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Dante por Ian Thomson

Artigo, em inglês, publicado no site da  Spectator , sobre o livro de Ian Thomson sobre a Divina Comédia . Dante, segundo ele, é o patrono dos perseguidos: Oscar Wilde tinha um exemplar do livro à mão, Primo Levi procurava se lembrar de seus versos enquanto lutava pela sobrevivência em Auschwitz, Osip Mandelstam só saía de casa com um exemplar no bolso. A autora do artigo, Frances Wilson, destaca a existência de cerca de 50 traduções desse monumento para o inglês. Mas, afinal, o que atrai um leitor do século XXI à leitura da Comédia ? Simples: The reason Dante still matters, Thomson argues, is not because readers today ‘fear damnation or are moved by the beauty of the Christian revelation, but because he wrote the story of an ordinary man — an Everyman — who sets out hopefully in this life in search of renewal’.

A Promessa, de Friedrich Dürrenmatt

Pouquíssimo conhecido no Brasil, como a literatura suíça em geral, Friedrich Dürrenmatt (1921-1990) escreveu peças e romances policiais. Salvo engano, foi publicado por aqui lá pelos anos 90. A Promessa (1958) é quase uma tese sobre o romance policial. Um ex-comandante da polícia encontra o autor após uma conferência literária sobre o gênero. Começa a criticar ambos: o romance policial é uma farsa, os escritores nos enganam, dando um crédito indevido à lógica... e começa a contar um episódio. Assim, em poucas páginas, o narrador deixa de ser o autor e passa a ser o próprio ex-comandante, que conta uma história ocorrida há muitos anos. Matthäi, grande comissário de polícia, prestes a deixar a Suíça para assumir um posto na Jordânia, resolve postergar sua nova missão para investigar o assassinato de Gritli Moser, uma menina de Magendorf. Matthäi promete aos seus pais desolados encontrar o assassino. É a promessa. O corpo foi encontrado na floresta pelo caixeiro viajante ...

Nobel Alternativo?

Depois do vexame e do escândalo, o Nobel de Literatura de 2018 foi cancelado. Surge agora uma Nova Academia, que propõe uma premiação alternativa. Algumas coisas não mudam: não há qualquer escritor brasileiro na lista. Mas, sinceramente, colocar no mesmo patamar Ian McEwan e Amós Oz com J.K. Rowling... De fato, algumas coisas nunca mudam mesmo.

The Silk Roads: A New History of the World, de Peter Frankopan

The Silk Roads: A New History of the World Peter Frankopan Bloomsbury Publishing Lançado em 2017, esse livro de Peter Frankopan permanece inédito no Brasil. Não sei se alguma editora irá publicá-lo por aqui - fica a sugestão/pedido. Li, obviamente, pelo Kindle, mas merece um lugar na estante. É comum nos depararmos com "novas histórias", novas visões, mas raramente percebemos o "novo". Frankopan, por outro lado, acerta em cheio. Especialista em Bizâncio e na Ásia Central, ele simplesmente conta a história do mundo a partir daquilo que viemos a chamar de "Rotas da Seda", abandonando uma visão mais eurocêntrica. Afinal, escreve, a Ásia Central é o lugar onde os impérios foram criados".  O Império Persa, por exemplo, se sobressai, por volta do século VI a.C, expandindo-se até o Himalaia, o Mar Egeu e o Egito. Segundo ele, quando pensamos em globalização como algo do século XXI, ignoramos esse "pequeno detalhe" - há mais de 2...

Ulisses e Eumeu

Ao que parece, foi encontrado o mais antigo registro escrito da Odisseia , mais exatamente uma placa com fragmento do Canto 14, aquele em que Ulisses, tendo retornado a Ítaca, reencontra o seu criado Eumeu. O achado se deu durante escavações na cidade de Olímpia e, ao que tudo indica, data do século III a.C. Ismail Kadaré escreveu o romance O dossiê H, passado na sua Albânia. Na história, dois irlandeses, Max Roth e Willy Norton, viajam na década de 30 para estudar a epopeia albanesa para descobrir a forma de composição dos dois poemas. Há uma eterna discussão: existiu um sujeito chamado Homero, que teria criado essas histórias? Muitos acreditam que não, e que o que lemos hoje seriam "obras coletivas" passadas de geração em geração por cantores épicos.  O achado em Olímpia não resolve a questão, mas é fascinante encontrarmos um registro tão antigo da epopeia. 

Com Borges, de Alberto Manguel

Com Borges Alberto Manguel Traduzido por Priscila Catão Editora Âyiné, 2018 Abro caminho com os ombros no meio da multidão na Calle Florida, entro na recém-construída Galeria del Este, saio pelo outro lado e atravesso a Calle Maipú e, encostando-me na fachada de mármore vermelho do número 994, pressiono o botão do 6B. Entro no hall frio do prédio e subo os seis andares de escada. Toco a campainha e a empregada abre a porta, mas, antes que ela me deixe entrar, Borges sai de trás de uma cortina, com a postura bastante ereta, terno cinza abotoado, camisa branca e gravata amarela listrada levemente torta, arrastando-se um pouco ao se aproximar. Cego desde quando havia quase sessenta anos, ele se move hesitante mesmo num espaço que conhece tão bem quanto o seu. Estende a mão direita e me dá as boas-vindas com um aperto distraído e fraco. Não há mais formalidades. Ele se vira e me guia até a sala de estar, sentando-se ereto no sofá virado para a entrada. Eu me acomodo na poltro...

Voragem, de Junichiro Tanizaki

Vim hoje à sua casa com a intenção de lhe contar todo o incidente, sensei, mas... noto que interrompi seu trabalho. Tem certeza de que não se importa? Narrada em detalhes, a história é longa e tomará um bocado de tempo... Eu podia até registrar os acontecimentos no papel em forma de romance e submetê-lo em seguida à sua apreciação, soubesse eu ao menos redigir melhor. Falando a verdade, eu me pus realmente a escrever há alguns dias num repente, mas o fato é que as ocorrências se embaralhavam em minha cabeça e, despreparada como sou, não consegui nem sequer descobrir por onde ou de que jeito começar. Logo vi que só me restava realmente esta alternativa: pedir-lhe a atenção. E aqui estou, embora aflita por perturbar suas preciosas horas de trabalho. Tem certeza de que não se incomoda? Sempre me tratou com tanto carinho, sensei, que acabo abusando da sua generosidade. Aliás, nunca serei capaz de agradecer devidamente tanta bondade, por mais que me esforce. É o primeiro parágr...

La disparition de Josef Mengele, de Olivier Guez

Em 1949, Mengele chega a Buenos Aires. Perón está atento à chegada de hordas de fugitivos nazistas. Espera por uma guerra entre Estados Unidos e União Soviética e imagina que a Argentina pode se dar bem num cenário pós-apocalíptico. A caçada aos nazistas ainda não havia começado.  Esse trabalho de Olivier Guez (Strasbourg, 1974) recebeu o Prêmio Renaudot de melhor romance de 2017 - por seu "romance-verdade". Mas esse La disparition de Josef Mengele não é exatamente um romance. É realmente um grande trabalho de pesquisa e de reconstituição da vida do monstro alemão de 1949 a 1979, quando morre em circunstâncias estranhas em Bertioga. Guez nos mostra os contatos que mantiveram um dos homens mais procurados do mundo a salvo da Justiça - ele jamais respondeu pelos seus crimes.  De fato, Guez é um conhecido jornalista, que se destacou, na França, por L'impossible retour, une histoire des juifs en Allemagne depuis 1945.  Somente a partir de 1960, com a captura de ...

A Master Storyteller from 19th Century Brazil

É o que diz  este artigo do New York Times, celebrando o lançamento, em inglês, de um The Collected Stories of Machado de Assis.  São 930 páginas, que trazem 76 contos, traduzidos por Margaret Jull Costa e Robin Patterson. O artigo, assinado por Parul Sehgal, afirma que os contos não estão à altura dos romances, mas are a spectacular place to start.

Philip Roth (1933-2018)

Meses depois de  Aharon Appelfeld , a quem entrevistou, morreu no último dia 22 o maior de todos, Philip Roth.  Ironicamente, não haverá Nobel de Literatura este ano. A Academia, que tanto esnobou o autor de Pastoral Americana, Operação Shylock e Complexo de Portnoy , está envolvida em escândalos sexuais. Outra ironia: muitos detratores de Roth se incomodavam com seus textos e o chamavam de misógino, machista, sexista... enfim, uma besteira que diz muito mais a respeito da Academia do que de Roth.  Como escrevi quando comentei a biografia de Roth ( Roth Libertado , de Claudia Pierpoint Roth), "Claire Bloom, por exemplo, ao se separar do escritor, lançou um livro de memórias que definitivamente consolidou uma percepção não muito favorável da pessoa de Roth no grande público.  Pode explicar, por exemplo, a recusa da Academia em conceder-lhe o Nobel. Em tempos politicamente corretos, não parece muito provável a premiação de um americano acusado de misogin...