quarta-feira, 7 de setembro de 2011

A Verdadeira Vida de Sebastian Knight, de Vladimir Nabokov



The Real Life of Sebastian Knight
Tradução de José Rubens Siqueira
Editora Objetiva/Alfaguara, 195 páginas
2010

Posso, portanto, declarar que a manhã do nascimento de Sebastian foi uma bela manhã sem vento, com doze graus (Reaumur) abaixo de zero... isso é tudo, porém, que a boa dama achou digno de registrar. Pensando melhor, não consigo ver nenhuma necessidade de concordar com seu anonimato. Parece loucamente impossível que ela algum dia venha a ler este livro. Seu nome era e é Olga Olegovna Orlova – uma aliteração ovóide que seria uma pena esconder.
Seu relato tão seco não consegue transmitir para o leitor não viajado as delícias implícitas num dia tal como ela descreve em São Petersburgo ; a pura luxúria de um céu sem nuvens destinado não a aquecer a carne, mas exclusivamente ao prazer dos olhos (página 7)

Stanislaw Lem escreveu um livro (que não li) chamado Vácuo Perfeito, uma coletânea de resenhas de livros que jamais foram escritos. Jorge Luis Borges, em Ficções, também trata com profundidade de livros que somente existiram na sua própria cabeça.

É neles que se pensa quando se termina A Verdadeira Vida de Sebastian Knight, de Vladimir Nabokov, o primeiro escrito em inglês (1941). Knight é um escritor consagrado e que morre repentinamente, ainda jovem. O Sr. Goodman (ironia...) escreve uma biografia demasiadamente crítica – A Tragédia de Sebastian Knight -; em resposta, V. (essa é a única pista que temos do narrador, meio-irmão do escritor) resolve escrever a sua “verdadeira” biografia:

O método do Sr. Goodman é tão simplório como sua filosofia (...) Mas ele está inteiramente errado em pensar que descobriu alguma coisa uma vez forçada a fechadura. Não que eu queira sugerir que o Sr. Goodman pense. Ele não conseguiria, nem que tentasse. O livro dele se ocupa apenas com ideiasque provaram (comercialmente) atrais mentes medíocres (p. 62)

Evidentemente, Knight é um personagem fictício; o interessante – e aí chegamos a Lem e a Borges – é que “seus” livros são detalhados por V. (que fala, por exemplo, de Propriedade Perdida, O asfódelo duvidoso, Sucesso, A Montanha Engraçada).  Podemos acompanhar a "obra" do grande escritor. Na reconstituição de sua vida, a infância na Rússia (nasceu em 1899, tal como Nabokov); foi criado na Inglaterra e se tornou um escritor de sucesso; seus problemas com o novo idioma. 

Em determinado momento, o tom do livro muda, e o leitor passa a acompanhar a investigação de V para descobrir quem, afinal, foi sua última amante, russa. Cercado de pistas incertas, assume então um papel de verdadeiro detetive.

Para muitos, é o melhor romance de Nabokov, que se alinha a escritores do leste europeu que passaram a escrever em inglês (como Conrad no século anterior e Hemon no seguinte). Não por acaso, Nabokov é talvez o escritor predileto de Aleksandar Hemon.

Nenhum comentário:

Postar um comentário