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Conto da semana, de Thomas Bernhard

Pisa e Veneza Os prefeitos de Pisa e Veneza tinham concordado em molestar os visitantes de suas cidades, que havia séculos se encantavam em igual medida tanto com Pisa como em Veneza, mandando transferir, em segredo e da noite para o dia, a torre de Pisa para Veneza e o campanário de Veneza para Pisa, instalando-os no novo local. Mas não conseguiram manter segredo de seu intento e, justamente na noite em que pretendiam mandar transportar a torre de Pisa para Veneza e o campanário de Veneza para Pisa, foram internados no manicômio: naturalmente, o prefeito de Pisa no manicômio de Pisa e o prefeito de Veneza no manicômio de Veneza. As autoridades italianas lograram tratar a questão dentro do mais absoluto sigilo. O conto está em O Imitador de Vozes, Companhia das Letras. Tradução: Sergio Tellaroli.

Advogados nada Ilustres - Pierre Pathelin

A farsa mais duradoura da literatura francesa, Maistre Pierre Pathelin, foi representada pela primeira vez por volta de 1464, repetindo-se até 1872. Pathelin é um pobre advogado faminto de casos. Convence um negociante de fazendas a vender-lhe seis varas de pano, e convida-o para jantar naquela noite a fim de receber o pagamento. Quando o comerciante chega, Pathelin está de cama ardendo em fingida febre, e afirma nada saber a respeito das varas ou do jantar. O comerciante sai indignado, encontra o pastor de seu rebanho, acusa-o secretamente de dispor de vários carneiros e convoca-o perante um juiz. O pastor procura um advogado barato e encontra Pathelin, que o aconselha a fingir de idiota e a responder a todas as perguntas com o bé do carneiro. O juiz, iludido com os bés e atrapalhado pela mistura de queixas do comerciante tanto contra o pastor como contra o advogado, proporciona à França uma frase célebre ao pedir a todas as partes: Revenons à ces moutons – Voltemos a esses carne...

Prefácios

“Pela metade do século XX”, diz a Encyclopaedia Britannica (XVI, I oa), “a literatura sobre Napoleão já contava com mais do que 100.000 volumes”. Por que ajuntar mais um a essa pilha? Não temos melhor motivo do que dizer que as Parcas repetidamente esqueceram-se de nós, e nos deixaram para uma vida passiva, de pacíficas leituras, após 1968 (...). Will (1885-1981) e Ariel (1898-1981) Durant – A Era de Napoleão (vol XI de sua História da Civilização). 

O Romancista Ingênuo e Sentimental, de Orhan Pamuk

Convidado a participar do ciclo Charles Eliot Norton da Universidade Harvard,  Pamuk se inspirou no Sobre a Poesia Ingênua e Sentimental de Schiller (1795) para suas palestras.  Se você está cansado do discurso do fim do romance, ou meio deprimido por acreditar nisto, o livro é uma excelente pedida. Pamuk ressalta que nunca se leu e escreveu tantos romances.  O grande prazer de ler os romances, afirma, está na habilidade do leitor em ver o mundo não "de fora", mas pelos olhos dos próprios personagens. Essa capacidade diferenciaria o romance de todos os demais gêneros. Desde o início, avisa que o seu favorito é Anna Karenina. Mas falará de Guerra e Paz, além de autores como Melville (sua observação sobre o "centro" de Moby Dick é muito didática), Calvino, Borges, Nabokov, entre outros. Nunca participei de um curso de Escrita Criativa, mas imagino que eles devem ter uma linha semelhante à do livro de Pamuk.  Algumas considerações interessantes...

Conto da Semana, de Slawomir Mrozek

O conto da semana é novamente do polonês Slawomir Mrozeck, O Leão. Da mesma coletânea de outro conto já comentado aqui, desta vez trata de um leão, em Roma, cuja função era comer os cristãos. O Imperador dá o sinal, os leões avançam, mas um deles, para espanto de todos, prefere comer sua cenoura. Gaius, cuja função era assegurar o espetáculo - fazendo com que os leões efetivamente trabalhassem - usa o chicote com mais força, mas o leão retruca - deixe-me em paz. - Você não precisa comê-los; basta correr atrás deles e rugir um pouco... Mas o leão estava irredutível: depois ninguém vai acreditar que eu não os comi.  Por que vocês não fazem pessoalmente? Por que os leões?  Os romanos têm asma, são velhos... Velhos?  Você é mesmo um político. Nunca te passou pela cabeça a possibilidade de os cristãos chegarem ao poder? Leia nas entrelinhas... Constantino O Grande vai chegar a um acordo com eles cedo ou tarde. E vocês vão tentar se reabilitar, dizendo: nun...

Tradição Natalina no Rio - O Quebra Nozes

Já é tradição no Rio a montagem do balé O Quebra-Nozes, de Tchaikovsky, no Theatro Municipal, fechando a temporada em dezembro (se não me engano, a versão de Dalal Achcar é apresentada desde 1981). Desta vez, fomos com as crianças, que ainda não conheciam o local - por si só, um programa. É a primeira visita que faço desde a conclusão da última grande reforma. No balé, para as crianças, a surpresa em constatar que muitas músicas já lhes eram familiares (evidentemente que sem saber que se tratava de uma obra do compositor russo), além do encantamento com a história e os cenários. 

Havel na Hrad

Em 19 de novembro, Václav Havel, que se achava praticamente em reclusão domiciliar na região rural ao norte da Boêmia, voltou à tumultuada capital, onde os comunistas estavam perdendo o controle, sem que houvesse aparecido alguém que lhes tomasse o poder. (...) Por meio de um acordo, Dubcek foi eleito presidente da Assembleia Federal. A presidência do país coube ao próprio Václav Havel – ideia implausível e que tinha sido por ele educadamente descartada quando, apenas cinco semanas antes, as multidões nas ruas de Praga conclamavam: ‘ Havel na Hrad” (Havel para o Castelo). Já em 7 de dezembro, entretanto, o dramaturgo chegara à conclusão de que aceitar o cargo talvez fosse a melhor maneira de facilitar a saída do país do comunismo; em 28 de dezembro de 1989, a mesma Assembleia Comunista que sancionara leis que até então haviam consignado Havel e outros a anos de reclusão agora o elegia presidente da República Socialista da Tchecoslováquia. No primeiro dia de 1990, o novo p...

Khadji-Múrat, de Liev Tolstoi

Khadji-Múrat Editora Cosac Naify 2009 224 páginas Tradução de Boris Schnaiderman Vorontzov recebeu Khadji-Múrat, parado na extremidade da mesa. O velho rosto alvo do comandante em chefe não estava sorridente como na véspera, parecia antes severo e solene. Entrando na grande sala, com a mesa enorme e as janelas amplas, de rótulas verdes, Khadji-Múrat enconstou as mãos pequenas e queimadas de sol àquela parte do peito em que se cruzava a tcherkeska branca e disse clara e respeitosamente, em dialeto kumiko, que ele conhecia bem, sem se apressar e de olhos baixos: -  Entrego-me à alta proteção do grande czar e à vossa. Prometo servir ao czar branco fielmente, até a última gota de sangue, e espero ser útil na guerra contra Chamil, inimigo meu e vosso (p. 95). Tolstoi escreveu grandes romances grandes, como Anna Karenina e Guerra e Paz, além de novelas – algo entre um romance breve e um conto longo. Meu favorito é A Morte de Ivan Ilych . Todo estudante de ...

Conto da semana, de Duncan Bush

Novamente do Best European Fiction 2012, o conto da semana é do escritor Duncan Bush, Bigamia. Três amigos lêem o jornal pela manhã – o recém-suicidado News of the World. Tony Pye se impressiona com a notícia de um caminhoneiro que tinha duas esposas, duas casas e dois lotes de filhos – quatro com uma, dois com a outra. Por 14 anos, foi pai e marido de duas famílias sem que uma soubesse da existência da outra. Como ele conseguia? Fácil: era caminhoneiro – ao sair de uma casa poderia falar que estava indo para qualquer lugar: Espanha, Portugal etc. E se ele se esquecesse e trocasse os nomes das mulheres e dos filhos? E se trocasse as atividades das crianças? Como organizar as contas de cada lar? A mulher de Tony sabia mais do estado das suas roupas do que ele próprio. Ela certamente perceberia tudo. Portanto, surge a dúvida: ou o sujeito era muito inteligente, como achava Tony, ou as duas mulheres absolutamente estúpidas, na opinião de Mike Buller. O terceiro ...