Pular para o conteúdo principal

Conto da semana, de Richard Ford

Durante algum tempo, um ano e meio antes, eu tive um caso amoroso com a esposa de Bolger, Beth Bolger. Por estranho que pareça - porque para nova-iorquinos tudo que se passa fora de Nova York parece estranho e irreal - nosso caso se passou na cidade de St. Louis, aquela desprezível abstração em tijolinhos vermelhos que não é oeste nem meio-oeste, tampouco sul ou norte; é uma cidade perdida no meio de tudo isso, creio eu. Sempre achei interessante o fato de ser ela a cidade da infância de T. S. Eliot, bem como, apenas 85 anos antes disso, o ponto inicial da expansão do país em direção ao oeste. É um lugar, a meu ver, de onde se deve manter sempre distância.


O trecho é do conto do americano Richard Ford - Reunião - do volume Antologia Pan-Americana, organizado por Stéphane Chao e editado pela Record. O narrador encontra Mack Bolger na Grand Central Station. Passa a rememorar o romance - um caso banal de adultério - e o fato de reconhecer que o traído foi forçado a me confrontar. 

Mack, ao vê-lo, dispara - você tem em mente alguma coisa especial para me dizer? Recém-divorciado, espera a chegada do trem de sua filha - que não quer que encontre o desafeto.

E, a partir daí, um tenso diálogo entre amante e traído. Johnny sabe que o que fez foi errado, e parece querer reencontrar seu oponente como que de forma a "resolver" a situação; chama a atenção a tentativa que o narrador faz em tornar mais palatável a sua ideia em criar um evento sem reverberações do passado. Algo que, obviamente, não será fácil...

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O conto da semana, de Italo Calvino

O conto da semana é novamente de Calvino – Quem se contenta – e integra Um General na Biblioteca : Havia um país em que tudo era proibido. Ora, como a única coisa não-proibida era o jogo de bilharda, os súditos se reuniam em certos campos que ficavam atrás da aldeia e ali, jogando bilharda, passavam os dias. E como as proibições tinham vindo paulatinamente, sempre por motivos justificados, não havia ninguém que pudesse reclamar ou que não soubesse se adaptar. Passaram-se os anos. Um dia, os condestáveis viram que não havia mais razão para que tudo fosse proibido e enviaram mensageiros para avisar os súditos que podiam fazer o que quisessem. Os mensageiros foram àqueles lugares onde os súditos costumavam se reunir. - Saibam – anunciaram – que nada mais é proibido. Eles continuaram a jogar bilharda. - Entenderam? – os mensageiros insistiram – Vocês estão livres para fazerem o que quiserem. - Muito bem – responderam os súditos – Nós jogamos bilharda. Os mensagei...

Conto da semana: Nikolai Karamzin

O conto da semana é de Nikolai Karamzin e inaugura a incrível Nova Antologia do Conto Russo organizada por Bruno Barretto Gomide. A tradução é de Natalia Marcelli de Carvalho e Fátima Bianchi. Karamzin é pouco conhecido, não apenas no Brasil, mas no Ocidente como um todo. Na Rússia, no entanto, é reverenciado como o autor de uma monumental História do Estado Russo .  Nobre de origens tártaras, teve grande reputação também como jogador de cartas; lia de filosofia alemã aos romances franceses da época. Em sua única viagem à Europa, consta que bateu um papo em Konigsberg com Kant e assistiu aos discursos de Robespierre e Mirabeau na Assembleia Nacional, em Paris. Essa viagem originou as Cartas de um Viajante Russo , e foi catapultado à condição de líder do sentimentalismo russo.  Seu conto mais conhecido é esse Pobre Liza, tido como uma obra fundamental da ficção russa, em que uma camponesa é seduzida e abandonada por Erast e que ao final se atira de uma ponte em...

A Montanha Mágica, de Thomas Mann

  Meu primeiro Thomas Mann foi Os Buddenbrooks , ainda durante a faculdade. Alguns anos depois, a trilogia José e seus Irmãos, As confissões do Impostor Felix Krull, A Morte em Veneza e, recentemente, Doutor Fausto. Mas faltava o que para muitos é o seu melhor trabalho.  A descoberta do Raio X, em 1895, permitiu o diagnóstico precoce da tuberculose, ainda que, em 1907, a única forma de tratá-la era a internação em sanatórios.  Thomas Mann acabara de publicar  A Morte em Veneza  quando, acompanhado de sua esposa, esteve em Davos. Lá surge a ideia para  A Montanha Mágica. O Sanatório Berghof hospeda uma amostra d a sociedade europeia do início do século XX. Lá está Joachim Ziemssen. E é para lá que o engenheiro Hans Castorp, exausto com seus estudos e prestes a iniciar sua vida profissional, se dirige. Saudável – ao menos é o que pensa - sua ideia é visitar o primo e passar cerca de três semanas. Ao longo das mais de 820 páginas da minha edição da Companhia d...