quinta-feira, 9 de junho de 2011

Conto da semana - Mia Couto

O conto da semana é do escritor moçambicano Mia Couto, de quem ainda não li nenhum romance. Não por falta de opção no mercado brasileiro. Aqui, um curtíssimo conto – O Assalto - que dá o título ao livro da editora portuguesa Padrões Culturais, de 2009.  A Chris recebeu o texto de uma colega. São as vantagens da Internet. Aqui, temos um assalto diferente.

Uns desses dias fui assaltado. Foi num virar de esquina, num desses becos onde o escuro se aferrolha com chave preta. Nem decifrei o vulto: só vi, em rebrilho fugaz, a arma em sua mão. Já eu pensava fora do pensamento: eis-me! A pistola foi-me justaposta no peito, a mostrar-me que a morte é um cão que obedece antes mesmo de se lhe ter assobiado. 

Tudo se embrulhava em apuros e eu fazia contas à vida. O medo é uma faca que corta com o cabo e não com a lâmina. A gente empunha a faca e, quanto maior a força de pulso, mais nos cortamos. 

— Para trás!

Obedeci à ordem, tropeçando até me estancar de encontro à parede. O gelo endovenoso, o coração em cristal: eu estava na ante-câmara, à espera de um simples estalido. Cumpria os mandamentos do assaltante, tudo mecanicamente. E mais parvalhado que o cuco do relógio. O que fazer? Contra-atacar? Arriscar tudo e, assim sem mais nem nada, atirar a vida para trás das costas?

(...)


Mas este curioso assaltante não lhe pediu dinheiro, relógio ou o carro:


(...)
— O que quer de mim?

— Eu quero conversar.

— Conversar?

— Sim, apenas isso, conversar. É que, agora, com esta minha idade, já ninguém me conversa.

Então, isso? Simplesmente, um palavreado? Sim, era só esse o móbil do crime. O homem recorria ao assalto de arma de fogo para roubar instantes, uma frestinha de atenção. Se ninguém lhe dava a cortesia de um reparo ele obteria esse direito nem que fosse a tiro de pistola. Não podia era perder sua última humanidade — o direito de encontrar os outros, olhos em olhos, alma revelando-se em outro rosto. 

E me sentei, sem hora nem gasto. Ali no beco escuro lhe contei vida, em cores e mentiras. No fim, já quase ele adormecera em minhas histórias eu me despedi em requerimento: que, em próximo encontro, se dispensaria a pistola. De bom agrado, nos sentaríamos ambos num bom banco de jardim. Ao que o velho, pronto, ripostou:

— Não faça isso. Me deixe assaltar o senhor. Assim, me dá mais gosto.

(...)

Um assaltante especializado em roubar atenção.  Os que tive o desprazer de conhecer apenas se interessavam pelas minhas carteiras (um ficou tão irritado com o moedeiro vazio que ainda se deu ao trabalho de voltar e devolvê-lo, jogando-o na minha cara) e, vez por outra, meus relógios.  E, até hoje, com sobressaltos.

Um comentário:

  1. Olá Fábio,
    Pecebo que nosso "objeto" de amor é o mesmo...
    De Mia Couto li A Varanda do frangipani. É uma boa pedida.
    Abraços literários!

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