domingo, 8 de fevereiro de 2015

Dora Bruner, de Patrick Modiano

A Rocco relança alguns romances do Nobel de 2014, Patrick Modiano (1945). Para muitos, esse Dora Bruder, originalmente escrito em 1997, sua obra-prima.





Li Dora Bruder, numa edição francesa de bolso (Gallimard). No final da década de 80, examinando um exemplar do jornal Paris-Soir de dezembro de 1941, Modiano depara-se com um aviso dos pais de Dora, à sua procura. Indicam o endereço no Boulevard Ornano, perto da Porte de Clignancourt.

O narrador conhece o bairro; nele passou parte da juventude. É isso que o leva a indagar: o que se passou com a menina? Como vivia uma família judia sem recursos na Paris ocupada? 




Dora Bruder entre seus pais

O que temos em Dora Bruder é uma história a partir de quase nada. Neste sentido, as semelhanças com Gotz e Meyer, de David Albahari, são facilmente percebidas. Mas Albahari parte com mais convicção para a ficção. 

Modiano investiga o episódio. Tenta rastrear Dora e descobrir o que ocorreu naquele período - ela abandona o colégio de freiras e termina capturada pela polícia colaboracionista.  Modiano sempre fez questão de expor de forma clara a conduta moral dos franceses sob domínio nazista, e não é nada daquilo que por muito tempo se pensou. Ocupação e colaboração. 

Aquilo que não consegue descobrir, imagina, mas sem tentar inventar uma história. Tanto Dora quanto seu pai foram internados no campo de Drancy, antes de serem deportados para Auschwitz.

Modiano faz diversos paralelos entre a adolescência de Dora e a sua própria. Esse é o ponto. Assim, o livro não é apenas sobre Dora, mas também sobre o autor: se Dora foi, para a polícia francesa e para os alemães, um número, um arquivo perdido na burocracia, Modiano traz à tona uma pessoa, uma menina de quinze anos, de 1,55m e rosto oval, em fuga, perdida numa cidade de que não mais fazia parte.

Em 1965, eu não sabia nada de Dora Bruder. Mas hoje, depois de passados trinta anos, acho que essas longas esperas nos cafés do boulevard Ornano, certos itinerários, sempre os mesmos -  subia a rua MontCenis, para chegar aos hotéis da Butte Montmartre: o Roma, o Alsina ou o Terrass, na rua Caulaincourt -, e as impressões fugidias que guardei: uma noite de primavera, quando se ouviam as vozes entre as árvores da praça de Clignancourt, e no inverno novamente, a descida para Simplon e o boulevard Ornano, tudo isso não aconteceu somente por acaso. Talvez, mesmo que não tivesse ainda consciência do fato, eu já estivesse na pista de Dora Bruder e seus pais. Eles já estavam lá, em filigrana.





2 comentários:

  1. Não sei se é culpa da tradução (lí em espanhol). Mais parece um pesquisador social. Mas é uma boa amostra. Vamos ver os outros livros... E.

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  2. Acabei de ler o livro. Agora tenho uma visão melhor já que a investigação vai aumentando (e os resultados diminuindo). Um livro - a principio despretensioso - mas que prende o leitor. E.

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