoas assaltam bancos, outras são pedófilas, algumas escalam o Mont Blanc e eu escrevo romances. Não se pode discutir as escolhas pessoais".



sábado, 6 de abril de 2013

O 100º Conto da Semana

- O senhor está vendo - disse Carnehan - o Imperador em seu traje, como viveu... o Rei do Cafiristão com a sua coroa na cabeça. Coitado do velho Daniel, que foi um dia um monarca!

O conto desta semana é o 100º do blog. Logo, tem que ser um conto especial, e escolhi O homem que queria ser rei, de Rudyard Kipling (1865-1936).

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O conto está em diversas antologias, inclusive no Mar de Histórias. A Editora Landmark o incluiu numa edição bilíngue com outros contos do autor. Pouco depois de ter lido pela primeira vez, assisti ao filme, de John Huston e com Sean Connery e Michael Cane, de 1975, e que é bastante fiel ao texto. 

Os dois são Daniel Dravot e Peachey Carnehan, dois oficiais do exército imperial britânico da pior espécie e que acabam no Kafiristão, no Norte da Índia. Dravot é considerado um rei, um imortal neste país, que acaba se unindo em torno de sua figura. Conquistam povos, mas Dravot - e, consequentemente, Carnehan - acaba desmascarado quando resolve se casar.

Kipling em seu estúdio

A história é contada por Carnehan ao próprio Kipling (no filme, interpretado por Christopher Plummer); o antigo companheiro de Dravot chega à sua casa em farrapos com um estranho objeto num saco.






Nas Montanhas da Holanda, de Cees Nooteboom



Cees Nooteboom é o pseudônimo de Cornelis Johannes Jacobus Maria (1933), nome que lembra os contemporâneos de Vermeer. Bastante badalado na Europa, integra o grupo dos eternos favoritos - e até agora, despeitadamente preteridos - ao Nobel de Literatura. Nunca li nada dele até este momento, quando concluo a edição em espanhol pelo Kindle daquele que é considerado o seu melhor trabalho: Nas Montanhas da Holanda.

Alfonso Tiburón de Mendoza é um inspetor de estradas em Zaragoza que viveu, na juventude, na Holanda - país que apenas lembra um outro, real, chamado Holanda. Nos meses de agosto, passa os dias nas salas de aula de uma escola fechada (férias escolares na Europa) e se põe a escrever. Não é lá um grande escritor; ninguém lê o que escreve; não vende quase nada... nem sua esposa e seu filho o levam a sério.

Nas Montanhas da Holanda, que eu saiba ainda não publicado no Brasil, conta a história de um sujeito (Alfonso) contando uma história. Neste aspecto, trata-se de um romance moderno. A história que nosso escriba quer nos contar é a de Kai e Lucia, um belíssimo e apaixonado casal, habitantes da "Holanda do Norte" e que se vêem forçados a ir para o Sul. São artistas de circo. A Holanda do Sul é montanhosa (e se sabe que não há montanhas nos Países Baixos).

Nesta terra selvagem, Kai é sequestrado pela Rainha das Neves. Como diz Alfonso Tiburón (digo, Nooteboom), há semelhanças com a famosa história de Andersen e, como tal, "contos de fadas sempre terminam bem"; é uma lei dos contos de fada. A história em si, diga-se, não é o centro do livro. Não há suspense a esta altura - e todos nos lembramos do texto de Andersen. Ao final, Lucia consegue salvar Kai das garras da Rainha das Neves. Mas não é esse o centro do romance. O objetivo de Nooteboom é muito mais contar uma história sobre o contar histórias.


Por isso mesmo, é muito interessante uma "conversa" que surge lá pelo final do livro (de cerca de 120 páginas) entre Tiburón, Platão, Andersen e Milan Kundera:

Penso na neve que cobre o cabelo de Lucia, contemplo o pátio vazio do colégio, reduzido a uma lâmina de luz reverberante, luz na qual iam se formavam, como sombras, meus quatro amigos, e me pergunto de onde vem meu irreprimível desejo de mentir.

- Da desgraça - diz Andersen, que fala por experiência - mas tua desgraça ainda é insuficiente, e por isso se sente incapaz de fazê-lo. Mentir também é uma arte.

- Por que não escreve romances? - diz Kundera - Neles poderia "mentir uma realidade".

- A realidade é apenas uma sombra - diz Platão.

- Nós, os espanhois, nunca nos entendemos bem com a realidade - diz D'Ors.

- A realidade é mais uma coisa de holandeses - contesto entre os dentes, mas Platão não sabe o que são os holandeses, e os outros três não respondem.