sexta-feira, 27 de abril de 2012

Conto da semana - Lucian Dan Teodorovici


O romeno Lucian Dan Teodorovici nos brinda com o conto da semana - Caça aos Gansos, em português. Foi o conto selecionado por Hemon para a edição de 2011 de sua antologia BEF.


O narrador é uma criança que vive no interior da Romênia, onde romenos e ciganos vivem fisicamente próximos mas com temores mútuos. Um dos orgulhos do menino é o fato de o seu avô ser o único do vilarejo a não temer os ciganos - afinal, ele é o condutor de trem, próximo de sua aposentadoria, é verdade, mas a posição lhe confere um tremendo status diante de ambas as comunidades.

Na história, sete gansos da família do garoto desaparecem, e há suspeitas de que o furto foi praticado pelos ciganos. O corajoso avô, então, vai até o acampamento - o menino, claro, vai junto, ainda que contra a vontade do avô.

Lá, descobre que o avô tem vários amigos. Ele os deixava viajar de trem sem bilhete, por exemplo. Mas, apesar de tudo, fica evidente a tensão entre os dois grupos. O filho do "velho cigano", uma autoridade local, furtou os animais. Será castigado com rigor. É a justiça cigana, bem diferente daquela exercida pela milícia dos romenos - o ladrão, por exemplo, terá que trabalhar por quatro dias para o condutor. Há ainda um homem espancado pela acusação de adultério - a mulher será enforcada pelo próprio marido...

No final, o avô leva de volta cinco dos sete gansos - os outros foram comidos (afinal, ninguém sabia que os animais eram justamente do avô condutor...). O conto realça justamente a diferença entre os dois mundos sob a ótica do menino e o estranhamento que toda a situação lhe causou. 




A Ponte Invisível, de Julie Orringer



A Ponte Invisível
Julie Orringer
Tradução: Rubens Figueiredo
Companhia das Letras, 728 p.

Um grande romance de estreia da americana Julie Orringer (1973), cujo primeiro capítulo, disponibilizado pela editora, pode ser lido aqui. A autora se baseou na história de seu avô que, como o personagem principal Andras Lévi, era um jovem húngaro impedido de estudar arquitetura em seu país em razão de uma lei de 1920 que restringia o acesso dos judeus húngaros à universidade. Era a chamada lei numerus clausus, que estabelecia um limite rígido de vagas para os judeus. Ao que consta, parece ter sido a primeira lei antissemita europeia desde o final da Primeira Guerra.

Andras vai então a Paris estudar arquitetura. Lá conhece Klara Morgenstern, que guarda um segredo de sua juventude (bom, demos um desconto; em 1937, quando se inicia o romance, ela tem trinta e dois anos, mas o fato ocorreu quando ela tinha cerca de quinze...). O irmão de Andras, Tibor, ironicamente é obrigado a sair da Hungria democrática para estudar medicina na Itália de Mussolini...

Orringer foi uma atenta ouvinte da história do avô. Ele era, de fato, leitor da revista judaica húngara Passado e Futuro - tal como Andras. E também teve problemas quando o governo húngaro proibiu a transferência de recursos para os judeus no exterior - o que os afetou em suas bolsas de estudos. São obrigados a abandonar a França. Mas a filha de Klara, por sua vez, decide ir para os Estados Unidos.

Com o forçado retorno à Hungria, a situação começa realmente a se deteriorar. O segredo de Klara é revelado; Andras é convocado para os campos de trabalhos forçados. Interessante, aqui, é como o governo do Almirante Horthy, aliado de Hitler, é visto como, no final das contas, um grande protetor dos judeus -  ao considerá-los úteis para os esforços de guerra. 




É claro que a situação não durou para sempre, e em março de 1944, com a ocupação alemã, houve o início dos massacres industriais de judeus na Hungria e as deportações para os campos de concentração.




Neste momento, cerca de 500 mil judeus húngaros foram enviados a Auschwitz. Horthy cairia logo depois, substituído por Ferenc Szalasi, e os trabalhadores forçados se transformaram em prisioneiros de guerra.


O romance de Orringer tem tudo para dar um grande filme. Ela foi extremamente feliz na ambientação, tanto em Paris quanto na Hungria. Interessante, também, as passagens sobre o desejo de muitos personagens - mas não todos - de fugir para a tão sonhada Palestina.


Mas não é, definitivamente, um livro sobre a guerra propriamente dita, mas da vida judaica na Hungria da época; o cotidiano e um cuidado muito grande com a caracterização dos personagens - ainda que, particularmente, ache que os irmãos Lévi (além de Andras e Tibor, Matyas) ficaram "perfeitos" demais em suas atitudes e princípios. Um livro definitivamente a ser recomendado.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

A Casa de Canetti


No nº 12 de Ulica Slavianska, em Ruse, que dese em linha reta até o porto, há ainda junto à sacada de ferro batido um grande monograma de pedra com um C; a casa de três andares era a firma do avô de Canetti; agora é uma loja de móveis. Já o bairro dos spanioli - que outrora em Ruse eram numerosos empreendedores e um pouco exclusivistas - ainda mostra as cadas baixas no meio do verde, geralmente de um só andar. Os judeus viviam bem na Bulgária; em seu livro sobre Eichmann, Hannah Arendt relembra como a população búlgara, quando os aliados nazistas obrigaram o governo de Sofia a impor o distintivo aos judeus, manifestava sua simpatia por quem o levava e procurava geralmente dificultar ou atenuar as medidas anti-semitas.

No bairro existe ainda a casa da infância de Canetti; é o diretor dos museus da cidade, Stojan Jordanov, homem culto, afável e inteligente, quem nos leva a essa casa, na rua Gurko 13, endereço que Canetti, na sua autobiografia, evita cuidadosamente precisar. 


(Claudio Magris, Danúbio. Companhia de Bolso, p. 391)

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Enquanto isso...



A Hérnia não deixa Hamlet em paz...

Abdón Ubidia e o fabricante de verdades


O conto da semana vem do Equador: é R.M. Waagen, fabricante de verdades, de Abdón Ubidia (1944). Integra a Antologia  Pan-Americana (organizada por Stéphane Chao).

A Casa Waagen prestava relevantes serviços à sociedade. Quem não gostaria de recorrer aos seus préstimos?

Por ajuda de um amigo, justo no momento em que mais desesperado estava, chegou aos ouvidos do senhor Kraus a notícia de certos serviços especiais que prestava a Casa Waagen, fabricante de verdades. A próspera e muito bem organizada empresa se ocupava de fornecer, à cada vez mais numerosa clientela, dados, provas, testemunhos, e quanto auxílio fosse necessário para estabelecer, ou melhor, restabelecer as verdades requeridas por ela.

Um verdadeiro global player: atuou no escândalo Profumo, no caso JFK, Watergate, a morte de João Paulo I... até que resolveu, afinada com o espírito democrático de um banco, prestar serviços ao "varejo". 

O senhor Kraus a procurou. Tinha matado o amante da mulher de forma que esta fosse considerada a culpada mas, por um desses azares, tudo deu errado. 

Tudo seria resolvido da melhor forma possível. Várias fatalidades aconteceram nos dias seguintes; uma vizinha que tinha visto Kraus sair do apartamento da vitima foi atropelada; um estrangeiro que estava por lá no dia foi repatriado. E a mulher de Kraus foi presa. A vingança se concretizou.

Mas a senhora Kraus admitiu o crime, confessou-o de próprio punho, pedindo para si a aplicação da pena máxima. O senhor Kraus não entendeu nada; ficou totalmente transtornado. Talvez ela soubesse que era ele o verdadeiro culpado. A angústia o fez mudar de ideia - de um assassino frio, agora pretendia ser o salvador de sua esposa.

No dia seguinte, voltou à Casa. Logicamente, não encontrou ninguém; a Casa nunca se envolvia em assuntos que se afastassem da lei, foi-lhe dito. Recomendaram também que procurasse um psicólogo. E, por fim: A Casa Waagen nunca erra. E por isso não admite reclamações. Ninguém acredita no que ele sabe ser a verdade - ele não tinha sequer meios de prová-la.

Ubidia cria um ambiente de pesadelo; a ideia de uma organização "arranjando" mentiras e explicações para os acontecimentos da História é bem interessante mas o ponto parece ser as consequências da contratação dos serviços. Afinal, o senhor Kraus está impossibilitado para sempre de restabelecer para seus congêneres - viciados no uso e abuso das palavras e das leis - "a verdade do que na verdade foi a verdade", impossibilitado também de ressuscitá-la na mente confusa de sua mulher, não tem outro remédio a não ser proteger e conservar esta verdade no único lugar em que ainda pode estar, em sua memória, em seu cérebro ainda lúcido...


terça-feira, 17 de abril de 2012

HHhH, de Laurent Binet, pela Companhia das Letras



Cumprindo a promessa de sempre divulgar o lançamento das edições brasileiras dos livros que comentei por aqui: A Companhia das Letras publica HHhH, de Laurent Binet (leia trecho disponibilizado pela editora). Para o post sobre o livro, aqui.

sábado, 14 de abril de 2012

Três vezes Millôr


Quando um chato diz: "Eu vou embora", que presença de espírito.

Quem mata o tempo não é um assassino, mas sim um suicida.

Inúmeros artistas contemporâneos não são artistas e, olhando bem, nem são contemporâneos. 


Conto da semana, de Naja Marie Aidt



Uma descrição quase idílica de um casal e seu filho de seis anos em viagem pelas colinas ao norte da Dinamarca subitamente se revela uma história sombria. Em Bulbjerg (algo como colina), essa transformação é mostrada por Naja Marie Aidt (abaixo, a leitura que faz de trechos do conto, em inglês sem legendas). A autora, dinamarquesa, nasceu na Groenlândia e atualmente vive em Nova York.

O narrador é o marido. Está com sua esposa, Anne, e seu filho adotivo Sebastian – Seba.  Mas o que parece um momento bastante ordinário na vida do casal vai sendo desfeito pelo marido – que começa, subitamente, a falar de Tine, irmã de Anne e amante do cunhado. O que parece uma descrição própria de comercial de margarina começa, então, a adotar outro estilo, agora com detalhes sexuais – ele prefere a performance da cunhada... E essa mudança, em termos formais, de como a história nos é contada, é o ponto central da narrativa.

No entanto, não deixa de ser carinhoso com Anne, ainda que não tenha muita paciência com o filho. E, à medida em que o texto avança, tudo se torna cada vez mais obscuro. O narrador, por fim, conta-nos como conheceu Anne; Seba sofre um grave acidente e, depois, o narrador confessa a traição. 

No final do conto, uma surpresa - descobrimos a origem do nome do filho adotivo do casal. O início calmo da história dá lugar a uma violenta discussão, com a entrada deste novo personagem. 

Mais uma narrativa que integra a edição BEF, desta vez de 2010. Já há, também, previsão de lançamento da edição de 2013, para outubro próximo. Fonte segura de muitos bons e surpreendentes contos.



quinta-feira, 12 de abril de 2012

Juan José Becerra e Toda a Verdade


Toda la Verdad
Juan José Becerra
Seix Barral
130 p. 2010

Há autores de países próximos que, por razões misteriosas, não são traduzidos e editados no Brasil. Cada um de nós tem uma lista deles; latinoamericanos, portugueses...

Becerra (1965) já andou pelo blog com seu conto A Vida de uma Bala. Neste romance, Antonio Miranda é um engenheiro de sucesso que, subitamente, sem uma razão bem definida, deixa tudo para trás - família, carreira, o apartamento na Avenida del Libertador, o escritório no Puerto Madero, relações sociais - e se dirige aos pampas. Para dizer a verdade é preciso vivê-las - é o seu mantra. Lá trava contato direto com a natureza, sem nenhum intermediário "civilizado". 

Depois, de forma tão abrupta como foi ao pampa, volta a Buenos Aires; encontra Margarita Russo, sua antiga amante, agora casada. Em cinco minutos contou-lhe sua história de vida - "mais um tratado silvestre", que tanto a impressiona que ela acaba abandonando seu marido.

Sua história acaba chegando aos ouvidos de um editor e, em pouco tempo, Antonio Miranda é autor do maior sucesso editorial argentino de todos os tempos com o livro La verdad de tu vida. Na verdade, escrito por um ghost writer - Miranda tem dificuldade em colocar suas ideias no papel. De qualquer forma, torna-se um guru do novo milênio.

A partir daí, Becerra ataca todo o meio editorial e suas manias: conferências, a criação de uma estrela, leitores ávidos por ouvir Miranda, ainda que não entendam nada do que ele diga (De modo que lo aplaudieron. Para aplaudir, el público debía sentir que estaba siendo vencido por una inteligencia superior. No entender era sentir el peso de esa superioridad). Ele sai em caravana de lançamento: Buenos Aires, Madrid, São Paulo; é publicado pela Penguin Books; seus pensamentos são repetidos por todos - mesmo aqueles que ele jamais havia pensado. 

Becerra chama a literatura de auto-ajuda de "livros placebo" e, aqui, apresenta um retrato bastante cáustico da indústria editorial e dos seus processos de marketing, lançamentos e construções de autores. Até o maior astro do rock mundial recomendou o livro de Miranda em um programa de TV, o que o colocou no primeiro lugar em vendas na Barnes and Nobles.

E, na mesma velocidade em que Miranda se torna um astro, ele se torna também obsoleto... momento para uma nova fuga, para os mesmos pampas - Miranda integra não um triângulo, mas um quadrado (!) amoroso...

Um livro a ser traduzido e lançado por aqui.





segunda-feira, 9 de abril de 2012

Buenos Aires

Dia 5 a Biblioteca comemorou um ano de existência, em Buenos Aires. E em grande estilo: visitamos o Templo - El Ateneo Grand Splendid, na Avenida Santa Fe com Callao. Eu já conhecia a sede, na Florida, agora ofuscada por este portento que está em todas as listas das livrarias mais bonitas do mundo.


Às sete e meia da noite, estava lotada, como todas as demais livrarias menores e as ruas. É algo que perdemos para sempre por estas paragens: optamos pelo modelo dos shoppings centers que esvaziam o comércio de rua - e a cidade como um todo, que se torna bem mais insegura. No final das contas, não admiramos cidades como Buenos Aires, Paris, Londres ou Nova York apenas pelas suas atrações especiais, mas sim pelo "kit básico": poder andar pelas ruas, praças e parques com prazer e tranquilidade, a qualquer hora do dia - dentro de um mínimo de bom senso, é claro - jantar em um restaurante de rua a dez quarteirões de distância e voltar caminhando com outras centenas de pessoas às dez horas da noite.

No Templo, os Escolhidos:

Toda la verdad, Juan José Becerra, Seix Barral
Bahia Blanca, Martin Kohan, Anagrama
Un Hombre Llamado Lobo, Oliverio Coelho, Duomo
El otro lado, Jorge Consiglio, Edhasa

E a edição de abril da revista Los Inrockuptibles, que é um achado. Talvez o mais próximo que tenhamos aqui seja a Bravo dos velhos tempos. A maior parte do pessoal acima escreve ou, em algum momento, escreveu para ela.


Ficamos na Recoleta, no Hotel Chateau Blend, na José León Pagano, perto da calle Austria e da Biblioteca Nacional (um monstrengo que foi concluído em 1993; Borges trabalhou na antiga sede, na calle Mexico, e foi ele quem iniciou os projetos para a mudança).

Enrique Anderson Imbert sádico e masoquista

Cena no Inferno. Sacher-Masoch se aproxima do marquês de Sade e, masoquistamente, implora: 
- Bata-me! Bata-me! Pegue forte que eu gosto!
O marquês de Sade levanta o braço, faz menção de atendê-lo e, com um sorriso cruel, sadicamente diz:
- Não.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Caderno de economia com Mr. Taylor



O conto da semana é novamente de Augusto Monterroso e pode ser visto como uma aula de economia para países exportadores de commodities. No caso, cabeças reduzidas...

Mr. Taylor é o Gringo Pobre, que vive na Amazônia com os índios. Um dia, um nativo lhe oferece uma cabeça humana. Envia o presente ao seu tio de Nova York e os dois iniciam grandes "exportações" de cabeças. Criam uma empresa para isso; conseguem das autoridades locais monopólios.

Quando acabam as cabeças, os nativos invadem tribos inimigas para garantir o suprimento da matéria-prima. Mas é claro que isso não iria dar em boa coisa...