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Subindo Babel

A Torre de Babel. Pieter Brueghel, o Velho, c. 1563 - Museu Kunsthistorisches, Viena Para mim, o maior prazer em aprender um idioma é poder descobrir novos autores e lê-los no original. Também ganhar mais acesso às televisões estrangeiras é um grande barato. E, claro, viajar. Por isso, confesso uma certa inveja de pessoas e personagens poliglotas. Marco Lucchesi, o mais novo membro da ABL, pode se dar ao luxo de ler não só em línguas "conhecidas" como francês, italiano e inglês, como também em servo-croata, persa, romeno, russo e mais uma dezena. Em A Língua Absolvida (Companhia das Letras, 1996), Elias Canetti fala de seu avô, Elias Abraham Canetti, comerciante que se gabava de dominar 17 idiomas. Impossível disfarçar a inveja...

Caderno de Economia - com Machado de Assis

Eu, acionista do Banco Do Brasil, que nunca saio, Que nunca daqui me arranco, Inda que me caia um raio, Para saber como passa O Banco em sua saúde, Se alguma coisa o ameaça, e ganha ou perde em virtude, Li (confesso) alegremente, Li com estas minhas vistas, O anúncio do presidente Convocando os acionistas. Para quê? Para o debate Do reformado estatuto, Obra em que há de haver combate, Que traz gozo, que traz luto. Pois nesse anúncio, à maneira De censura, escreve o homem Que é já esta a vez terceira Que chama e que eles se somem. Minto: sumiram-se duas. Não tem culpa o anunciante, Se há necessidades cruas Do metro e de consoante. Pela vez terceira os chama, E agora é definitivo, Muitos que fiquem na cama, Um só punhado é preciso. Mas eu pergunto, e comigo Perguntam muitos colegas, Que, indo pelo vezo antigo, Não vão certamente às cegas: - O acionista de um banco, Só por ser triste acionista, É algum escravo branco? Não tem foro que lhe assista...

A dama do cachorrinho

O vídeo é do filme "A Dama do cachorrinho", de 1960; produção russa (soviética) que comemorou o centenário de nascimento de Anton Tchekov (1860-1904). Esta é a primeira das nove partes. Dirigido por Iosif Kheifits, com Aleksey Batalov (Gurov) e Iya Sawina (Anna Sergueyovna). Tenho especial carinho pelo gênero conto. E, falando em contos, Tchekov é presença obrigatória. Seus contos são sempre breves; Tchekov cria atmosferas com poucas palavras. Neste sentido, é bem diferente de Tolstoi (que também será presença constante neste blog...). No Brasil, suas peças são encenadas com frequência ( Tio Ványa, O Jardim das Cerejeiras, Três Irmãs ). Dmitri Dmitrich Gurov descansa em Yalta. Casado e com filhos, passa a trair a esposa e, após tantos casos sem importância, passa a encarar as mulheres com cinismo. Situação que, claro, irá mudar com a chegada à cidade de uma mulher que passeia com seu cachorrinho - Anna Segueyovna. Após iniciado o affair , ela retorna a S. e ele, a ...

Livrarias Inesquecíveis

Desde 1952, a Livraria Leonardo da Vinci é uma referência no Rio. Em tempos pré-Amazon e pré-Internet, era a grande janela que nos ligava às editoras americanas e europeias. Tínhamos acesso aos catálogos das editoras e a uma infinidade de exemplares estrangeiros (até em russo). E, se por alguma razão, não encontrávamos o que queríamos, era só pedir e aguardar (hoje inimagináveis) semanas... Meus primeiros livros ingleses e franceses vieram de lá. Coleções que existem até hoje, como a Librio, de 2 euros (na pré-história, 10 francos) e da Dover Thrift Editions (a inacreditáveis US$1,50). Edições completas, bem cuidadas e baratas, mesmo com o famigerado "dólar-livro". Já o taxímetro das nossas edições mais baratas em geral parte dos R$20,00...

Mar de Histórias

Mar de Histórias. Antologia do Conto Mundial. Coleção em 10 volumes. Nova Fronteira Aurélio Buarque de Holanda e Paulo Rónai reuniram em dez volumes nada menos que 242 contos, escolhidos entre 195 autores de mais de 40 países, e foram responsáveis pela apresentação de vários deles ao leitor brasileiro. A 1ª edição do 1º volume é de 1945. Ao que me consta, desde 1998 encontra-se esgotada. Em todos os contos, há um pequeno prefácio que não apenas apresenta o autor, como também indica o texto utilizado para a tradução. A partir daí, descobri autores como Saki, Akutagawa e L'Isle Adam, para citar alguns mais esquecidos. Evidentemente, diante de uma coletânea deste porte, não se deve esperar grande regularidade; como toda antologia, pode ser avaliada tanto pelo que apresenta como pelo que exclui... mas o saldo é amplamente positivo.   De Saki , por exemplo, há dois contos no nono volume: A Porta Aberta , que em 1989 virou curta nacional (da época do Sarney - quem, com mais ...

Outra Visão - Machado de Assis e o Encilhamento

Já Machado de Assis ( Esaú e Jacó ) resume o Encilhamento (que, no romance, tanto enriqueceu Nóbrega) em um único parágrafo – de forma impecável: Cascatas de idéias, de invenções, de concessões rolavam todos os dias, sonoras e vistosas para se fazerem contos de réis, centenas de contos, milhares, milhares de milhares, milhares de milhares de milhares de contos de réis. Todos os papéis, aliás ações, saíam frescos e eternos do prelo. Eram estradas de ferro, bancos, fábricas, minas, estaleiros, navegação, edificação, exportação, importação, ensaques, empréstimos, todas as uniões, todas as regiões (...).  Tudo andava nas ruas e praças, com estatutos, organizadores e listas (...). Nasciam as ações a preço alto, mais numerosas que as antigas crias da escravidão, e com dividendos infinitos.

Advogados nada ilustres - Ferreira Sodré

Famílias compravam papéis de empresas recém criadas, muitas delas fantasmas e que jamais foram de fato constituídas (mas nem todas; a Companhia de Construções Civis foi responsável pela urbanização de Copacabana), dando como pagamento fazendas e títulos da dívida pública. Esta foi, inclusive, a grande participação de Ferreira Sodré, advogado criado pelo Visconde, e que: Não carregava, porém, nome lá muito puro. Pródigo e, solteiro embora, precisando sempre de dinheiro, que espalhava a rodo pelo corrido de parasitas e admiradores de que vivia cercado, exercia a advocacia administrativa com todo o desfaçamento e tanto mais proveito, quanto os ministros conheciam o seu inestimável valor e préstimo nos dias de apuros, interpelações e crises. Não à toa, Ferreira Sodré tinha seu lema: “não procurem fazer os outros melhores do que são – Deus os criou assim, a culpa é Dele”. Assim, não devemos nos surpreender quando Costa Bretas o procura em seu escritório, no Rio, para a montagem de u...

A Bolha do Visconde

Em um livro considerado menor pela crítica - quando não totalmente esquecido - o Visconde de Taunay apresenta um retrato da vida carioca nos idos de 1893 e da quebra da Bolsa do Rio: O Encilhamento . Uma reedição não cairia mal. Curiosamente, meu exemplar, garimpado na Livraria Cultura, é de 1971, quando a Bolsa de Valores do Rio sofreu uma nova grande queda, pulverizando para sempre a riqueza de muitos... O governo criou bancos de emissão de moeda, não mais lastreada no ouro, mas em títulos da dívida pública. O país, que atravessava crise de falta de liquidez, passou a outro extremo, o do excesso de crédito, que foi canalizado pela Bolsa: empresas eram constituídas da noite para o dia, emitiam debêntures e com isso captavam boa parte da poupança popular. Os poucos endinheirados da época vendiam fazendas para comprar estes papéis, muitos de companhias inidôneas, o que gerou uma bolha, que finalmente “estourou” em 1893. Nem todas as empresas eram de fachada. Algumas prosperaram,...