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A velocidade da luz, de Javier Cercas

Minha primeira incursão na obra do espanhol Javier Cercas é justamente no romance A velocidade da luz . Um autor que merece toda a atenção - de quem pretendo em breve ler o que muitos consideram sua obra-prima, Os soldados de Salamina (sobre um episódio da Guerra Civil espanhola), além de Anatomia de um instante (sobre a redemocratização e a tentativa de golpe de 1981). Neste A velocidade da luz Cercas cuida de outro momento histórico, um tanto alheio à experiência espanhola, a Guerra do Vietnã. Mas ela é apenas um pretexto para uma ideia bastante arriscada (mas que funciona muito bem): a história de um escritor e da construção de um personagem, Rodney Falk, um veterano de guerra com quem o narrador travou contato num período de estudos numa universidade americana, em Urbana, Illinois. Falk nos é apresentado, mais pelo seu pai e sua esposa do que pelo próprio.   O romance, na verdade, não trata do Vietnã, ou mesmo de Falk. Está centrado na história do anônimo ...

27 de janeiro, por Adam Zagajewski

Não é a primeira vez que o poema aparece por aqui - mas hoje é dia 27 de janeiro, portanto: 27 DE JANEIRO Dia gelado. Um sol de inverno. Branco vapor. Mas nesta sexta-feira não sabíamos o que celebrar, e o que chorar – o Dia Memorial do Holocausto ou o aniversário de Mozart. Nossa memória ficou perplexa. A imaginação perdeu o rumo. No parapeito da janela, uma vela chorou (fomos convidados a acender velas), mas a suave música do jovem Mozart chegou até nós pelos altifalantes, em estilo rococó, a época das asas de prata e não dos cabelos grisalhos que conhecíamos de Auschwitz, idade dos figurinos, e não da nudez, da esperança, e não do desespero. Nossa memória ficou perplexa, a imaginação cresceu, perdida em pensamentos. (do Poesia Ilimitada)

27 de janeiro - um recado de Primo Levi

Em 27 de janeiro de 1945, o campo de Auschwitz era libertado pelos soviéticos. É isto um homem? (Primo Levi) Vocês que vivem seguros em suas cálidas casas, vocês que, voltando à noite, encontram comida quente e rostos amigos,                         pensem bem se isto é um homem                                         que trabalha no meio do barro,                        que não conhece paz,                         que luta por um pedaço de pão,                        que morre por um sim ou por um não.                        P ensem bem se isto é uma mulher,  ...

A ilustre casa de Ramires à venda

A ilustre casa de Ramires está à venda - sério.  Aqui. Uma pechinca: 990 mil euros. A família proprietária (há mais de quatro séculos) reconhece o potencial turístico, mas admite não ter condições de explorar a Casa da Torre da Lagariça. De acordo com a reportagem: "Apesar de no livro  A Ilustre Casa de Ramires  não existirem referências directas à Casa da Torre da Lagariça, investigadores e historiadores não têm dúvidas em apontar as coincidências geográficas e toponímicas da obra e dos lugares em Resende. O padre Joaquim Correia Duarte, membro da Academia de História, nas suas várias monografias sobre a história do concelho, defende mesmo que “Resende acaba por ser cenário principal ou secundário de quatro das obras mais importantes” do escritor". Meu projeto de criar uma rede de hotéis literários poderia decolar...

Um leitor: Julien Sorel

- Pois bem, preguiçoso! Vai continuar a ler esses malditos livros enquanto está de guarda na serraria? Leia de noite, quando vai perder seu tempo na casa do cura, isso sim. Julien, embora atordoado pela força do golpe e todo ofendido, aproximou-se de seu posto oficial, ao lado da serra. Tinha lágrimas nos olhos, menos por causa da dor física do que pela perda de um livro que adorava. - Desça daí, animal, quero falar com você. O barulho da máquina outra vez impediu Julien de ouvir a ordem. O pai, que havia descido, não querendo se dar ao trabalho de escalar novamente o mecanismo, foi buscar uma comprida vara de derrubar nozes e com ela bateu-lhe no ombro. Mal Julien chegou ao chão e o velho Sorel, enxotando-o rudemente à sua frente, empurrou-o na direção de casa. "Sabe Deus o que vai fazer comigo!", pensava o rapaz. De passagem, olhou tristemente o riacho onde caíra o livro; era de todos o que mais prezava, o Memorial de Santa Helena. (O Vermelho e o Negro, St...

Noites brancas, de Dostoievski

Mais novo, sempre lia algum autor russo nos escaldantes meses de verão do Rio. Todos podiam estar se dissolvendo à minha volta, mas havia um certo consolo em ler alguma história passada numa São Petersburgo ou numa Moscou - para não falar de algum ponto esquecido na Sibéria - congelada pelo tal General Inverno.  No final de semana anterior ao Natal, finalmente leio Noites brancas, um daqueles livros que conhecemos antes mesmo de termos lido. Entre duas excelentes opções disponíveis para o leitor brasileiro, fiquei com a edição da Companhia Penguin, com a tradução de Rubens Figueiredo (um luxo, aliás, termos agora que escolher qual das boas edições da 34 ou da Companhia das Letras). O problema de traduzir do russo não foi exclusivo do Brasil. Carpeaux já reclamava: Dostoievski apareceu aos europeus ao lado de Turgeniev e Tolstoi; e nada mais natural do que a confusão entre eles: as traduções medíocres e pouco exatas não permitiram descobrir a imensa diferença dos es...

2018

2018 foi um ano atípico para este blog, que promete voltar à assiduidade dos seus primeiros anos. Numa retrospectiva, diria que o melhor livro de não ficção que passou por aqui foi o  livro de Peter Frankopan - The Silk Road: a new History of the World.  Como disse naquela ocasião, um livro que, na melhor tradição da língua inglesa, um texto de alta qualidade e extremamente agradável, contando a história da civilização através do comércio. Foi um ano mais dedicado à não-ficção, sem dúvida. O livro da  Lília Schwarcz, sobre a história da Biblioteca Nacional, não foi, de forma alguma, um lançamento de 2018, mas tive o prazer de conhecer a autora num evento aqui em Belo Horizonte. O incêndio do Museu Nacional, quando estava no início da leitura, mudou radicalmente o estado de espírito do blog.  Por fim, a monumental  História dos Judeus, de Simon Schama.  O primeiro volume caminha até 1492. O autor dedica especial atenção ao início do antissemitis...

Elza, a garota, de Sérgio Rodrigues

Elza, a garota. A história da jovem comunista que o partido matou Sérgio Rodrigues Companhia das Letras 216 páginas Tinha dezesseis anos. Ou assim dizem. As versões variam. Em algumas, Elza é mulher feita, vinte e um. Na maioria tem dezesseis. A idade altera talvez o grau de escândalo da união, mas não o fato de que Elza era a namorada, mulher, companheira, concubina, amante, amásia oficial do secretário-geral do Partido Comunista do Brasil —  o cargo máximo da organização —  em 1935. O ano em que a esquerda brasileira tentou o lance mais ousado e sofreu a maior derrota de sua história. Miranda tinha quase a idade do século. Bem-apessoado, simpático, dizia a todos os companheiros que amava Elza e pretendia, assim que as circunstâncias políticas permitissem, fazer dela uma mulher honesta. Antes, porém, precisava se desincumbir daquele trabalhinho de tomar o poder no país. Com atraso de quase dez anos do lançamento, li Elza, a garota , de Sérgio Rodrigues (...

Jogo de cena em Bolzano, de Sándor Márai

Jogo de cena em Bolzano Sándor Marái Tradução de Edith Elek Companhia das Letras, 2017 248 p. Deveria matá-lo? Seria um grande erro. O homem que é amado, quando morto, constitui um inimigo perigoso; você estaria lá, do nosso lado à mesa, na cama da condessa, com os passos  leves dos mortos você nos espiaria nos quartos, no jardim, estaria presente em todo lugar. Sua imagem estaria cercada pelo luto, pela pompa majestosa, as emoções e as lembranças embaladas em veludo preto e prata. E a vingança púrpura flutuaria em torno de sua memória, um vingança muda e fumegante iluminaria o caminho de suas lembranças, e eu me converteria no covarde e egoísta, no mesquinho e palerma que matou o único e maravilhoso homem que Francesca precisava ver! Não, meu filho, não vou matá-lo. Jogo de cena em Bolzano é o último romance  de Sándor Marái (1900-1989) publicados no Brasil.  Giacomo Casanova nasceu em Veneza em 1725 e logo se tornou sinônimo de libertinagem. Por a...

Lobo Antunes na Pléiade

"Sonhei com este prémio desde os 13 ou 14 anos, desde a adolescência até agora. É o maior reconhecimento que se pode ter enquanto escritor, muito maior do que o Nobel". Foi o que afirmou António Lobo Antunes pouco depois de ser informado de que a Biblioteca La Pléiade quer publicar a sua obra. Visivelmente emocionado com a sua entrada nesta prestigiada colecção francesa, o escritor acrescentou: "Estar no meio desta gente sábia dá-me muito prazer e muita alegria." A matéria pode ser lida  aqui.