quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Os Malaquias, de Andrea del Fuego


 
Os Malaquias
Andrea del Fuego
Língua Geral, 2011
272 p.

Um gato esticou as pernas, as paredes se retesaram. A pressão do ar achatou os corpos contra o colchão, a casa inteira se acendeu e apagou, uma lâmpada no meio do vale. O trovão soou comprido até alcançar o lado oposto da serra. Debaixo da construção a terra, de carga negativa, recebeu o raio positivo de uma nuvem vertical. As cargas invisíveis se encontraram na casa dos Malaquias. p. 7. Leia, aqui, o primeiro capítulo.

Outro livro que fiquei devendo em 2012, este que recebeu o Prêmio Saramago de 2011. Confesso que não conhecia a autora, Andrea del Fuego (1975), até o anúncio da premiação. 



Nico, de olhos azuis; Antônio, miúdo, e Júlia, barriguda. Os três irmãos que vivem em Serra Morena - são os Malaquias do romance. Com exceção deles, os habitantes eram pardos como mamíferos silvestres. Com a morte dos pais, "de raio", os três órfãos são separados: Nico, o mais velho, vai trabalhar numa fazenda (a fazenda Rio Claro), de Geraldo; os outros dois são levados por freiras francesas - Júlia será adotada; Antônio, no entanto, é anão.

O romance mostra o momento de transição entre um país rural e outro urbano. Geraldo e Nico são forçados a se mudar, com a chegada do progresso e a construção de uma hidrelétrica, que inundará todo o povoado.

Andrea del Fuego homenageia sua família - Nico é seu avô; os pais realmente morreram eletrocutados e Antônio sofria de nanismo. E a partir daí parte para a ficção pura - como, por exemplo, o fim reservado a Nico e a Geraldina Passos (mãe do fazendeiro Geraldo).

No capítulo 63, um grande momento, que mostra a felicidade da escolha das palavras pela autora - Geraldo, de carne já líquida dentro do caixão, tinha o corpo concorrido por colônias de bactérias. Debaixo da terra a nutrição se fazendo à exaustão dos ossos, que, pudessem, morariam em outra câmara escura, com menos acontecimentos. Do próprio corpo é que saíam as colônias famintas, De dentro para fora, o final de Geraldo. Esse, aliás, é o grande trunfo do livro - a cuidadosa, quase um trabalho de ourives, na escolha das palavras certas, das associações de imagens e ideias. Ao mesmo tempo, uma linguagem seca e dura. Uma combinação difícil. Um livro para ser lido com calma.

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