quarta-feira, 13 de março de 2013

Barba ensopada de sangue, de Daniel Galera


Barba ensopada de sangue
Daniel Galera
Companhia das Letras, 2012
424p.

Cadê a caminhonete?

Vendi.

Por que tem um revólver na mesinha?

É uma pistola.

Por que tem uma pistola na mesinha?


O ruído de uma moto passando na estrada é acompanhado pelos latidos do Bagre, roucos como berros de um fumante inveterado. O pai franze a testa. Não atura esse vira-lata insolente e barulhento e o mantém somente por senso de responsabilidade. Tu pode deixar pra trás um filho, um irmão, um pai, com certeza uma mulher, há circunstâncias em que tudo isso é justificável, mas não tem o direito de deixar pra trás um cachorro depois de cuidar dele por um certo tempo, disse-lhe uma vez quando ainda era criança e a família completa vivia numa casa em Ipanema pela qual passaram meia dúzia de cães. Os cachorros abdicam pra sempre de parte do instinto pra viver com as pessoas e nunca mais podem recuperá-lo por completo. Um cachorro fiel é um animal aleijado. É um pacto que não pode ser desfeito por nós. O cachorro pode desfazê-lo, embora seja raro. Mas o homem não tem esse direito, dizia o pai. A tosse seca do Bagre devia ser aturada, portanto. É o que fazem agora os dois, o pai e Beta, a velha pastora australiana deitada a seu lado, uma cadela de fato admirável, inteligente e circunspecta, forte e parruda como um javali.

Como vai a vida, filho?

E esse revólver? Pistola.

Tu parece cansado.
p. 13-14.


É o primeiro livro que leio de Daniel Galera (1979). Nele, um professor de natação, com um problema neurológico que o impede de lembrar de rostos, parte para Garopaba, após o suicídio do pai. Leva consigo - na verdade, atende a um último pedido - Beta. Procura pistas de seu avô Gaudério que, segundo as histórias que seu pai lhe contava, fora assassinado durante um blecaute ocorrido em meio a uma festa, naquele mesmo balneário. Para uns, foi enterrado como indigente, mas outros juram ter visto o corpo lançado ao mar.

O pai se despede do filho; avisa que irá cometer suicídio. Este é, diga-se, um (talvez "o") ponto alto do livro, logo no seu início. A partir daí, o narrador parte para Garopaba e começa a  procurar por pessoas que possam ter conhecido Gaudério.

Sua semelhança física com o avô lhe rende problemas que já o levam a perceber a dificuldade em conseguir extrair qualquer informação - fica evidente que Gaudério não era muito querido na região, e é exatamente o que está acontecendo com ele próprio. Mas essa investigação não é a de um detetive, um profissional. Na verdade, o filho se impõe um exílio; deixa sua barba crescer enquanto dá aulas para seus alunos - evidentemente, não consegue reconhecê-los. E é interessante ver como Galera faz de Beta uma personagem à altura do próprio protagonista...

O único senão fica na opção em colocar como notas de rodapé cartas e mensagens de personagens secundários; fica um pouco estranho. 

Karim Aïnouz já é o cineasta a cargo da adaptação do romance às telas; as filmagens devem começar ainda em 2013.

Nenhum comentário:

Postar um comentário